Não há vilarejo da Puglia que não tenha a memória da guerra gravada em pedra.
Profundamente gravada em pedra.
O sangue derramado nas grandes guerras do século XX incrustou-se para sempre, na Itália setentrional, em monumentos aos “caduti”, em praças maiores ou largos mais singelos, para que jamais se esqueçam as vidas perdidas, tantas vezes, a defender uma causa que, à excepção dos cerca de 50 mil guerrilheiros mortos a combater o fascismo de Mussolini, talvez nem fosse a causa de cada um dos mais de um milhão de jovens italianos caídos no campo de batalha entre 1914 e 1918, e, especialmente, dos que morreram entre 1939 e 1943 – ano em que o armistício com os Aliados colocou tropas italianas como as da guarnição de Cefalónia, na Grécia, na mira dos nazis alemães que se calcula terem massacrado, em poucos dias, mais de 5 mil italianos que até aí haviam combatido a seu lado. É uma das maiores histórias de traição que se conhecem. O sul de Itália não perdoa, conhece a História, e é por isso que, aqui, os neofascistas, vencedores no norte mais rico, têm poucas hipóteses, quando vão a eleições.

Cisternino é um desses lugares de onde a memória está impedida de escapar para as partes incertas aonde andamos a despejar os nossos restos de humanidade. Pequena cidade, com um inacreditavelmente belo centro histórico, tem, como todas as outras, numa das suas mais bonitas praças, um monumento cuja lista de “caduti” seria suficiente para encher um dos principais monumentos ao Soldado Desconhecido que temos em Portugal – tantos foram os mortos, nesta região.
Quando cheguei junto ao monumento, o que me chamou a atenção, no entanto, não foi lúgubre lista de nomes, muitos deles de irmãos ou primos ou, até, considerando que a guerra mortífera regressou uma geração depois, de pais mortos na primeira e de filhos mortos na segunda, nem mesmo a triste dedicatória “à eterna juventude dos filhos (de Cisternino) caídos na guerra”. O que, de facto, achei diferente em relação a todos os outros monumentos que vi noutras cidades, vilas e aldeias da Puglia, foram as duas bandeiras que ladeiam o monumento de Cisternino: a italiana, de um lado, e a da União Europeia, do outro.

Explico-me: a bandeira italiana, içada até ao topo, e a bandeira da União Europeia, a meia haste.
Não consegui saber qual a razão, o que sei é que um acto destes nunca é fruto do acaso: é uma profundíssima declaração política. Tendo já compreendido como é que, aqui, as populações se relacionam com a guerra, e a consciência política que aqui persiste, como sangue esculpido na pedra, e porque sei que esta é uma das regiões mais pobres de Itália, e porque sei ainda que, na guerra, os mais pobres são os primeiros a serem enviados para a frente de batalha, não me surpreende que, precisamente aqui, se olhe para a União Europeia, para esta União Europeia cujo único rumo político parece ser o da guerra e dos seus negócios, como quem olha para o cangalheiro que a todos está a arrastar para a sepultura colectiva.
Na Puglia, entende-se o caminho para a guerra como tragédia e é por isso que, como na Europa consciente do que lhe está a ser feito, a União Europeia está a meia haste.





