A ficção que te paga o salário

Parte I Há uma ficção tão bem contada que ninguém a questiona. Não é a Bíblia. Não é o Senhor dos Anéis. Não é o último romance que te venderam como a voz de uma geração. É o capital. O dinheiro. A ideia de que um pedaço de papel ou um número num ecrã vale alguma coisa. Vale porque concordamos que vale. No dia em que deixarmos de concordar, é papel. E o ecrã apaga-se. Tudo o que sustenta a tua vida assenta numa ficção colectiva. O banco onde guardas o dinheiro não o tem. Emprestou-o. A nota que tens …

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Burela vibrou por Cabo Verde

Uma crónica de Atrás de resultados e golos, o Campeonato do Mundo costuma oferecer histórias extraordinárias que revelam a face mais humana de um desporto tornado paixão planetária. Além das inúmeras críticas ao Mundial que possivelmente menos representa os adeptos, encontramos pequenas epopeias, protagonistas inesperados e comunidades migrantes que encontram no futebol o elo que as faz orgulhar e reivindicar as suas origens enquanto povo. O que relaciona Burela, na Marinha galega, Chaves e Cabo Verde? Fomos à procura da resposta. O 15 de junho Espanha e Cabo Verde enfrentavam-se em Atlanta. Era o primeiro jogo do Mundial de 2026 …

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Napoleão

Há aldeias onde um galo ainda consegue mandar mais no trânsito do que muita rotunda moderna. Aquele saía todos os dias do quintal da Ti Maria da Assunção com um ar tão importante que parecia presidente da junta em dia de festa. Caminhava devagar, peito levantado, sem nunca olhar para os lados. Quem viesse de carro que travasse. E travavam. Porque no fundo ninguém quer ficar conhecido como “o homem que matou o galo da Assunção”. Há alcunhas que duram mais do que o casamento. “Não me toques que me desafinas.” A frase saiu um dia da boca do senhor …

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Inteligência Artificial para Totós: Como matar a Arte em 15 segundos

Pedi ao Chat GPT para me fazer uma letra para um fado tradicional português que falasse sobre “perder a alma pela pressa da vida, pela artificialidade das máquinas e o sucumbir ao destino da tecnologia”.E, passado nem 15 segundos, eis que nasceu um poema artificial: Perdi a Alma às Máquinas (Fado) (1.ª estrofe) Nas ruas corre o relógio,Sem parar nem descansar,Toda a gente vai com pressa,Sem tempo para olhar.As máquinas dão as horas,Mandam no meu coração,E eu vou atrás dos ponteiros,Sem escutar a canção. ~~Refrão~~Ai, quem me roubou a alma?Quem ma levou sem eu ver?Foi a vida apressada,Foi o medo …

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O Brasil endividado aposta no celular

Durante décadas, o jogo esteve associado à loteria federal oficial e modalidades ilegais, como o jogo do bicho, cassinos e caça-níqueis clandestinos, bingos fechados pela polícia ou às apostas realizadas em corridas de cavalos. Hoje, tudo isso e muito mais, quando se trata de jogos de azar, cabe em um celular e está ao alcance de usuários de todas as idades. Bastam alguns toques na tela para apostar no resultado de um jogo de futebol, no número de cartões amarelos de uma partida ou no próximo escanteio, no vencedor da Fórmula 1 e até em se o Neymar vai ou …

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A Traição de uma história de liberdade

Não se pode dissociar o que está a suceder em Portugal com os serviços públicos, a segurança social ou o pacote laboral das conhecidas pretensões da direita portuguesa, relativamente à Constituição da República Portuguesa, aprovada em 2 de Abril de 1976. A CRP, na versão de 1976, foi o resultado de uma relação de forças estabelecida com o 25 de Abril de 1974 e que encontrou respaldo na letra da lei fundamental. Com todas as tropelias já sucedidas na data da aprovação do texto constitucional, entre elas o 25 de Novembro e o fim do PREC, a Constituição da República …

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O Pulso | José Ramos-Horta

O Pulso é uma rúbrica de Paulo Lamas O “O Mundo em Língua Portuguesa Opina” evolui. A partir de hoje, inauguramos um novo formato de análise: O Pulso. O objetivo é simples, mas ambicioso: selecionar entrevistas, debates e artigos de figuras proeminentes da CPLP+, sintetizando as suas ideias-força e opiniões mais relevantes. Estreia-se hoje este formato com uma análise à recente e incisiva entrevista de José Ramos-Horta, Presidente de Timor-Leste e Nobel da Paz, ao canal Neutrality Studies. A PERSONAGEM José Manuel Ramos-Horta (Díli, 1949) é um político e jurista timorense e atual presidente do país. Inicialmente fora o porta-voz …

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A Taça do mundo é nossa… e não vossa

Cantavam no país da Canarinha, os pentacampeões brasileiros: A Copa do Mundo é nossa… e com o Brasil não há quem possa… Não se enganem. Num mundo cheio de injustiças e contradições, o Mundial é da FIFA, perfeita aliada de uns Estados Unidos “trumpizados” até níveis inacreditáveis. Quando a bola começar a rolar neste mês de junho de 2026, a FIFA apresentará ao mundo o maior torneio de futebol da história. Pela primeira vez haverá 48 seleções, 104 jogos distribuídos por Estados Unidos, Canadá e México (que também contam e organizam, mas não fazem barulho), numa competição que durará mais …

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O país dentro da aldeia

“Todo o mundo é composto de mudança.” Camões podia estar a falar de um império. Eu penso numa aldeia. Porque uma aldeia contém o mundo inteiro. Nela encontramos a infância e a velhice. A chegada e a partida. O nascimento e a despedida. A esperança e a perda.Tudo o que acontece aos povos acontece primeiro às pessoas. Por isso, quando uma aldeia resiste, não está apenas a preservar casas ou caminhos.Está a preservar uma maneira de compreender a vida. O Barroso nunca foi apenas um território.É uma ideia de comunidade.Uma convicção silenciosa de que a vida humana ganha sentido quando …

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A Xenofobia na África do Sul: mais um teste à eficácia da União Africana

A actual onda de xenofobia na África do Sul não é um fenómeno novo. Trata-se do recrudescimento de um problema recorrente que voltou a ganhar força a partir de abril de 2026, quando novos ataques contra migrantes africanos foram registados em várias localidades daquele país. Esta onda de ataques expõe, mais uma vez, uma das maiores contradições do continente africano: os líderes discursam sobre integração e unidade, enquanto milhares de africanos continuam a ser perseguidos por outros africanos. Tais acontecimentos demonstram que o ideal de unidade africana permanece distante da realidade vivida por muitos migrantes. Segundo informações divulgadas pela DW …

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O Brasil também não sabe lidar com a imigração

Há uma imagem que o Brasil gosta de cultivar sobre si mesmo: a de um país acolhedor, miscigenado e aberto ao mundo. É uma narrativa confortável. Afinal, o país foi sendo formado por diferentes e sucessivas ondas migratórias. Portugueses, italianos, espanhóis, japoneses, sírios, libaneses e tantos outros ajudaram a construir a sociedade brasileira. O problema é que a realidade atual nem sempre confirma essa autoimagem. A América Latina imigrando Nos últimos quinze anos, o Brasil voltou a receber fluxos migratórios significativos. Vieram haitianos após o terremoto de 2010. Vieram venezuelanos fugindo da crise econômica e institucional do seu país. Chegaram …

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O cuco já não para no Gestal

Da minha aldeiaDa minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo…Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,Porque eu sou do tamanho do que vejoE não do tamanho da minha altura…Alberto Caeiro Nem nos chamamos Balbino, nem nascemos numa aldeia, mas, por sorte, sempre tivemos uma, a aldeia da nossa mãe, o Gestal, no concelho de Monfero, como acontece com tanta gente urbana deste país. Um lugarejo nas ribeiras do Lambre, a menos de quatrocentos metros de altitude que, como tantas outras povoações do interior da Galiza, se está a transformar numa espécie …

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Prioridade ortográfica

Que todas as pessoas tenham os mesmos direitos é um desejo antigo. São conquistas que todas conhecemos: o iluminismo, a Declaração dos Direitos do Homem, muito mais tarde a afirmação dos direitos das mulheres, a abolição da escravidão, o fim da segregação racial, o casamento igualitário para as pessoas LGBTQ+ e mais que hão de vir. Não é uma semente que cresça num dia, precisa de muito tempo e é reversível. Ora, perto dela sempre há brutos, egocêntricos e pessoas sem empatia de moto-serra na mão. Nada deve mudar, mesmo que a injustiça seja o alicerce do edifício. Não interessam …

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José Pereira: a memória de uma injustiça portuguesa

Há vidas que começam por parecer pequenas porque nasceram numa aldeia pequena. Depois, quando se escutam bem, percebemos que trazem dentro um país inteiro. José Pereira, avô de Rui Barroso Gonçalves, nasceu em Lamachã, a 7 de janeiro de 1914. Cresceu entre irmãos, trabalho, fome e necessidade. Ficou órfão de pai cedo, como Rui recorda, e foi a mãe que segurou a casa e aquela vida toda, num tempo em que as famílias numerosas conheciam a dureza pelo nome próprio. Ainda novo, José Pereira começou a trabalhar na Mina,no baldio que separava Criande, Negrões e Lamachã. Ganhava ali o pão. …

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Por quê razão odiamos os sem-abrigo

Em 2020, escrevi um artigo com este título para o jornal Público. Estava dentro de uma carrinha emprestada pelo Teatro Art’Imagem à associação Saber Compreender, com refeições quentes na bagageira, e tinha outro nome e identidade de género. Contei a história do Cinco Escudos, um mendigo da minha infância que toda a gente conhecia pelo preço que pedia. Contei como um homem nos pediu desesperadamente uma garrafa de água porque os cafés estavam fechados e ele não tinha onde encher uma garrafinha. A crónica foi uma das mais lidas dos Diários da Pandemia do Público. Partilharam-na. Comentaram-na. Comoveram-se. E depois …

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Tecno-logos e datacracia

Cada época produz as suas próprias formas de racionalidade. Durante séculos, as sociedades ocidentais depositaram a sua confiança na razão humana como instância encarregada de interpretar a realidade e orientar a ação individual e coletiva. Hoje, porém, parece estar a emergir uma nova forma de racionalidade, um tecno-logos baseado na capacidade dos sistemas digitais e da inteligência artificial para analisar a informação, realizar previsões e prescrever os comportamentos. Cada vez com maior frequência, são os algoritmos que nos indicam que conteúdos consumir, que rota seguir, que produto comprar ou que decisões são as mais convenientes. A sua presença estende-se também …

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O “Pacote Laboral” reduz o trabalhador ao estado de menoridade mental

À medida que o governo português vai fazendo o seu caminho, no sentido da aprovação da proposta legislativa, que designou como “trabalho XXI”, seria de extrema importância que a Imprensa promovesse um debate público sobre as consequências para a generalidade dos trabalhadores, as suas famílias e a sociedade em geral, no caso de se materializarem os intentos de Palma Ramalho e de quem ela representa. Ao invés do apagão quase geral que se tem produzido e, quando assim não é, da discussão mesquinha, como se tudo se tratasse de um mero braço de ferro entre governo e sindicatos, o trabalho …

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A cozinha na Casa do Barrosão

Na Casa do Barrosão, a cozinha não é divisão da casa. É território. Os presuntos pendurados nas traves não são decoração rústica para fotografia bonita. São a prova material de uma vida inteira ligada à terra. Cada peça ali suspensa tem atrás madrugadas frias, erva carregada ao ombro, animais tratados todos os dias do ano, sem domingos nem feriados. E depois há a fotografia na parede. O trator cheio de fardos ocupa o lugar de honra porque, naquela casa, a fartura conquista-se. Não aparece. Não vem pronta. Faz-se. Há um orgulho muito próprio no mundo rural: o de olhar para …

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Mudam-se os tempos, mudam-se as letras das canções

A música popular é frequentemente entendida como um território sem propriedade — algo raro nos tempos de hoje, em que até a água, as praias e a terra têm dono. A canção tradicional não pode ser privatizada: qualquer pessoa, sabendo música ou não, pode inventar uma cantiga que, através da tradição oral, passa de geração em geração. No fado, nas desgarradas, nas regueifas e nos bailes galegos, a mesma canção podia ser alterada, misturada e transformada, tanto como desafio artístico como enquanto forma de pensamento, desabafo e protesto. Hoje, porém, este movimento é considerado controverso. Vários projetos musicais e coros …

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Eurocidades: muito mais do que turismo 

Durante décadas, as fronteiras foram vistas como margens. Lugares periféricos, afastados dos centros de decisão e frequentemente associados ao despovoamento, à perda de serviços e à falta de oportunidades. Foi precisamente para contrariar essa realidade que nasceram as eurocidades ibéricas: espaços de cooperação entre municípios portugueses e espanhóis que procuravam transformar a fronteira numa ponte em vez de uma barreira. Atualmente existem várias eurocidades ao longo da fronteira luso-espanhola e galega, entre as quais se destacam as do Minho, a de Chaves-Verim, a EUROBEC, a de Ciudad Rodrigo-Fuentes de Oñoro-Almeida e a Eurocidade do Guadiana. Apesar das suas diferenças, todas …

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