Em 313 d.C., os imperadores romanos do Ocidente, Constantino, e do Oriente, Licínio, promulgaram o Édito de Milão, que instituiu o fim da perseguição ao cristianismo e concedeu liberdade de culto e neutralidade religiosa ao Império. Anos mais tarde, em 380 d.C., o Imperador Teodósio I tornou o cristianismo — e, em particular, o credo cristão saído do Concílio de Niceia («Jesus Cristo é consubstancial ao Pai, Homoousios») — a religião exclusiva e oficial do Estado Romano, proibindo quaisquer outras práticas através do Édito de Tessalónica.
Recorrendo ao conceito alemão de Zeitgeist — ou «espírito da época», na tradução possível —, para os indivíduos atentos às transformações das relações sociais, estes éditos deram o sinal de partida para um novo paradigma no exercício do poder político e cultural.
Não é por acaso — ou será por acaso? — que, no verão de 386 d.C. (apenas quatro anos após o Édito de Tessalónica), um professor de retórica de 31 anos, apaixonado pela filosofia desde os 19 após a leitura do diálogo Hortênsio de Cícero, se converteu ao cristianismo. Renunciou ao seu cargo de professor de retórica do Império e, em 391 d.C., foi nomeado Bispo de Hipona (a segunda maior cidade da África romana).
Agostinho de Hipona — Santo Agostinho — ganhou assim em prestígio e poder o que poderia ter perdido em património pessoal. Se foi uma conversão sincera, por conveniência, ou um misto de ambas, nunca saberemos ao certo. Desta transição resta-nos apenas o testemunho do próprio Agostinho na sua obra autobiográfica Confissões que, juntamente com A Cidade de Deus, se encontra entre os escritos mais influentes do pensamento ocidental.
Podemos apenas especular se existiram céticos quanto à recém-descoberta fé de Agostinho, até porque o cristianismo, ao tornar-se a partir do século V a religião dominante do Império, apagou sistematicamente quase toda a crítica contrária. Sobreviveram apenas as teses de autores pagãos descontextualizadas na forma de enunciados, preservadas justamente para serem refutadas a seguir pelos teólogos cristãos.
Afinal, Agostinho de Hipona escolheu o lado «certo» da História. Se tivesse continuado a filosofar segundo os ensinamentos pagãos, maniqueus e neoplatónicos da sua fase anterior, com certeza toda a sua obra — e a sua própria memória — ter-se-iam perdido no tempo.
Imagem: Conversão de Santo Agostinho, Fra Angelico (pormenor)





