O ouro de Barroso está dependurado por uma corda. Visto assim, parece uma maneira pouco prudente de guardar uma fortuna. Mas a casa sabe o que faz.
Estes presuntos obrigam-me a pensar nas mãos. Nas que trataram dos animais, nas que salgaram a carne, nas que sabem, pelo hábito e pela atenção, quando é preciso mexer e quando convém deixar estar. Há conhecimentos que uma pessoa leva anos a adquirir e explica em duas frases. Parece simples porque alguém já fez a parte difícil.
A fotografia apanha o resultado. O trabalho teve de caber nos dias, entre outras tarefas, cansaços e contas. Convém lembrá-lo quando falamos destas coisas com a facilidade de quem só aparece à hora de provar.
Vejo também uma forma concreta de confiança no futuro: preparar hoje o que há de alimentar a casa depois. Quem guarda comida conhece o valor de ter com que responder ao dia seguinte. Essa segurança custa trabalho, mas muda a maneira de estar à mesa.
E depois chega alguém. Tira-se o presunto, procura-se a faca, corta-se. Aquilo que levou tanto tempo a preparar começa a desaparecer durante uma conversa.
Gosto desta falta de solenidade. Uma pessoa oferece o que tem de melhor e pergunta se o pão chega.




