As direitas têm partilhado e usado a cartilha, segundo a qual o ímpeto migratório ocorrido em Portugal e na União Europeia faz parte de uma qualquer “invasão”, maquinada para destruir os valores europeus, ocidentais e cristãos. O conto de crianças é simples: vivíamos todos em paz, num paraíso à beira-mar plantado, habitação barata, serviços públicos de topo e salários invejáveis. Até que chegaram os invasores!
Como explicar então, à luz desta narrativa, que o clube exclusivo e o jardim dos prazeres, de repente, se vejam confrontados com uma realidade em que os brasileiros desaparecem da lista de inscritos na Segurança Social — quase 60 mil no ano passado, cerca de 100 mil no total dos últimos dois anos? E que os naturais do subcontinente indiano, os mais odiados de todos, são precisamente os que registaram o maior fluxo de saída, triplicando em 2025? O que explica tal rejeição deste paraíso encantado em que vivemos? Só pode ser loucura…
O facto é que a narrativa das direitas sobre esta matéria – e aqui não se dividem – é tão hipócrita quanto cínica e falaciosa. Quem olha para as propostas da direita nesta matéria, não pode deixar de identificar que, por detrás da exigência de uma imigração “regulada, transparente”, esconde-se uma lógica exclusivista e supremacista alimentada por um certo nacionalismo bacoco, muito apregoado em belos discursos e repetidas aparições numa imprensa submissa que esmorece perante a destruição da soberania nacional, quando se discute a União Europeia, o FMI ou a NATO.
Pertencer ao nosso país e obter a nacionalidade têm sido vendidos como objectivos em si mesmos, uma espécie de entrada num regime de privilégio e excepcionalidade, cujo território se encontraria ameaçado e cujas portas teriam de ser reforçadas para que contivessem a horda imigrante agressora. Tal concepção esconde toda uma realidade em que os defensores de tais políticas são incapazes de assumir as responsabilidades – e são mesmo muitas – que têm na criação, alimentação e acolhimento desta vaga migratória, concepção essa que choca, agora, com uma realidade concreta que nos diz que, afinal, os invasores estão a retirar!
Para percebermos esta contradição, teremos de começar pelo princípio: o jardim do Éden que a direita diz estar sob invasão é governado por gente que oprime os trabalhadores com salários contidos há mais de duas décadas, precariedade laboral galopante, individualização das relações de trabalho, desregulação dos horários, aspectos que tornaram impossível a estabilidade familiar. Jovens com altas qualificações – a geração mais qualificada de sempre – são confrontados com baixos salários e elevada taxa de desemprego e precariedade, o que atrasa o planeamento da sua vida futura. O resultado? Pais e mães sem tempo para os filhos, mulheres com tempo para a carreira, mas atrasadas para constituir família.
Afinal, aos poucos vamos percebendo que o tal clube exclusivo, em que as condições de vida são objecto de cobiça à escala internacional, afinal, não passa de uma sociedade péssima para a natalidade, mas que também trata muito mal crianças, jovens e idosos. Não produzes, não serves para nada a não ser para empatar.
O problema é que sem natalidade, sem jovens, falta a mão de obra e, especialmente, não existe exército laboral de reserva, algo de que o patronato gosta para manter salários baixos. E é por aqui que começamos a perceber quem é, de facto, responsável pela destruição do tal clube selecto, da tal promessa de paraíso, cuja qualidade o tornaria tão cobiçado, a ponto de suscitar a sua invasão por loucas hordas de indivíduos.
Daí que a solução encontrada pelos mesmos que decidiram que ondas constantes de revisão da legislação laboral, privatização de empresas públicas e de serviços públicos, passasse, precisamente, por tornar Portugal e alguns países do sul da UE no novo paraíso patronal da imigração e dos salários baratos. Um paraíso, é certo, mas não para os trabalhadores.
Embora as direitas, prevendo o choque social decorrente da chegada de milhões de seres humanos de culturas e hábitos diferentes, tenham criado a narrativa de que o paraíso estava a ser invadido por hordas de selvagens, tal postura visou esconder e desresponsabilizar todos aqueles, seus apoiantes e financiadores, que, junto dos sucessivos governos, pediram a liberalização das políticas migratórias e da circulação de trabalhadores. Os maiores responsáveis pela designada “livre circulação de trabalhadores” e das “políticas de mobilidade” pretendidas pela União Europeia e defendidas por quem nessa organização se revê, foram precisamente os mesmos que haviam acusado as hordas de imigrantes de virem estragar o nosso paraíso. Uma pena, porque vivíamos aqui tão bem e descansados.
Um país que deixou de construir habitação pública, vítima de uma liberalização selvagem do mercado da habitação, que a tornou num activo financeiro em vez de um direito fundamental, em que quem aqui trabalha não demorou a que a vida se tornasse incomportável para os que cá vivem, quanto mais para os que agora chegaram e nada possuem.
E é precisamente esta a realidade que desmascara a falácia do “paraíso invadido”. Como se não chegasse, no paraíso em que os “imigrantes” – esses malvados invasores – vinham para se aproveitar de subsídios e benesses, foram aqueles quem menos defendeu tais “benesses”, quem tanto vociferou em favor da sua privatização e consequente destruição, quem mais os acusou de se aproveitarem de algo que apresentaram como uma vantagem.
O cinismo e a hipocrisia foram tais que a gente que defendia a destruição destes serviços acusava a imigração de aproveitar-se deles. Tantos anos a defenderem e proporem políticas para os “reformar” alegadamente devido à sua falta de qualidade, para depois virem acusar os imigrantes de os fazerem colapsar com a sua presença. Quem tanto fez para desgraçar a vida dos que cá estavam, destruindo a promessa de desenvolvimento, foi quem acusou os imigrantes de o fazerem. Algo típico desta gente.
O paraíso estava tão ameaçado que vieram propostas inconstitucionais de expulsão de quem alcançou a cidadania portuguesa. Ser português foi discutido como uma espécie de pertença a um grupo exclusivo e selecto de indivíduos, que provavelmente beneficiarão de condições inigualáveis de vida, tão vantajosas e invejadas que se justifica a sua protecção autoritária e repressiva. Quem ouvir esta gente, Portugal – a Espanha, Itália, Grécia – são um paraíso tal de condições de vida e de trabalho, que quando os imigrantes os vêem, logo ficam loucos de cobiçam e armam-se em hordas invasoras de enlouquecidos trabalhadores oportunistas, ansiando avidamente por um salário mínimo, uma dormida num contentor ou tenda, uma alimentação de enlatados, um serviço de saúde sem médicos e enfermeiros, escolas sem professores, e, a cereja no topo do bolo, uma população acolhedora que quando os chama de “invasores” é o que melhor lhes pode atribuir. Daí para a frente só ouvem “estrupadors2, “pedófilos”, “assassinos”. Um paraíso.
Mas o paraíso é de tal envergadura e qualidade que, afinal, só em 2025 foram 162.252 que abandonaram o registo ativo na Segurança Social, aumentando o número em 66% em relação a 2024. Todos os dias 455 dizem adeus ao paraíso, o que é algo de difícil compreensão, quando visto à luz das direitas e dos seus discursos demagógicos.
Pedro Góis, do Observatório das Migrações, também fala em fuga para a informalidade. Algo que a direita dizia querer combater. Só quem não se lembrar do que sucedeu no tempo de Cavaco Silva (ex-primeiro-ministro e presidente da República e secretário-geral do PSD, partido da direita neoliberal – hoje radical – de Portugal) com os imigrantes dos PALOP, em que pessoas oriundas das ex-colónias esperaram dezenas de anos para obter os seus papéis, para não sabermos do que vive esta gente e quem os apoia.
Este país não é nenhum paraíso, nem para quem cá vive, muito menos para quem cá chega. E não é nenhum paraíso porque, uma vez mais, quem o elegeu como tal, visto sob as lentes da imigração, encarregou-se de o tornar um inferno para todos. Não são apenas os imigrantes quem se vai! São 50.000 jovens qualificadas todos os anos, que imigram por não encontrarem aqui a oportunidade merecida.
É por isto tudo que não existe nenhuma fuga de paraíso algum, mas apenas uma fuga de um inferno cada vez mais discernível, criado por sucessivas vagas de políticas erradas que começam a tornar impossível a vida para o comum trabalhador. Neste processo, a fuga torna-se numa verdadeira expulsão! Apresentar isto como algo exclusivo não é apenas falacioso, é ofensivo para todos nós!
O muro civilizacional que dizem separar-nos dos imigrantes, afinal, separa-nos de todos os que nos obrigam a procurar fora, o que aqui dentro deveríamos ter garantido! Este muro, cada vez mais alto, separa-nos, sim, mas de quem beneficia com toda esta lógica, unindo-nos a todos contra o mundo de privilégio e exclusividade que vive para além do mesmo!
O paraíso cobiçado, afinal, só é paraíso para uma minoria cada vez mais minoritária, cuja dimensão se reduz na mesma proporção em que cresce a monopolização que fazem dos recursos!
Eis o paraíso que defendem! O nosso inferno!





