Vila Algarve: Museu ao ar livre ou uma casa abandonada?

Imagine passar todos os dias por um lugar onde pessoas foram interrogadas e torturadas durante a luta de libertação nacional e não saber absolutamente nada sobre isso. Imagine, ainda, que esse lugar continua de pé, no coração da cidade, mas que o tempo, o abandono e o silêncio parecem ter decidido contar outra história. É assim a Vila Algarve. Hoje, para muitos habitantes de Maputo, pode ser apenas mais uma construção portuguesa antiga, deteriorada pelo tempo. Uma casa abandonada. Um edifício que já ninguém parece querer. Mas aquelas paredes carregam uma história que não deveria ser esquecida. Durante as décadas …

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A Ficção Que Te Paga o Salário — Parte III

Oh que surpresa, uma trilogia. Arranjem-me um John Williams para banda sonora. Na Parte I desmontámos o dinheiro. Na Parte II desmontámos o campo de futebol. Hoje vamos desmontar o mapa. Olha para um mapa. Qualquer mapa. Aquelas linhas que separam um país do outro, uma cor da outra, um nome do outro. Agora pergunta-te: quem as desenhou? E para quem? As fronteiras não existem na natureza. Nenhum rio sabe que é a fronteira entre dois países. Nenhuma montanha sabe que de um lado se fala espanhol e do outro português. Nenhum pássaro apresenta passaporte. Aliás, se os pássaros precisassem …

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A campainha da História

Volto muitas vezes a um extraordinário livro do jornalista norte-americanos Otto Friedrich (1929-1995): Antes do Dilúvio (edição brasileira de 1997). Não é um livro sobre Hitler. Nem sequer é um livro sobre o nazismo. É um livro sobre tudo o que existia antes deles. Sobre uma Berlim vibrante, cosmopolita, irreverente, artisticamente deslumbrante, convencida de que vivia o auge da modernidade. Uma cidade onde conviviam Einstein, Brecht, Marlene Dietrich, Otto Dix, George Grosz e tantos outros. Uma cidade onde quase ninguém imaginava que o chão já estava a desaparecer debaixo dos pés. Talvez seja por isso que volto tantas vezes a esse …

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E aí, respeita as minas?

O futebol, depois da copa das bets, vem flertando com setores e empresas que acendem as polêmicas entre torcedores e até com o Ministério Público. É o que vem acontecendo com o recente contrato do Sport Club Corinthians Paulista, fundado em 1910, com a empresa Fatal Fans, uma plataforma brasileira de monetização de conteúdo adulto por assinatura, desenvolvida pela software house Atlas Technologies, e que pertence ao mesmo grupo empresarial que mantém o site de anúncios de acompanhantes, o Fatal Model. O contrato prevê investimento recorde de R$ 22 milhões (cerca de 3.770.000€) até dezembro de 2027 para estampar a …

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Discurso sobre o amor com soneto de fundo

Amor é fogo que arde sem se ver, mas logo se nota quando aquece a pele. As emoções vivem no corpo, e isso é uma parte essencial do seu próprio significado como conceito. Elas são o lugar em que o significado e o corpo coincidem, em que o somático é também semântico. Os opostos mais básicos estão entrelaçados, e a poesia, a arte, é a sua linguagem natural. O que se sente não cabe nas palavras. Será sentido, mas não tem sentido: simplesmente é. Pensamos as emoções como boas e más, próximas ou contrárias, e às vezes até criamos um …

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Caldeirada de raias e travessões

Em casa, quando era criança, às vezes comíamos raia ao jantar. Na verdade, nunca fui grande apreciador, não pelo sabor, mas pola textura e por aqueles travessões —————— fibrosos que, parecendo filamentos de plástico, me causavam uma repulsa difícil de explicar. Quase sempre a comíamos em caldeirada, um prato que também se encontrava em muitos menus de restaurantes, polo menos nas Rias Baixas e que hoje é difícil de ver, num cenário de invasão alimentar, primeiro pola cozinha padronizada espanhola, e agora pola americana (germânica e italiana). A raia – que, por acaso, na Galiza tem o mesmo nome que …

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As únicas influenciadoras que vivem só de erva 

“Ó Maria, olha para aquele senhor… já nos tirou mais fotografias do que à mulher.” “Deixa-o. Em casa diz que veio ver tratores.” “E veio.” “Veio, veio… mas a galeria do telemóvel vai cheia de cabras.” “Sabes o que eu acho?” “Diz.” “Há quem venha para a feira ver máquinas de centenas de cavalos…” “…e acabe parado em frente a duas cabras.” “É a prova de que o bom gosto ainda não morreu.” “Ou então é porque somos as únicas aqui que não pedimos financiamento.” “Nem Wi-Fi.” “Nem café.” “Só erva. E mesmo assim somos das mais requisitadas da exposição.” …

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Da Homenagem e da saudade (ou a quarta carta)

[Por ser mês de julho e porque, se a vida fosse justa, o Chico festejaria agora 77 anos, recupero uma carta que lhe escrevi no último fevereiro, para o ter por perto] A pessoa errada. E eu, na mesa de honra, a representar os autores… Outra vez. Deixem-me começar por saudar-vos, a todas e a todos. Escrevi algumas palavras porque o momento é solene e não quero correr o risco de me perder, esquecer, atrapalhar e, mesmo assim, nada é garantido. É uma honra enorme estar nesta mesa e neste momento, em representação dessa entidade petalosa formada pelos Autores das …

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Greenwashing com depósito de dez cêntimos

Primeiro foi o greenwashing. Depois o pinkwashing. O capitalismo tem uma imaginação inesgotável para descobrir causas que fiquem bem na fotografia. Desde que não obriguem a alterar o essencial: o modelo de negócio. Agora temos uma nova modalidade: Greenwashing com depósito de dez cêntimos.O princípio é de uma simplicidade admirável. Durante décadas, produziram-se milhões de toneladas de plástico descartável. Depois convenceram-nos de que o verdadeiro gesto ecológico consiste em devolver esse mesmo plástico ao sítio de onde nunca devia ter saído.É quase uma forma de absolvição colectiva. Compramos a bebida. Pagamos mais dez cêntimos. Levamos a garrafa para casa. Guardamo-la durante dias. …

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Depois da xenofobia, o desafio da integração

Sempre que a xenofobia volta a fazer vítimas na África do Sul, o debate concentra-se, quase sempre, nas imagens de violência, nas perdas materiais e na necessidade de proteger os imigrantes. É um debate importante, mas incompleto. Há um outro lado que merece atenção: o que acontece quando os moçambicanos regressam ao país? Nos últimos dias, as redes sociais têm sido palco de mensagens que apelam à população, sobretudo às mulheres, para redobrar os cuidados porque, alegadamente, os moçambicanos que regressam poderão recorrer a roubos e outros crimes. Este tipo de discurso é preocupante. Além de não existir qualquer fundamento …

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A primeira feminista foi expulsa do paraíso?

Há uma pergunta que eu ouço cada vez mais. Não dita em voz alta. Sentida. Aparece no meio de um jantar bom, no silêncio depois de uma reunião de trabalho, nas três da manhã quando o sono não vem e o telemóvel não ajuda. O que é que andamos aqui a fazer? Não é desespero. É lucidez. É o corpo a perceber, antes da cabeça lhe dar licença, que há qualquer coisa profundamente torta nisto tudo. E que temos andado tão ocupados a sobreviver que não tivemos tempo de perguntar a quem é que sobrevivemos. Calma. Antes de ficarem sérios, …

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liberdadeS

Ditas assim, devagar, como quem passa a mão por uma parede antiga à procura de uma porta escondida.Porque talvez não exista uma só. Talvez a liberdade, no singular, seja apenas uma palavra demasiado limpa para aquilo que somos. Há antes liberdades. Pequenas. Quase secretas.A liberdade de respirar fundo numa manhã fria.A liberdade de olhar alguém nos olhos sem baixar a cabeça.A liberdade de dar um passo fora do lugar onde nos disseram para ficar. E depois há outras. Mais pesadas. Mais antigas. Liberdades que não pertencem a ninguém em particular, que atravessam gerações como um rumor persistente. Liberdades conquistadas devagar, …

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Lavadeira

Eu sou neta da Francisca, a Xica. Luandense, filha de uma mulher pescadora, Axiluanda, e de um homem do garimpo, Malangino, que fizeram a vida no musseque do Cazenga, em Luanda. Aos 15 anos, a Xica foi casada ao João, um Ribatejano já dos seus 29 anos, que trabalhava numa obra perto daquele musseque e um dia pediu a sua mão aos seus pais. O João havia chegado àquela terra, antes reinada por Nzinga Mbandi mas que seguia há alguns séculos invadida por povos do mar distante de Portugal. Chamavam-na de província ultramarina de Angola. Dizia eu que o João …

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O Cristiano Ronaldo do Barroso não jogava futebol

Todas as terras esperam, em silêncio, que um dia alguém as torne maiores do que o mapa onde cabem. É um fenómeno raro. Não depende da geografia, nem da riqueza, nem sequer da sorte. Depende de aparecer alguém que carregue um lugar às costas sem nunca o transformar num fardo. Há quem o faça correndo. Há quem o faça caminhando. Uns atravessam fronteiras com o corpo. Outros atravessam o tempo. Durante décadas, o padre Fontes fez uma pergunta que parecia simples, mas continha uma inquietação maior: o que acontece a um povo quando deixa de reconhecer a sua própria voz? …

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Da privatização selvagem à privatização rebelde

Deve estar para breve a descoberta de um novo negócio infalível: um ambientador para o espaço público ou, enquanto a invenção não chega, uma máscara perfumada para todos usarmos no nariz. Nem percebo porque é que não corro já a registar-lhe a patente. O “empreendedorismo” neoliberal nunca nos falhou: o problema que o capitalismo cria é o problema que o capitalismo resolve. A diferença é que, entretanto, o que não era preciso pagar, porque era de todos, foi transformado num negócio no qual “ninguém havia pensado até agora”. A novilíngua neoliberal em que os média de massas caem que nem …

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A loucura de rejeitar o paraíso ou a retirada dos invasores?

As direitas têm partilhado e usado a cartilha, segundo a qual o ímpeto migratório ocorrido em Portugal e na União Europeia faz parte de uma qualquer “invasão”, maquinada para destruir os valores europeus, ocidentais e cristãos. O conto de crianças é simples: vivíamos todos em paz, num paraíso à beira-mar plantado, habitação barata, serviços públicos de topo e salários invejáveis. Até que chegaram os invasores! Como explicar então, à luz desta narrativa, que o clube exclusivo e o jardim dos prazeres, de repente, se vejam confrontados com uma realidade em que os brasileiros desaparecem da lista de inscritos na Segurança …

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O e-Estraviz: 151.700 palavras da Galiza para o mundo

O título deste artigo, que faz referência às entradas do dicionário eletrónico e-Estraviz, eram as contas certas a em junho. Hoje a cifra é porventura já maior. E esse repositório continua a atualizar-se e a ser acrescentado. Isto deve-se ao assombroso trabalho de Isaac Alonso Estraviz (Vila Seca-Ourense, 26 de janeiro de 1935), um filólogo que está na casa dos 91 anos. Doutor em Filologia pela Universidade de Santiago de Compostela, professor reformado da Universidade de Vigo, esteve entre as pessoas fundadoras da Academia Galega da Língua Portuguesa e é membro correspondente da Academia das Ciências de Lisboa. Isaac Estraviz …

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Alexei Bueno, leitor da língua portuguesa

A morte de Alexei Bueno, no Rio de Janeiro, na madrugada de 27 de junho, aos 63 anos, interrompe uma das trajetórias mais consistentes da literatura brasileira recente. Poeta, crítico, ensaísta, tradutor e editor, ele vinha tratando um câncer e deixa uma obra construída em mais de quatro décadas de trabalho com a palavra escrita. Alexei nasceu no Rio, em 1963, e publicou seu primeiro livro, As escadas da torre, em 1984. Tinha pouco mais de vinte anos. Desde então, manteve uma relação exigente com a poesia. O primor no uso da Língua Portuguesa marcou livros como Lucernário, A via …

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O Ovo e a Galinha (de Ouro) do Futebol

Como a lógica implacável do marketing digital e dos patrocinadores transformou as convocatórias do Mundial 2026 num mero exercício de contabilidade financeira. Rio de Janeiro, 18 de maio de 2026. No imponente cenário do Museu do Amanhã, o treinador italiano Carlo Ancelotti sobe ao palco perante uma plateia elétrica de jornalistas nacionais e estrangeiros. O ambiente está carregado de um suspense cinematográfico. A grande incógnita que paralisa o país não se prende com a tática ou com a coesão da comitiva, mas sim com um único nome: Neymar Júnior. Estaria o astro na lista definitiva, mesmo após ter falhado os …

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Há um país que continua a levantar-se antes do sol

Hoje perguntei ao Fernando Leite, de Fafe, a que horas começara o dia. Respondeu que às três da manhã, porque os animais não esperam pelo nascer do sol nem pelas comodidades de quem vive longe da terra. Depois perguntei-lhe se vinha à procura de taças. Disse apenas, “vamos lá ver”, como quem sabe que o trabalho nunca dá direito a certezas, apenas à consciência de ter feito o que devia. Falámos da raça barrosã. Quis saber porque permanecia fiel a ela quando tantas outras prometem mais rendimento. Olhou para mim com alguma estranheza, como se a pergunta trouxesse já a …

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