Posto de Escuta

Não é preciso sermos académicos para sabermos todos como andamos a viver a toque de caixa. É o imposto do nosso tempo, do qual quase ninguém está isento. Paga-se, e bem, com o corpo e com a cabeça. Não é por acaso que a ideia da sociedade do cansaço, do filósofo Byung-Chul Han, tem tido tanta saída… Termos como “produtividade” invadiram a esfera científica como invadiram as restantes, transformando o quotidiano dos investigadores em constantes contas a prestar, que normalmente não prestam para nada. A produção científica entrou num tal frenesim que, hoje, a ciência sofre do mesmo mal da …

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Portugal abriu a porta. O passo seguinte é tornar o caminho mais claro

Portugal conseguiu fazer com que criar uma empresa seja mais simples. A experiência de quem passou por esse processo mostra onde se pode dar o passo seguinte: acompanhar melhor quem empreende durante os primeiros meses de atividade. Há avanços que merecem reconhecimento porque mudam a vida de quem decide pôr em marcha um projeto. A simplificação da criação de empresas em Portugal é um deles. Iniciativas como a Empresa na Hora ou a Empresa Online 2.0 representam uma maneira de entender a relação entre a Administração e quem quer empreender: facilitar os primeiros passos e reduzir as dificuldades para começar. …

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A última vitória de Heitor

Eu também fui ver o último filme de Christopher Nolan. A sua versão da Odisseia foi provavelmente o grande sucesso dos cinemas este ano, e não me foi alheio. Mas eu, ainda por cima, tinha na prateleira de leituras dois livros pendentes, que também li durante as férias: Circe ou o pracer do azul, de Begonha Caamanho, e Ophiusa, de Samuel L. Pimenta. Em ambas obras, o próprio Ulisses é um personagem importante. Li com fruição, e afinal, passei um verão homérico.  Contrariamente ao itaquiense Ulisses, eu estive a maior parte desse tempo em casa. Não vou negar que me …

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A Internacional Nacionalista

Há qualquer coisa de enternecedor num nacionalista português a festejar a vitória de um nacionalista alemão. É quase uma Internacional Nacionalista. O nome tem um pequeno problema lógico, mas não sejamos picuinhas. Se conseguimos ter influencers que recomendam livros que não leram, também podemos ter uma internacional de pessoas que defendem que cada país deve preocupar-se exclusivamente consigo próprio. A dificuldade começa depois. Porque o nacionalista alemão não acha que Portugal deve estar primeiro. A pista está, aliás, na palavra “alemão”. Ele acha que a Alemanha deve estar primeiro. O francês acha que deve ser a França. O holandês, os …

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Ceticismo apaixonado

Vou lasquinhando aproveitáveis das espinhas e cachola da pescada, que venho de fazer sopa com verduras sobrantes, para aproveitar de salpicão. A máquina de lavar vai bulebulindo a sua mecânica cantiga. É tarde entrada e planifico o dia-a-dia a seguir. A cozinha precisava de mais uma limpeza, carambas. É o seu jeito de me evidenciar o desacougo. Contudo rio. Fica-me uma sensação boa, ainda viva, da leitura, na luz da tarde, no salão. Dou em pensar, em segundo plano, por sobre o doméstico iminente, que a biografia de Bertrand Russell, The Passionate sceptic, escrita por Alan Wood, devorada nuns poucos …

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A cidadania começa precisamente aí

Há cinco anos que Jorge Sampaio morreu. A fotografia que hoje evoco é dos anos 90, numa visita a Montalegre. Eu já era repórter da Rádio Montalegre, embora pudesse passar por uma das adolescentes que estão na imagem. Naquele tempo, não saberia explicar por palavras o que era a cidadania. Sabia, porém, que havia uma comunidade à minha volta, pessoas com preocupações, ideias e direito a serem ouvidas. Estar ali, fazer perguntas, contar o que acontecia e olhar com atenção para a realidade local eram já formas de participação. Com o tempo, percebi que a cidadania começa precisamente aí: no …

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Ecologistas, naturalistas, animalistas… e outra fauna

“Aquí hi ha una cosa molt arriscada en la nostra societat: les bones intencions no justifiquen mai una mentida. S’ha de mantenir una mica el rigor científic. I a més jo no sóc un polític. (…) Ben, els ecologistes són importants, perquè promouen la conscienciació, i tan sols en aquests casos m’hi trobe prop. Però no estic gaire d’acord en els mitjans que empren.” Ramon Margalef Entre as nossas lembranças de infância, está a dos caçadores a pedirem uma gratificação (económica ou em espécie) polas raposas e outras alimárias mortas que levavam de casa em casa na aldeia. Os caçadores …

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Arrefecer motores

Para quem, como eu, foi sempre fraco em disciplinas de ciência, a simples existência do motor de combustão parece quase um milagre. Pequenas explosões controladas, no seio de cilindros metálicos, fazem mover pistões, que imprimem movimento a braços articulados, que dão movimento ao resto da maquinaria a que pertence. Inclusive o movimento gerado pode tornar-se eletricidade, que alguma bateria poderá guardar, para poder produzir outros processos. Já estão a ver que ainda não caí na moda do carro elétrico. Seja como for, tamanha precisão é ao mesmo tempo bela e assustadora. Talvez o ruído ajude a produzir ambas coisas, mas …

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Litigar é preciso

Há uma idade a partir da qual parece que deixamos simplesmente de envelhecer e passamos a constituir um problema. Um problema para a Segurança Social, para o Serviço Nacional de Saúde, para os seguros, para os bancos, para as famílias e, pelos vistos, até para quem desenha aplicações e decide que toda a gente tem obrigação de saber onde fica o raio do QR Code. Falamos muito de envelhecimento. Envelhecimento activo, saudável, digno, participado, positivo e provavelmente mais uma dúzia de adjectivos que, entretanto, me escapam. Produzimos estratégias, planos, programas, recomendações, conferências e dias internacionais. Sobretudo dias internacionais. E fazemos …

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Quatro deuses na mesma mesa

“Não sou católico praticante.” Já ouviram isto. Já disseram isto. Talvez estejam a pensar isto agora. É a frase mais portuguesa que existe depois de “desenrasca-te.” E significa exactamente a mesma coisa: eu sei que as regras existem, mas só cumpro as que me convêm. Não sou católico praticante é código. É a confissão mais honesta que a Igreja alguma vez produziu, e nem sequer acontece num confessionário. Acontece num jantar, num café, numa conversa casual. Significa: acredito num deus vago e confortável que não me chateia muito, que não me obriga a nada, que me deixa comer carne na …

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Radicalismo (ou a chatice de ter razão)

Em Janeiro de 1919 a mítica frase de Rosa Luxemburgo “socialismo ou barbárie”, transubstanciada no seu próprio sangue, corroeu com força redobrada os grilhões da crosta bruta daquela vil sépsis, sempre em constante e acelerada expansão, chamada capitalismo. Se os quatro pilares que sustentam este projecto jornalístico De Norte a Sul são o humanismo, os direitos humanos, a paz e a soberania dos povos nada melhor do que espreitar a única grande festa em Portugal que se rege por esses mesmos valores, a Festa do Avante. E não fiquem chocados com isto. Para qualquer indivíduo com alguma consciência nenhum destes …

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Diálogo (telefónico) impossível entre Bodhidharma e Martin Heidegger

Heidegger: Estou?Bodhidharma: Está?Heidegger: Estou sim. Daqui é Martin Heidegger. Quem fala?Bodhidharma: Não sei.Heidegger: Perdão?Bodhidharma: Está?Heidegger: Mas quem fala?Bodhidharma: Não sei.Heidegger: Como assim não sabe?Bodhidharma: Não sei!Heidegger: Mas o que é que não sabe?Bodhidharma: Nem sei nem “sou”.Heidegger: Ok. Então não sabe. Mas quer saber?Bodhidharma: Não sei…Heidegger: Ó meu amigo, assim não posso ajudá-lo, sabe?Bodhidharma: Sei…Heidegger: Ah, então já sabemos que sabe, e já sabemos que não sabe. Só falta questionar-se para ser Dasein.Bodhidharma: Eim?Heidegger: Dasein.Bodhidharma: O quê?Heidegger: Dasein!Bodhidharma: Dá sem?Heidegger: Dasein! O ser-aí.Bodhidharma: Ser aí? Estar?Heidegger: Estou sim.Bodhidharma: Então estar.Heidegger: Estou, estou.Bodhidharma: Então dá sem estar…Heidegger: Estou, já disse.Bodhidharma: Mas …

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Prioridades e hierarquia

A história da humanidade poderia ler-se como a história da pergunta sobre quem conta realmente como humano. A resposta a esta questão, porém, nunca foi inocente. Ao longo dos séculos, a categoria de humanidade construiu-se mediante uma dupla exclusão: por um lado, separando o humano do não humano; pelo outro, estabelecendo hierarquias entre os próprios seres humanos, algumas tão radicais que a parte deles se lhes negava a plena condição humana. Assim, enquanto uns representavam o modelo de humanidade, outros ficavam situados num espaço intermédio, como seres incompletos, inferiores ou simplesmente prescindíveis. Dessa diferença surgiram tanto as formas mais extremas …

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Reclamar a inteligência artificial como instrumento ao serviço do todo!

Muito tem sido falado sobre Inteligência Artificial e digitalização. Como é habitual, os governos portugueses são peritos em grandes pronunciamentos sobre supostos amanhãs digitais, carregados de unicórnios, start-ups, scaleups, tudo ligado por uberdrivers e uberriders. Se esta é a tónica governativa, já a tónica patronal é bem diferente. Sabem das vantagens que têm na mão, mas os amanhãs que prometem são inevitavelmente aterrorizadores. Devastação do emprego e desagregação social. O remédio que propõem é daqueles que matam o doente mais depressa do que o curam. A lista de instrumentos de política pública sobre o assunto é vasta e já possui …

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Primeiro Campo Comercial Petróleo do Brasil

A Dependência Energética no Espaço CPLP+ Entre os Fósseis e as Renováveis

O Mundo em Língua Portuguesa Opina, uma rúbrica mensal de Paulo Lamas O Dilema da Soberania Energética num contexto de crise no Estreito de Ormuz A questão do acesso, produção e segurança de abastecimento energético constitui um dos eixos mais críticos do debate geopolítico global contemporâneo. No centro desta discussão reside um dilema estrutural: deverão os Estados procurar a autossuficiência e a autonomia energética através de modelos diversificados ou continuar reféns das redes de interdependência e importação de recursos fósseis? Esta problematização ganha especial complexidade e premência no seio da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e do seu …

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O inferno somos nós.

Há uma frase que se repete todos os dias nas redes sociais: “As redes sociais estão cada vez piores.” Curiosamente, quase nunca é dita fora delas. É publicada no Facebook, no Instagram, no X ou no TikTok, acompanhada por uma fotografia, um vídeo ou um texto suficientemente apelativo para recolher umas dezenas, ou centenas, de gostos. Critica-se o algoritmo esperando, naturalmente, que o algoritmo tenha a gentileza de mostrar essa crítica ao maior número possível de pessoas. É um dos grandes paradoxos do nosso tempo. As redes sociais passaram a desempenhar o papel que antigamente cabia ao café da esquina: …

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De andar perdido

Sugo no mate. Vai meia vida. Imitando Naipaul, poderia dizer que dentro da casa o ar está quente e carregado. Já podia ir frio e a cidade estar envolta na brêtema. O facto é que no salão soam os compasses melancólicos das Chicharras de Catuxa Salom e eu termino de ler um volume de artigos de Úrsula K. Le Guin. As entrevistas e soltos desta senhora resultam-me profundamente simpáticos, elegantes, lúcidos e aliciantes. Vários dos seus romances e relatos estão entre os meus favoritos. Gosto, com os anos, a cada vez mais, como se Tolkien plagiasse Swift em solaina antiga …

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O esteiro do Minho, fronteira ou passagem?

Desde Camposancos até Caminha são apenas 4 quilómetros em linha reta através do rio Minho. Houve em tempos um Ferryboat que funcionava regularmente durante os meses de verão. Mas agora acabou. Existe o cais do lado galego, com uma cafetaria que acolhe, sobretudo, peregrinos que vão a caminho de Santiago. Também existe, em teoria, o Xacobeo Transfer Ferry & Taxi Boat, da Guarda (agência de excursões de barco). Eu comprei um bilhete de ida desde Camposancos a Caminha para o dia 26 de agosto, seguindo a página web que se indicava no Google. Foi-me confirmado o meu pagamento de 9 …

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Um presente

Quando queremos celebrar alguma coisa, é habitual darmo-nos presentes. Costumam ser objetos, livros, brincos, colares, roupa… Matéria que estará presente (lá está) quando já não sejamos companhia. Quando vamos de viagem também trazemos presentes. São figurinhas, ímanes, postais, t-shirts… coisas para as pessoas que não nos acompanham, mas de quem nos lembramos naquela circunstância. E também compramos, ou simplesmente guardamos, coisas para nós, para conservarmos um pouco da viagem que fizemos. E a tudo isso chamamos, não por acaso, recordações. A mente é volátil e errática, mas a matéria permanece. Por isso ligamos a memória às coisas, às vezes mesmo …

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Histórias sem ninguém para as contar

Encontrei-a numa feira de velharias. Suja, maltratada, com o cabelo desfeito e aquele ar triste que algumas bonecas parecem adquirir quando deixam de pertencer a alguém. Fotografei-a. Não sei porquê aquela e não outra coisa qualquer entre as centenas de objectos espalhados pelas bancas. Talvez porque, ao contrário de um prato, de um candeeiro ou de uma velha máquina de café, uma boneca tem qualquer coisa de humano. Sobretudo quando está assim, abandonada. Parece estar à espera de alguém que já não vem. Fiquei a pensar a quem teria pertencido. Quem a terá recebido? Em que aniversário, em que Natal? …

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