Nem a natureza os quer. Imagina nós.

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A elite adora a natureza. Não para a proteger. Para se comparar a ela. É uma tradição antiga e muito conveniente: o forte devora o fraco, é a lei da selva, o capitalismo é apenas a versão civilizada do mesmo princípio eterno. Os grandes predadores no topo, os pequenos herbívoros em baixo, e assim foi, é, e sempre será. Amén.

Há só um problema com esta narrativa: é mentira biológica. Não apenas política.

Comecemos pelo mais famoso habitante desta fantasia: o leão. O suposto rei da selva, símbolo de poder, de domínio, de hierarquia natural. O animal que qualquer CEO que se preze tem numa tela no escritório ou tatuado num antebraço. Pois bem. A investigação científica sobre leões africanos descreve a sua estrutura social com um adjectivo que não aparece em nenhum pitch de startup: igualitária. Não há monarquia. Há grupos de cerca de quinze indivíduos, maioritariamente fêmeas, que caçam em conjunto, criam os filhotes em conjunto, e protegem o território em conjunto. O macho com a juba imponente, aquele que ilustra a narrativa do poder solitário e absoluto, passa a maior parte do tempo a descansar. E a comer o que as fêmeas caçaram.

Mas o mais importante não é quem caça. É o que o leão faz no ecossistema. Os ecólogos chamam-lhe “espécie chave” e o que isso significa é o oposto do que a elite imagina: o predador existe para regular o sistema, não para se servir dele. Quando os leões desaparecem, as populações de herbívoros crescem de forma descontrolada. As paisagens mudam. As florestas colapsam. Em Yellowstone, quando retiraram os lobos, até os rios mudaram de curso. O predador serve o sistema ou o sistema morre.

Não precisamos de ir a Yellowstone. O lobo-ibérico vive entre a Galiza e o norte de Portugal, na mesma terra onde eu acampei, na mesma serra onde a Savannah quer abrir uma mina. É o mesmo predador de topo. A mesma função na serra. A mesma lógica: regular, não acumular. E foi perseguido durante séculos pela mesma razão que todos os reguladores são perseguidos: porque incomodava quem queria acumular sem limite. O lobo não respeita fronteiras. Atravessa de Portugal para a Galiza e volta sem pedir visto. Talvez seja por isso que o tentaram exterminar. Porque um animal que ignora a linha no mapa é tão perigoso como uma ideia que ignora a linha do poder.

E já que a elite tanto gosta de invocar a natureza para justificar a hierarquia, há outra parte que se esquece de mencionar. Não é só a estrutura social que é diferente do que pensam. A sexualidade também. Há uma curta-metragem suíça que diz em cinco minutos o que levou décadas de biologia a provar: Dans la Nature, de Marcel Barelli, documenta com humor e rigor que a homossexualidade existe em centenas de espécies animais. Não como anomalia. Como facto. A natureza nunca precisou de ser “contra” ou “a favor” de nada. Quem precisou foi a narrativa. O argumento do “antinatural” não é biologia. É ideologia com bata branca.

A natureza que eles invocam não é hierárquica e não é heterossexual. É cooperativa, diversa e regulada pelo equilíbrio. Tudo o que o sistema deles não é.

Então o que são?

Na natureza, os predadores matam para comer. Têm fome, caçam, saciam. E depois param. Nenhum leão caça para acumular gazelas além das que consegue comer, não porque seja virtuoso, mas porque não faz sentido biológico nenhum. Nenhum leão abre uma offshore para guardar gazelas nas Ilhas Caimão. Nenhum tubarão compra três oceanos e aluga o quarto. Nenhuma águia constrói dez ninhos e deixa nove vazios para valorizar o mercado imobiliário das árvores. O excesso mata o predador também: o ecossistema colapsa e a presa desaparece.

A elite contemporânea não funciona assim. Não acumula porque tem fome. Acumula porque o sistema que construiu recompensa a acumulação infinita independentemente de qualquer necessidade real. Não há saciedade. Não há paragem. Não há função ecológica.

O escaravelho decompõe matéria orgânica, é essencial para o ciclo da vida. A bactéria regula, fermenta, cria, destrói para renovar. Até o parasita tem uma lógica evolutiva na natureza. Eles não têm. Nem a natureza os quer. Imagina nós.
E depois há o vírus. Que é diferente de tudo o resto. O vírus não tem metabolismo próprio, não produz energia, não cria nada. Não é sequer um ser vivo. É a única coisa na natureza que existe sem estar viva. Como os vampiros. Entra, alimenta-se do hospedeiro, replica-se, e quando o hospedeiro morre, procura outro. O Zeca Afonso cantou isto antes de toda a gente: “Eles comem tudo, eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada.” Chamou-lhes vampiros. A biologia confirma.
Não estou a usar metáfora. Estou a descrever um modelo de negócio.

Joshua Lederberg, prémio Nobel da Medicina, disse que a maior ameaça ao domínio do homem neste planeta é o vírus. Tinha razão. Só não imaginou que o vírus mais perigoso não seria microscópico. Seria macroeconómico. E que em vez de o combater, lhe daríamos um fórum em Davos e uma conta offshore.

Mas as primeiras a ver isto foram duas manas trans. Lilly e Lana Wachowski, antes de toda a gente saber que eram mulheres, puseram o Agent Smith a dizer o que a biologia e a economia já sabiam: que existe um organismo neste planeta que se move para uma área, multiplica-se, consome todos os recursos e depois precisa de outra área para sobreviver. E que esse organismo não é um mamífero. É um vírus. O Matrix saiu em 1999. A metáfora não era sobre máquinas. Era sobre o sistema. E as manas já sabiam. Sabiam que o corpo não é o que o sistema diz que é. Sabiam que a realidade não é o que o sistema mostra que é. E sabiam que a pílula vermelha, essa que te acorda para a verdade, custa tudo. Eu tomei a minha. E aqui estou.

Uma nota astrológica, já que estamos em Leão: o signo do ego solar, da necessidade de plateia. Não é por acaso que é a época em que eles aparecem em iates e capas de revista. Confundiram o calor com a propriedade do calor. Chamem-lhe sagrado, natureza, universo, divino, mãe. Chamem-lhe o que vos fizer respirar mais fundo. Seja o que for, não tem dono. A luz também não. Então qual é a vacina? A biologia diz que a vacina não mata o vírus. Ensina o sistema imunitário a reconhecê-lo. O primeiro passo não é a cura. É o diagnóstico. É parar de chamar leão ao que é vírus. É parar de confundir predação com parasitismo, força com extracção, liderança com pilhagem.

A natureza, essa que tanto citam quando lhes convém, tem um princípio que não aparece em nenhum fórum económico: nada acumula infinitamente sem colapsar o sistema que o sustenta. A lei da selva não é a lei do mais forte. É a lei do equilíbrio. Ou a morte de tudo, incluindo quem está no topo.

Eles sabem isto. Por isso têm bunkers. Com piscina. E heliponto. E reserva de água para trinta anos. Não porque acreditem no apocalipse. Porque o estão a planear.

Nós sabemos isto também. Por isso ainda estamos aqui.

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