A Rua das Pessoas Bonitas

Hoje vi pessoas bonitas, na rua.As pessoas bonitas sonham. Ainda sonham. Ainda há ruas cheias de pessoas bonitas porque ainda há quem resista, insista na ideia de uma cidade que possa dormir.Só a possibilidade do sono é condição do sonho. A cidade acordada, a cidade vigilante e receosa do outro, a cidade que desconfia, que odeia, que compete pelo prémio de desempenho, a cidade do medo do futuro, da insegurança no presente, a cidade onde todo o chão é precário, é uma cidade que está a sabotar-nos o sonho. É uma cidade que, se o deixarmos, nos torna feios, sós, …

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25 de Abril e África: uma revolução entrelaçada

O 25 de Abril de 1974 é frequentemente apresentado como um marco exclusivamente português, símbolo da transição democrática e do fim de um regime autoritário de longa duração. Contudo, uma análise mais ampla revela que esta revolução não pode ser compreendida de forma isolada. Ela está profundamente ligada às dinâmicas históricas, políticas e militares que se desenrolavam no continente africano, particularmente nos territórios sob domínio colonial português. As guerras de libertação em África, na Guiné-Bissau, em Angola e em Moçambique não foram apenas conflitos periféricos de um império em declínio. Foram processos estruturantes que expuseram os limites políticos, económicos e …

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Do começo das coisas (ou a primeira carta)

Fico sempre surpreendida com a simplicidade – é quase uma desfaçatez natural – com que as ‘coisas da vida’ se nos atravessam pela frente, em dias insuspeitos, sobretudo aquelas ‘coisas’ que a princípio parecem pequenos nadas para, logo a seguir, se revelarem de enormíssima importância. Volto uma e outra vez à sensação de que a existência respira uma espécie de subtileza bege, uma força mansinha que nos empurra no sentido certo, consciente do caminho, mesmo quando nós a seguimos inteiramente ignorantes, tanto do percurso como do destino da viagem. (Escrevo o primeiro parágrafo desta minha primeira carta. Pauso e leio …

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O 25 de Abril ainda importa para a juventude moçambicana?

Quando se fala da Revolução dos Cravos, a narrativa dominante é clara: foi o momento que abriu caminho para a independência de Moçambique. Mas, quase cinquenta anos depois, a pergunta que se impõe é outra: essa data ainda significa algo para a juventude moçambicana de hoje? Para muitos jovens, o 25 de Abril é apenas um conteúdo escolar, uma referência distante, associada a discursos políticos e cerimónias oficiais. Não é uma experiência vivida, nem uma memória herdada de forma concreta no cotidiano. Ao contrário das gerações que testemunharam a transição colonial, a juventude atual cresceu num contexto marcado por outros …

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Adufe, pandeiro, pandeireta. Muda a forma, fica o comum.

Instrumentos diferentes, uma mesma função de futuro: o coletivo. A percussão é um convite à ancestralidade humana. Desde os primórdios, o corpo e o ritmo fecundam a expressão. No ventre materno, no bater contínuo do fluxo sanguíneo. No início da civilização, com paus, pedras, ossos e dentes.Aqui, no nosso canto oeste da Europa — onde a fronteira entre Portugal (Norte) e Galiza serve apenas a ilusão dos tratados e dos mapas ficcionados — há um património que trazemos nas mãos. Objeto singelo, de fácil confeção e acessível, o adufe, o pandeiro, a pandeireta — apesar de diferirem na forma e …

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A Primavera dos coros – Crónica dum movimento

No dia 25 de Abril de 2025 nasceu em Portugal o Movimento Primavera de Coros, através de um passa-palavra num grupo de WhatsApp, criado por Matilde Simões artista, ativista e coralista do Coro das Mulheres da Fábrica. Uniram-se mais de 40 Coros de música tradicional portuguesa, de Norte a Sul. O motivo deste encontro foi uma dor comum: a tentativa de descredibilizar os valores de Abril, alterar a Constituição Portuguesa e destruir a Democracia e a suas instituições. Centenas de pessoas de diferentes coros cantaram em frente à Assembleia da República enquanto os deputados saiam após a sessão solene, mostrando …

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A abertura do Atlântico

A exposição permanente do Museu da Lourinhã mostra a formação do território da região Oeste. No painel que dá início à visita a este museu dedicado à arqueologia, paleontologia e etnologia, pode ler-se a frase: “Aqui nasceu o Atlântico”. Numa sequência de mapas reconstrói-se a história geológica em vários episódios, desde o processo de rifting e a abertura da Pangeia até à posição atual dos continentes. Detenho-me num ecrã onde se reproduz a sequência dos mapas em movimento e começo a projetar sobre elas episódios da história humana. Num instante ínfimo desses movimentos da terra move-se a humanidade e numa …

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Como se faz uma revolução

Cravo ou craveta? Nunca saberei como falar da liberdade.Mas deixo uma pergunta: Será cravo ou craveta?Desde que não esteja arrumado na gaveta!Nem pousado só por respeito na lapela, na janela…Um cravo (ou uma craveta) que se leve ao peito!Que não seque, que não murche que não se esqueça.Um cravo, uma craveta que resista. Craveta —nome popular para flor muito semelhante ao cravo mas mais pequeno,cresce num pequeno aglomerado, com mais quantidade de flores do que o tradicional cravo. Ora se somos muitos e pequenos e crescemos juntos e nos propagamos…Que bonita comparação de como se faz uma revolução! Se está …

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A linha imaginária

Um dia estive num dos 12700 km e tal (a exatidão é uma enteléquia) que o diâmetro da terra tem, a passear por cima de uma linha chamada de Equador, no conhecido por marco do Equador do Ilhéu das Rolas. Foi bonito, estranho, empolgante, impactante e tudo numa terra onde as rolas, são chamadas de rolas mesmo. Pensar em que uma insignificante pessoa está no meio e meio da linha imaginária que uma outra pessoa insignificante, mas pensante, calculou como sendo a divisão da terra na horizontal tem a sua piada, e a sua relevância, ou talvez transcendência. Estar na …

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Cantos das espigas de Maruja Mallo. Pintura Realista onde três mulheres se sobrepoem rodeadas de espigas. Imagem a PB do quadro

Ars Social

Diferente do conceito moderno de arte como processo criativo e como resultado estético, o termo Ars refere-se, neste contexto, à sabedoria em ação. Alude à capacidade prática baseada em um conhecimento profundo das leis da natureza e do espírito. Não é apenas teoria, nem técnica, mas o ponto onde o saber se torna uma força transformadora. Ars é o fazer consciente. É a ponte que transforma o idealismo do espírito na realidade material através da inteligência, da intenção e da destreza humanas. Conhecimento e sabedoria são coisas diferentes. O primeiro é uma acumulação de informações, fatos e leis lógicas. É …

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A Casa de Partida

Faz este ano quatro décadas que me apresentei na casa de partida. A 19 de Julho de 1986, puxado pela minha irmã, Alexandra Loureiro, ela com 14, eu com 17 anos, fomos a uma reunião, na sede da Cooperativa Cultural e Recreativa da Gafanha da Nazaré. Rua Gil Eanes.A casa ainda lá está. Uma semana antes, também um sábado, um emissor pirata havia sido, ali, instalado. A rádio chegara, com o aviso de uma notícia, num tempo em que as notícias eram toda a novidade. E nós, à escuta, nessa semana de notícias e de espanto, e certamente instigados pelo …

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Relações culturais intersistémicas no espaço ibérico.

Relações culturais intersistémicas no espaço ibérico. O caso da trajetória de Alfredo Pedro Guisado (1910-1930), uma recensão. Este livro está alicerçado numa tese de doutoramento, codirigida pelos professores Xaquín Núñez Sabarís e Elias J. Torres Feijó, das universidades do Minho e Santiago de Compostela e defendida em Braga no ano 2013. Editado em 2015, ano do centenário da revista Orpheu, representou um contributo importante para esta efeméride. O estudo académico é resultado de um percurso de pesquisa, iniciado por Carlos Pazos Justo em 2004, em colaboração com essas duas instituições que teve como frutos um livro anterior —Trajetória de Alfredo …

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Guerra

Em 2022, a editora francesa Gallimard publicou um romance inédito de Louis-Ferdinand Céline (1894-1961) intitulado Guerra. O sair à luz deste livro assenta numa história realmente singular — a começar pelo facto de o autor ter falecido há mais de sessenta anos. No final da Segunda Guerra Mundial, perante o avanço dos Aliados, Céline e a sua mulher, Lucette, abandonam Paris rumo à Alemanha nazi. Tido por um destacado colaboracionista — o mais célebre entre os escritores —, temem o ajuste de contas que inevitavelmente se seguirá. Apesar do teor dos seus panfletos, ele virá mais tarde a responder com …

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pintura rupestre a Preto e Branco com mãos humanas de muitos tamanhos e cores

Nós-outros

Uma das ideias eixo —profundamente enraizadas e incontestadas— sobre as quais se sustenta e gira o neoliberalismo, entendido não apenas como modo de produção dominante, mas também como paradigma cultural hegemónico —e que, nessa medida, impregna o conjunto de representações, normas e valores a partir dos quais se pensa, se age e se decide— é a de indivíduo. Isto é, a crença de que cada ser humano é uma entidade separada e distinta das outras, e que, além de ser íntegra, unitária e coerente, dispõe de si mesma, sendo, por isso, autónoma, racional e consciente. O indivíduo —literalmente, “não dividido”— …

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bola do mundo no espaço a preto e branco

A Terra Não Espera: Entre o Atraso e a Esperança

Durante décadas, fomos avisados. Cientistas, investigadores, instituições internacionais repetiram com rigor e persistência aquilo que muitos preferiram ignorar: o planeta estava a aquecer, os equilíbrios naturais estavam a fragilizar-se, o tempo para agir não era infinito. As evidências acumulavam-se, mas a resposta coletiva oscilava entre a hesitação, a conveniência política e a indiferença quotidiana. Hoje, as consequências deixaram de ser previsões distantes. Manifestam-se em tempestades devastadoras, incêndios incontroláveis, secas prolongadas, ecossistemas em colapso e vidas interrompidas. O clima deixou de ser uma abstração científica — tornou-se experiência vivida. E, perante esta realidade, a pergunta ecoa com urgência: chegámos tarde demais? …

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famosa imagem de pessoa a caminhar com pressa

Como caí no Desassossego

Ao ser convidado a colaborar neste projeto empolgante que é De Norte a Sul, centrei a minha principal ressalva na dificuldade de escolher um tema sobre o qual escrever. Ainda permanecia com a mesma dúvida, no momento de encetar este texto, quando me lembrei do conselho de um antigo professor: “Se não sabes o que dizer, é melhor começares pelo princípio”. Vou falar, portanto, do ponto de partida que me levou a perceber que a minha língua se estende, de norte a sul, da Corunha até Faro, ao longo do meridiano 8 oeste. Pois, no fundo, sem esta convicção, penso …

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etnia de egipto em papiro do Império antigo

Racismo em 2026: A Sombra que a Consciência Ainda Não Dissolveu

É difícil aceitar que, em pleno ano de 2026, o racismo continue a existir. Difícil, não por falta de provas, mas pela consciência de que já tivemos tempo suficiente para aprender. Séculos de história, de sofrimento, de luta e de afirmação deveriam ter sido mais do que suficientes para dissolver uma das formas mais primitivas de negar a dignidade humana. E, no entanto, a sua sombra persiste. O racismo não nasce da razão — nasce do medo. Do desconhecimento. Da necessidade frágil de afirmar superioridade onde não existe mérito. É uma construção artificial, sem fundamento biológico, moral ou intelectual, mas …

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mãos em alto e céu por trás

Voluntariado: A Força Silenciosa que Sustenta o Mundo

Há gestos que não fazem manchetes, mas sustentam civilizações. O voluntariado é um deles. Num mundo frequentemente dominado pela lógica do interesse, da eficiência e da recompensa, há homens e mulheres que escolhem dedicar parte do seu tempo a ajudar outros sem esperar retorno. Não por obrigação, mas por consciência. Não por reconhecimento, mas por humanidade. Vivemos tempos exigentes. Famílias confrontam-se com dificuldades económicas, jovens enfrentam incerteza, idosos experimentam a solidão, comunidades inteiras sentem o peso de uma instabilidade que parece persistir. Perante esta realidade, o voluntariado não é um gesto acessório — é uma necessidade social. Torna-se o elo …

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jovem a segurar um cartaz "end the war before it ends you"

A Esquerda Que Chegou Tarde à Paz

Doze anos.Há uma esquerda europeia que demorou doze anos a chegar à paz. Façam-se as contas, recue-se no tempo, e pergunte-se onde esteve essa esquerda quando uma administração democrata norte-americana promoveu, às claras, com a CIA na sombra e o apoio no escuro a milícias nazis, o golpe de Estado que desestabilizou a Europa e, na verdade, o mundo – para trocar um presidente ucraniano, democraticamente eleito, que advogava a não adesão à NATO e o equilíbrio das relações da Ucrânia com a vizinha Rússia e com o ocidente, por um regime que assumiu daí em diante a confrontação com …

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quadro antigo em que um avô observa o seu neto no colo a brincar com a sua pipa de fumar

Família: O Primeiro Lugar Onde Aprendemos o Mundo

Antes de qualquer escola, de qualquer profissão, de qualquer ambição, há um lugar onde começamos a existir verdadeiramente: a família. Não como conceito abstrato ou ideal romântico, mas como espaço concreto de afetos, conflitos, aprendizagens e crescimento. É ali que a identidade se esboça, que os valores se insinuam, que a confiança ganha raízes. A família é o primeiro território emocional que habitamos. É nela que aprendemos a partilhar, a discordar, a cuidar, a pedir desculpa, a oferecer apoio sem cálculo. Mesmo imperfeita — e é sempre imperfeita — permanece o núcleo onde se forma a capacidade de relação com …

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