O inferno somos nós.

Há uma frase que se repete todos os dias nas redes sociais: “As redes sociais estão cada vez piores.” Curiosamente, quase nunca é dita fora delas. É publicada no Facebook, no Instagram, no X ou no TikTok, acompanhada por uma fotografia, um vídeo ou um texto suficientemente apelativo para recolher umas dezenas, ou centenas, de gostos. Critica-se o algoritmo esperando, naturalmente, que o algoritmo tenha a gentileza de mostrar essa crítica ao maior número possível de pessoas. É um dos grandes paradoxos do nosso tempo. As redes sociais passaram a desempenhar o papel que antigamente cabia ao café da esquina: …

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Histórias sem ninguém para as contar

Encontrei-a numa feira de velharias. Suja, maltratada, com o cabelo desfeito e aquele ar triste que algumas bonecas parecem adquirir quando deixam de pertencer a alguém. Fotografei-a. Não sei porquê aquela e não outra coisa qualquer entre as centenas de objectos espalhados pelas bancas. Talvez porque, ao contrário de um prato, de um candeeiro ou de uma velha máquina de café, uma boneca tem qualquer coisa de humano. Sobretudo quando está assim, abandonada. Parece estar à espera de alguém que já não vem. Fiquei a pensar a quem teria pertencido. Quem a terá recebido? Em que aniversário, em que Natal? …

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O mundo precisa de mais febras

A palavra comunidade vem de longe. Do latim communitas, derivado de communis: aquilo que é comum, aquilo que é partilhado. Na raiz anda também o munus. Uma palavra curiosa, porque pode significar dever, encargo, serviço, mas também dádiva. Aquilo que cada um oferece aos outros. Gosto desta ideia. Uma comunidade não é apenas um conjunto de pessoas que têm alguma coisa em comum. É um conjunto de pessoas que dão alguma coisa umas às outras. Talvez seja por isso que me tenho lembrado tanto desta palavra desde o Rock no Rio Febras. Sim, o Rock no Rio Febras. Um festival onde passaram este ano, segundo as …

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A campainha da História

Volto muitas vezes a um extraordinário livro do jornalista norte-americanos Otto Friedrich (1929-1995): Antes do Dilúvio (edição brasileira de 1997). Não é um livro sobre Hitler. Nem sequer é um livro sobre o nazismo. É um livro sobre tudo o que existia antes deles. Sobre uma Berlim vibrante, cosmopolita, irreverente, artisticamente deslumbrante, convencida de que vivia o auge da modernidade. Uma cidade onde conviviam Einstein, Brecht, Marlene Dietrich, Otto Dix, George Grosz e tantos outros. Uma cidade onde quase ninguém imaginava que o chão já estava a desaparecer debaixo dos pés. Talvez seja por isso que volto tantas vezes a esse …

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Greenwashing com depósito de dez cêntimos

Primeiro foi o greenwashing. Depois o pinkwashing. O capitalismo tem uma imaginação inesgotável para descobrir causas que fiquem bem na fotografia. Desde que não obriguem a alterar o essencial: o modelo de negócio. Agora temos uma nova modalidade: Greenwashing com depósito de dez cêntimos.O princípio é de uma simplicidade admirável. Durante décadas, produziram-se milhões de toneladas de plástico descartável. Depois convenceram-nos de que o verdadeiro gesto ecológico consiste em devolver esse mesmo plástico ao sítio de onde nunca devia ter saído.É quase uma forma de absolvição colectiva. Compramos a bebida. Pagamos mais dez cêntimos. Levamos a garrafa para casa. Guardamo-la durante dias. …

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