Entrevista | J.Rodrigues: “A vontade popular de debater sobre o turismo existia, tivemos a perícia de saber como canalizá-la”

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A Através Editora acabou de publicar <<Tourists, go home?>>, um volume coletivo que reúne diferentes olhares sobre o fenómeno do turismo contemporâneo na Galiza. Conversamos com o seu coordenador, José João R. Rodrigues, sobre a natureza do projeto, as escolhas editoriais e as perguntas que o livro procura lançar mais do que responder.

Porquê este livro e porquê agora?

Quando comentei com alguém o projeto do livro, quase unanimemente o pessoal respondia cousas do tipo “ah, que bom!”, “ó, que livro tão necessário!”. A vontade popular de debater sobre o turismo existia, nós tivemos só a perícia de saber como canalizá-la. O momento é devido a 2027 ser ano jubilar, com todas as implicações que isso tem para o turismo na Galiza.

O título em forma de pergunta encerra um significado que desenvolvem no seu texto introdutório. Pode explicar o que quiseram condensar nesse título e o que esperam que ele desperte em quem pega no livro pela primeira vez?

Na Galiza há um imenso discurso mediático, publicitário, propagandístico, de aliciamento de um turismo selvagem, acumulativo, em que os recordes de visitas são prémios para os locais de receção. As críticas mais destacadas a este discurso e ao dito modelo turístico costumam vir de movimentos sociais que repetem a palavra-de-ordem: “Tourists, go home”. No entanto, como todas as palavras-de-ordem, esta é necessariamente redutora. É uma solução digamos que fácil, retornar as turistas, proibir o turismo, para um problema assaz complexo. Foi uma contradição que me assinalou o sociólogo Manuel Docampo, o que lhe agradeço enormemente. Eu não gosto de esquemas rígidos que têm respostas automáticas para tudo; a honestidade é uma responsabilidade quando se dissente e acho que a pergunta do título busca sobretudo ser responsável e suscitar em quem ler esse mesmo sentido da responsabilidade.

É um livro em formato de bolso, que quase apetece levar… numa viagem! Uma simples decisão editorial ou mais um símbolo?

Não é mesmo de bolso: é verdade que o tamanho 13 por 19 é fácil de portar, mas o papel é de 90 gramas e a capa é de qualidade e com orelhas. Ora, com efeito o formato vai também ao encontro da ideia da viagem, o que devemos reconhecer que seja apenas uma feliz casualidade.

Como escolheram as autorias? O que procuravam em cada uma delas?Qual foi o desafio lançado?

O intuito do livro é juntar pessoas de distintos âmbitos que conheçam bem a realidade do turismo com distintas perspetivas, para que a leitura promova reflexões e intervenções o mais diversas e, em conjunto, o mais abrangentes que possível. Uma introdução, digamos, magistral, a refletir sobre as origens do turismo e a sua implantação na Galiza; um rastejamento do dinheiro público gasto na promoção turística; uma apresentação do conhecimento e dos discursos fruto da investigação universitária à volta do turismo; e uma conversa com vizinhas de distintos pontos da Galiza para recolher as suas sensações e propostas. Quanto às pessoas concretas, simplesmente tivemos sorte porque, acho que com uma única exceção, todos foram o primeiro nome proposto para o seu âmbito. Houve também pessoas que recusaram por problemas de tempo, o que nos privou de uma análise detalhada dos discursos mediáticos em volta do turismo. Felizmente isto foi atendido nalguma medida por um dos autores que aceitou o convite, ainda que o seu tema central fosse outro.

Há que esperar até ao último dos cinco textos que compõem o livro para encontrar uma voz feminina. O que lhes faz refletir esse facto?

Sendo honesto, que é mais fácil que um homem aceite um trabalho deste tipo. Os motivos não me corresponde tentar adivinhá-los, mas pude constatar que assim é. Em geral, diria que nem sempre tem de haver equilíbrio de género nas autorias: há temas que, pelos motivos que forem, pode haver mais homens que conheçam, ou mais mulheres. Mas neste caso podia ter sido: na verdade surgiram tantos nomes de homens como de mulheres, só que os homens aceitaram e das mulheres só a Elena Martín Lores. Quanto à posição em último lugar, achei interessante encerrar com esse texto, primeiro porque é uma leitura agradável e ligeira, e segundo porque ao ser uma conversa e ter tom propositivo, deixa a leitora com vontade de imaginar e de fazer, que como disse é o intuito principal do volume.

Olhando cada texto por separado, houve algum ou alguns que surpreenderam por seguirem um caminho diferente daquele que imaginavam?

Em geral todas foram muito diligentes e cingiram-se muito bem à encomenda. A que mais se prestava à surpresa era talvez a de Anxo Rabuñal Rey, por ser um pedido mais aberto, e ficou uma autêntica delícia. Depois, no texto de Santiago Rodríguez Caramés ocupava um espaço muito maior a produção intelectual de início do século XX, digamos para-universitária, que acabamos apagando por escapar ao tema, mas que oxalá publique num outro local porque era muito interessante.

No conjunto, encontraram ideias comuns que nem sequer tinham previsto? Isto foi capaz de lhes fazer repensar a própria forma de olhar para o turismo?

Sem dúvida. Eu levei o trabalho mais técnico, de coordenação, mas elas é que conhecem verdadeiramente o turismo, cada uma do seu ponto de vista. Por colocar alguns exemplos: o Anxo explica a tese de Hakim Bey segundo a qual a origem do turismo contemporâneo está na campanha militar: a invasão, a apropriação da cultura, o despojo… E Javier H. Rodríguez destaca o paradoxal que é gastar milhões de euros de dinheiro público em publicitar a Galiza em jornais de tiragem galega. O Sánti fala na capacidade de alguns organismos internacionais, que eu desconhecia, para travar determinados projetos de turistificação do património. E a Elena descobre nas suas conversas que o melhor planeamento turístico é aquele que coloca no centro a comunidade local, pois o que buscam as visitantes são espaços vivos e habitados, com comércio local, bons serviços e cultura. Aqui destacaria que as pesquisas do Grupo Galabra apontam para o mesmo lugar, o que demonstra que a voz das vizinhas merece ser ouvida.

Muitas pessoas pegamos num livro como este porque acreditamos que há algo de problemático no turismo contemporâneo, mas ainda não identificamos exatamente o quê ou como agir perante isso. Em que medida este livro ajuda a compreender melhor este fenómeno ou influencia o nosso comportamento enquanto visitantes e visitadas?

Eis o sentido do livro e o seu intuito. O sucesso já deve ser avaliado por quem ler.

Se este livro fosse lido pelos turistas que vêm à cidade, qual seria a principal ideia que gostariam que eles retivessem ? E se fosse lido pelos seus vizinhos? E pelos responsáveis políticos?

Procuro não desejar nem tentar que ninguém pense nada em concreto. O livro é este, a partir daí cada uma fará a sua leitura. Lobo Antunes dizia que quem escreve os livros são as leitoras, com os seus olhos. Sinto é muita curiosidade pelo que cada uma dessas pessoas que dizes irá pensar e dizer, então o único que pediria seria que todas o lessem.

Que pergunta ou comentário gostariam que fosse feito sobre o livro e que quase ninguém está a fazer?

Não costumo ver livros de 140 páginas a 16 €. A Através preocupa-se em todas as fases da produção por oferecer livros acessíveis do ponto de vista económico, ainda que isso contravenha os seus lucros. Digo em todas as fases porque já vi livros com entrelinhado duplo e tipografia a 16 pontos, o que aumenta o grosso do livro, incrementando o preço de produção e portanto o de venda. Também devo reconhecer que todas as autoras menos uma doaram os direitos à editora, renunciando a receber qualquer dinheiro pelo seu esforço; também isto contribui para que os preços possam ser reduzidos. Para nós a mais-valia é que o pessoal leia o livro e debata sobre ele. É um exemplo do que penso que deviam fazer outras editoras maiores neste país e gostava que fosse reconhecido.

Bom, e, para ser picuinhas, gostava que as pessoas que figuram nos agradecimentos da introdução gostassem das cousas que digo delas.

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