O voo e a vontade

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Em latim, ego volo (de volere, eu quero) e ego volo (de volare, eu voo) eram curiosamente homónimos. Nada tinham a ver em significado e origem, mas acabaram por coincidir. Coisas da vida. Façamos, no entanto, como se tivessem algo a ver, um pouco por volere e um pouco por volare.

O espanhol é uma língua que na Galiza conhecemos demasiado bem, e por isso os usos lusófonos nos podem chocar às vezes. Nessa língua, voluntad tem um significado quase idêntico à nossa vontade, mas usos que o fazem diferenciar-se bastante, mais ligados ao conceito de força de vontade. Não é só desejar, digamos que passivamente, mas antes uma capacidade de passar por cima dos desejos mais imediatos, distinguindo aquilo que apetece daquilo que se deseja. É o esforço da pessoa em querer, procurar a sua aspiração profunda: voar por cima da apetência imediata para um desejo superior.

É claro que vontade, em português, também inclui esse significado, mas admitamos que é mais confuso, uma vez que inclui outras apetências menores. Nada de especial, é claro. Afinal, estamos a falar da natureza do desejo, um conceito sobre o qual os pensadores se têm debruçado durante séculos para o tentar esclarecer. Para Schopenhauer, por exemplo, Wille (a nossa vontade) é um impulso cego por existir, conservar-se e reproduzir-se. Mais ainda, a própria realidade resume-se, para ele, a representação e vontade, sendo esta o eterno desconhecido que move o mundo. E parece que isto deixou alguma pegada no pensamento alemão de inícios do século XX, com uma ideia de Wille quase divinizada e ao mesmo tempo humana.

Em 1934, uma desconhecida chamada Helena Riefenstahl (Leni para os amigos e a memória do mundo) filmou um documentário, protagonizado por certo ditador parecido com Charles Chaplin. O filme já é história do cinema, mas parece que carregava demais na ideia de vontade. Intitulava-se Triumph des Willens (O Triunfo da Vontade) e retratava um congresso do partido nacional-socialista em Nuremberga. Sempre me perguntei como soaria este título a ouvidos lusófonos não galegos. Afinal, quando eu me levantei há um bocado para ir à casa de banho, também foi um triunfo da vontade, a de fazer xixi, mas parece que o filme falava de outra coisa, ainda que acabasse igualmente por fazer merda.

Recentemente, seguindo a chegada maciça de migrantes através da fronteira espanhola, na praça antigamente portuguesa de Ceuta, grupos de neo-nazis deslocaram-se também a essa cidade autónoma. Movia-os a voluntad espanhola, um suposto propósito superior, já que para uma pessoa com essas ideias deve de ser intrinsecamente incómodo pisar território africano. Voaram, provavelmente, por cima do Mediterrâneo, para defender a fronteira. Passando por cima da comodidade de ficarem em casa, a sua vontade superior era uma ideia, um limite. E confesso que não consigo empatizar com este tipo de vontade. Não a entendo.

Bem pelo contrário, se penso no conceito de Wille, o primeiro que me vem à cabeça, no nosso mundo, são precisamente as pessoas migrantes. Para chegarem a Ceuta, principalmente nadaram, que é como voar na água, e fizeram-no com uma vontade intrínseca de existir, conservar a vida, talvez até reproduzirem-se, apesar de alguns terem morrido na tentativa. Mesmo o conceito de coragem, que me atrevo a intuir que está na base do entronizar da vontade que voa por cima do desejo mais baixo, parece-me maior em quem salta a fronteira.

Para Schopenhauer, como para Kant, vivemos no mundo dos fenómenos, isto é, das ideias enquanto representação. Aquilo que não é representado, a realidade em si própria, o noumeno, está mais além dos limites do cognoscível. Numa tentativa arrojada e admirável, o pessimista Schopenhauer, o misantropo de Frankfurt, identificou-a com a ideia de vontade, mas esta não era reduzida àquela vontade lutadora, consciente, inevitavelmente já filtrada por conceitos, limites. Wille também é inconsciente, e também é desejo de matar a fome, ou desfrutar dos sentidos. Não só a voluntad do espanhol, mas também a nossa vontade, por exemplo, de coçar a orelha.

E, se aquilo que caracteriza o fenómeno é precisamente a finitude do conceito, os seus limites, atrevo-me a pensar que abraçar as contradições é capaz de ser a melhor maneira de se achegar ao noumeno, o essencial, perdendo a firmeza que os conceitos achegam. Ser, sendo, para ser sendo: afirmar-se em si, e não na ideia de si. Por isso a arte é uma forma de conhecimento: sempre a saltar os limites. E por isso, afinal, Wille é volere, mas também volare, e vontade de cantare. A música é a coragem de sentir, de pensar sem ideias. Nel blu dipinto di blu, felice de stare lassù.

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