Vende-se cidade. Inquilinos à parte.

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Tenho acompanhado o entusiasmo com que se anuncia a valorização das nossas cidades. Cada prédio vendido por uma fortuna é uma boa notícia. Cada renda aumentada é um sinal de dinamismo. Cada morador que sai deve ser, suponho, uma oportunidade de estacionamento.

O Porto está cada vez mais bonito. Há fachadas recuperadas, hotéis onde antes havia vizinhos e menus em línguas que os empregados dominam melhor do que o salário lhes permite dominar a vida. Um sucesso. Só falta encontrar maneira de acomodar os portuenses, essa população pouco competitiva que insiste em precisar de uma cozinha e de um sítio para dormir.

Durante anos, venderam-nos a ideia de que o investimento acabaria por beneficiar toda a gente. Ainda estou à espera da minha vez. Talvez o benefício esteja a subir pelas escadas, porque o elevador é exclusivo dos hóspedes.

Entretanto, as casas foram dando lugar a alojamentos locais. Onde vivia uma família, passam agora visitantes com malas de rodinhas e códigos de acesso. Multiplicam-se as camas para quem fica três noites e desaparecem as casas para quem precisa de ficar o resto da vida. Depois discutimos o afastamento dos moradores como se fosse um fenómeno meteorológico. Aconteceu. Ninguém sabe bem porquê. Deve ter sido o vento.

Também convém desconfiar do retrato enternecedor com que se apresenta o alojamento local: o pequeno proprietário que herdou a casa da avó e tenta compor o rendimento. Existe, certamente. Mas não está sozinho. Há empresas com dezenas ou centenas de alojamentos sob exploração, e mais de um terço dos registos nacionais já estava em nome de empresas em Agosto de 2025. Usar a casa da avó para justificar as condições de negócio de grandes operadores é uma habilidade considerável. A avó entra na fotografia; a empresa fica fora do enquadramento.

Acrescem os hotéis: segundo os dados municipais citados em Agosto, o Porto já tinha 217, com mais 112 projectos com direitos adquiridos. No total, 7,9 hotéis por quilómetro quadrado, um número superior a Barcelona. Pelos vistos, há sempre espaço para mais hóspedes. Para os habitantes é que a cidade está cheia.

E falta uma visão estratégica para o turismo que vá além de querer mais. Mais hotéis, mais voos, mais visitantes, mais dormidas. Quantos cabem? Com que efeitos na habitação e nas infra-estruturas? Os transportes, as redes de água e saneamento, a recolha de lixo e o espaço público não aumentam de capacidade a cada inauguração de um hotel. Quem paga o reforço e quem suporta a sobrecarga? E já agora, o que se faz com a taxa turística que rendeu 32,3 milhões de euros em 2025? Onde se aplica o suposto Fundo para o qual ela reverte e que deveria servir para responder à pressão sobre a cidade? Quanto é destinado a melhorar a vida de quem cá mora? Gostava de ver essas contas explicadas com o mesmo entusiasmo com que se anunciam recordes de visitantes. Se os moradores suportam os efeitos do turismo todos os dias, têm o direito de saber o que recebem em troca.

Mas isso logo se vê. Para anunciar recordes há sempre disponibilidade; para fazer estas contas, nem por isso. Confunde-se o crescimento do negócio com o desenvolvimento da cidade. Os lucros têm destinatário. A factura vai dar uma volta até chegar a todos nós.

Esta transformação tem ainda uma vantagem política pouco discutida: quem é empurrado para fora da cidade acaba também por deixar de votar nela. O negócio fica; parte do descontentamento muda de concelho. Não quer dizer que todos os que ficam estejam satisfeitos, mas os expulsos deixam de poder apresentar a conta nas urnas da cidade que os expulsou. Para quem favoreceu o negócio, é um arranjo bastante conveniente. O turista deixa uma avaliação na plataforma; o antigo morador vai reclamar para outra freguesia.

E depois há as casas vazias. Umas à espera de obras, outras de heranças por resolver, outras de que o preço suba mais um bocadinho. Uma casa pode não alojar ninguém e continuar a dar excelentes perspectivas de negócio. Quem precisa de morar que aguarde: o imóvel está ocupado a valorizar.

Há medidas para contrariar isto? Há. Mas, entre identificar os imóveis, demonstrar a sua situação, cumprir procedimentos e enfrentar contestações, a aplicação torna-se uma prova de resistência. No papel, temos instrumentos. Na prática, quase precisamos de um milagre para os pôr a funcionar. A casa continua vazia, o preço continua a subir e a família continua à procura. Pelo menos a legislação está alojada no Diário da República.

Quem trabalha na cidade vai sendo convidado a morar cada vez mais longe. O convite vem em papel timbrado, com um novo valor de renda e votos de boa saúde. Convém tê-la: vão ser necessárias duas horas de transportes e alguma resistência para continuar a servir pequenos-almoços a quem veio descobrir como se vive bem no Porto.

Há uma particular crueldade numa cidade que precisa de professores, enfermeiros, empregados de mesa e trabalhadores da limpeza, mas onde os respectivos salários não chegam para pagar casa. Queremos os serviços, dispensamos a presença. Venham trabalhar, façam o favor de desaparecer no fim do turno e não estraguem a fotografia.

Depois admiramo-nos com os jovens que continuam em casa dos pais. Como se fosse uma preferência geracional, uma paixão tardia pela sopa da mãe. A independência tornou-se um luxo com caução, fiador e três recibos de vencimento.

E há quem trabalhe o mês inteiro para pagar um quarto. Quem partilhe casa com desconhecidos muito depois de ter idade para escolher com quem quer viver. Quem adie filhos, separações, estudos ou uma mudança de emprego porque qualquer decisão esbarra na renda. Depois aparece alguém a recomendar uma melhor gestão do orçamento. Gostava de assistir à gestão de um salário que acaba antes de se chegar ao supermercado.

Perante isto, o Governo português e quem lhe viabiliza as políticas continuam a olhar para a habitação sobretudo pelos olhos de quem investe. A preocupação é dar confiança ao mercado, quando quem procura casa já só tem razões para desconfiar. Às pessoas pede-se paciência; ao investimento prometem-se condições. Deve ser porque a paciência dos inquilinos rende menos.

O Governo resolveu, aliás, facilitar novamente o alojamento local, revogando, em 2024, várias restrições, incluindo a suspensão de novos registos de apartamentos e estabelecimentos de hospedagem. Os municípios mantêm poderes de regulação, mas a orientação nacional foi aliviar os limites ao negócio. Perante a dificuldade em encontrar casa, decidiu-se tornar mais fácil destiná-la a quem está de passagem. Deve ser esta a famosa capacidade de responder à realidade: olhar para ela e seguir em sentido contrário.

E quem apoia este caminho não pode depois aparecer muito surpreendido com o resultado. Não basta lamentar a saída dos jovens, a falta de professores ou as dificuldades das famílias e continuar a tratar a protecção dos moradores como um incómodo para o negócio. As escolhas têm consequências, mesmo quando vêm acompanhadas de uma conferência de imprensa sobre a preocupação com os portugueses.

Habituámo-nos a ouvir falar das casas como se ninguém lá morasse. São activos, oportunidades, carteiras de investimento. Uma rua inteira pode mudar de mãos numa operação celebrada nas páginas de economia. Os moradores recebem a notícia por carta e têm menos razões para abrir champanhe.

No Porto, houve quem levasse esta indignação para a rua e montasse tendas na Praça D. João I. Estive lá desde sábado até ao levantamento da “acampada”, acompanhei o que aconteceu e registei-o em fotografias. Na segunda-feira, vi a polícia avançar para retirar tendas que os manifestantes tinham aceitado desmontar, depois de lhes ter sido prometido tempo para o fazer. A praça foi limpa. As rendas, infelizmente, não sofreram qualquer intervenção.

A rapidez merece registo. Para garantir habitação, há sempre dificuldades, estudos e prazos. Para remover quem protesta pela sua falta, a resposta aparece logo de manhã.

Também faltou gente. Organizações que trabalham sobre pobreza e habitação, pessoas que partilham estas preocupações, todos nós que sabemos produzir uma indignação razoável entre duas publicações nas redes. Uma causa que ocupa páginas de relatórios e candidaturas também precisa de presença quando chega à praça. Quem ali ficou não pode carregar sozinho um problema que afecta tanta gente.

Claro que não há uma medida capaz de resolver tudo. Mas isso não dispensa decisões nem justifica que se continue a entregar a vida das pessoas à expectativa de que o mercado, um dia destes, acorde bem-disposto. É preciso habitação pública, rendas que os salários consigam pagar, limites à transformação de casas em alojamento turístico, mobilização das casas vazias e protecção para quem corre o risco de perder a casa. E deixar de usar o pequeno proprietário como desculpa para proteger os interesses dos grandes investidores imobiliários.

Uma cidade onde quem ensina, cuida, limpa e serve não consegue morar tem um problema bastante maior do que umas tendas numa praça.


Fotografia: Sérgio Aires

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