Fui defender um direito; encontrei uma geração.

Desde o passado dia 10 de Outubro que participo na acampada pelo direito à habitação, na Praça D. João I, no Porto. Estive lá, conversei com as pessoas, fotografei, ouvi histórias, participei nas discussões e acompanhei de perto uma iniciativa que, independentemente das opiniões que cada um possa ter sobre a forma de protesto, deveria merecer, no mínimo, respeito e atenção por parte de quem nos governa. Mas, acima de tudo, fui surpreendido. E pela positiva. Durante estes dias tive o privilégio de conviver com uma geração que tantas vezes ouvimos acusar de egoísmo, individualismo, falta de compromisso e desinteresse …

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Vende-se cidade. Inquilinos à parte.

Tenho acompanhado o entusiasmo com que se anuncia a valorização das nossas cidades. Cada prédio vendido por uma fortuna é uma boa notícia. Cada renda aumentada é um sinal de dinamismo. Cada morador que sai deve ser, suponho, uma oportunidade de estacionamento. O Porto está cada vez mais bonito. Há fachadas recuperadas, hotéis onde antes havia vizinhos e menus em línguas que os empregados dominam melhor do que o salário lhes permite dominar a vida. Um sucesso. Só falta encontrar maneira de acomodar os portuenses, essa população pouco competitiva que insiste em precisar de uma cozinha e de um sítio …

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Pedro, encontrei uma.

Pedro Sánchez quer, pela primeira vez, uma mulher latino-americana à frente da ONU. Disse-o há umas semanas, na própria Assembleia Geral: em oitenta anos, nove homens ocuparam o cargo. Talvez esteja na altura de experimentar outra coisa. Concordo. E acrescento um nome: Dilma Rousseff. Sim, essa Dilma. A que não vem com o conveniente currículo de quem passou a vida a circular pelos corredores certos, nas salas certas, com a gravata certa e a opinião certa sobre o multilateralismo. Foi presa e torturada pela ditadura militar, chegou à Presidência do Brasil pelo voto, foi reeleita e sofreu um impeachment que constituiu …

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900 anos de misturas

Comemorar os 900 anos de Portugal é comemorar o multiculturalismo. Eu sei que a frase provocará azia nos patriotas que imaginam a nacionalidade como uma receita guardada em segredo desde D. Afonso Henriques: um rei, uma espada, um bacalhau e, ao fundo, alguém a cantar o hino com a mão no peito. De preferência sem estrangeiros à vista, excepto se estiverem a servir à mesa. Aliás, a azia começou antes de eu escrever a frase. Bastou o Presidente da República nomear Ana Bárbara Pedrosa para as comemorações e logo se ergueram os inspectores da portugalidade, munidos de lupa, bandeira e …

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A Internacional Nacionalista

Há qualquer coisa de enternecedor num nacionalista português a festejar a vitória de um nacionalista alemão. É quase uma Internacional Nacionalista. O nome tem um pequeno problema lógico, mas não sejamos picuinhas. Se conseguimos ter influencers que recomendam livros que não leram, também podemos ter uma internacional de pessoas que defendem que cada país deve preocupar-se exclusivamente consigo próprio. A dificuldade começa depois. Porque o nacionalista alemão não acha que Portugal deve estar primeiro. A pista está, aliás, na palavra “alemão”. Ele acha que a Alemanha deve estar primeiro. O francês acha que deve ser a França. O holandês, os …

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Litigar é preciso

Há uma idade a partir da qual parece que deixamos simplesmente de envelhecer e passamos a constituir um problema. Um problema para a Segurança Social, para o Serviço Nacional de Saúde, para os seguros, para os bancos, para as famílias e, pelos vistos, até para quem desenha aplicações e decide que toda a gente tem obrigação de saber onde fica o raio do QR Code. Falamos muito de envelhecimento. Envelhecimento activo, saudável, digno, participado, positivo e provavelmente mais uma dúzia de adjectivos que, entretanto, me escapam. Produzimos estratégias, planos, programas, recomendações, conferências e dias internacionais. Sobretudo dias internacionais. E fazemos …

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O inferno somos nós.

Há uma frase que se repete todos os dias nas redes sociais: “As redes sociais estão cada vez piores.” Curiosamente, quase nunca é dita fora delas. É publicada no Facebook, no Instagram, no X ou no TikTok, acompanhada por uma fotografia, um vídeo ou um texto suficientemente apelativo para recolher umas dezenas, ou centenas, de gostos. Critica-se o algoritmo esperando, naturalmente, que o algoritmo tenha a gentileza de mostrar essa crítica ao maior número possível de pessoas. É um dos grandes paradoxos do nosso tempo. As redes sociais passaram a desempenhar o papel que antigamente cabia ao café da esquina: …

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Histórias sem ninguém para as contar

Encontrei-a numa feira de velharias. Suja, maltratada, com o cabelo desfeito e aquele ar triste que algumas bonecas parecem adquirir quando deixam de pertencer a alguém. Fotografei-a. Não sei porquê aquela e não outra coisa qualquer entre as centenas de objectos espalhados pelas bancas. Talvez porque, ao contrário de um prato, de um candeeiro ou de uma velha máquina de café, uma boneca tem qualquer coisa de humano. Sobretudo quando está assim, abandonada. Parece estar à espera de alguém que já não vem. Fiquei a pensar a quem teria pertencido. Quem a terá recebido? Em que aniversário, em que Natal? …

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O mundo precisa de mais febras

A palavra comunidade vem de longe. Do latim communitas, derivado de communis: aquilo que é comum, aquilo que é partilhado. Na raiz anda também o munus. Uma palavra curiosa, porque pode significar dever, encargo, serviço, mas também dádiva. Aquilo que cada um oferece aos outros. Gosto desta ideia. Uma comunidade não é apenas um conjunto de pessoas que têm alguma coisa em comum. É um conjunto de pessoas que dão alguma coisa umas às outras. Talvez seja por isso que me tenho lembrado tanto desta palavra desde o Rock no Rio Febras. Sim, o Rock no Rio Febras. Um festival onde passaram este ano, segundo as …

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A campainha da História

Volto muitas vezes a um extraordinário livro do jornalista norte-americanos Otto Friedrich (1929-1995): Antes do Dilúvio (edição brasileira de 1997). Não é um livro sobre Hitler. Nem sequer é um livro sobre o nazismo. É um livro sobre tudo o que existia antes deles. Sobre uma Berlim vibrante, cosmopolita, irreverente, artisticamente deslumbrante, convencida de que vivia o auge da modernidade. Uma cidade onde conviviam Einstein, Brecht, Marlene Dietrich, Otto Dix, George Grosz e tantos outros. Uma cidade onde quase ninguém imaginava que o chão já estava a desaparecer debaixo dos pés. Talvez seja por isso que volto tantas vezes a esse …

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Greenwashing com depósito de dez cêntimos

Primeiro foi o greenwashing. Depois o pinkwashing. O capitalismo tem uma imaginação inesgotável para descobrir causas que fiquem bem na fotografia. Desde que não obriguem a alterar o essencial: o modelo de negócio. Agora temos uma nova modalidade: Greenwashing com depósito de dez cêntimos.O princípio é de uma simplicidade admirável. Durante décadas, produziram-se milhões de toneladas de plástico descartável. Depois convenceram-nos de que o verdadeiro gesto ecológico consiste em devolver esse mesmo plástico ao sítio de onde nunca devia ter saído.É quase uma forma de absolvição colectiva. Compramos a bebida. Pagamos mais dez cêntimos. Levamos a garrafa para casa. Guardamo-la durante dias. …

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