O mundo precisa de mais febras

   Tempo de leitura: 7 minutos

A palavra comunidade vem de longe. Do latim communitas, derivado de communis: aquilo que é comum, aquilo que é partilhado.

Na raiz anda também o munus. Uma palavra curiosa, porque pode significar dever, encargo, serviço, mas também dádiva. Aquilo que cada um oferece aos outros.

Gosto desta ideia. Uma comunidade não é apenas um conjunto de pessoas que têm alguma coisa em comum. É um conjunto de pessoas que dão alguma coisa umas às outras. Talvez seja por isso que me tenho lembrado tanto desta palavra desde o Rock no Rio Febras. Sim, o Rock no Rio Febras.

Um festival onde passaram este ano, segundo as contas da organização, 40 mil pessoas e 15 mil pataniscas, números que, não sendo ainda reconhecidos pelo Instituto Nacional de Estatística, me parecem perfeitamente credíveis.

E há um pormenor que não é pormenor nenhum: tudo aquilo existe para angariar fundos que revertem para o bem-estar da própria comunidade. A comunidade junta-se, trabalha, oferece o seu tempo, recebe milhares de pessoas e aquilo que consegue construir regressa ao lugar de onde partiu. O círculo fecha-se.

Cheguei lá porque quis. Ofereci-me para fotografar o festival e entrei naquela máquina estranha feita de música, comida, voluntários, artistas, vizinhos, amigos, conhecidos e gente que nunca se tinha visto antes. E reconheci uma comunidade. Não porque alguém me entregasse um cartão de membro. Muito menos porque concordássemos todos sobre o mundo, a política, o futebol ou a quantidade aceitável de carne numa bifana. Simplesmente porque havia alguma coisa para fazer e cada pessoa fazia a sua parte. Uns montavam. Outros desmontavam. Uns cozinhavam. Outros serviam. Uns tocavam. Outros dançavam. E eu fotografava. O munus estava ali. Cada um dava qualquer coisa.

Às vezes, o que podia parecer muito pouco, mas era tudo. Um sorriso. Um abraço. Um Voltaren. Um obrigado. A sensação de que alguém reparou no que fizemos e achou que valeu a pena. Talvez uma comunidade também se construa assim: fazendo com que cada pessoa sinta que conta. E talvez seja precisamente isso que nos esteja a fazer tanta falta.

Vivemos numa época extraordinariamente obcecada com o indivíduo. Temos perfis individuais, opiniões individuais, computadores pessoais, carreiras individuais, marcas pessoais, algoritmos personalizados e fotografias nossas suficientes para documentar várias reencarnações. Nunca estivemos tão ocupados a construir o eu. E talvez nunca tenhamos estado tão aflitos à procura de um nós.

Associações, colectividades, sindicatos, movimentos, clubes e grupos informais foram desaparecendo ou perdendo importância. Até os bairros deixaram muitas vezes de ser comunidades para passarem a ser códigos postais. E depois admiramo-nos com a solidão.

Talvez porque uma comunidade não se construa carregando num botão onde diz “seguir”. Constrói-se estando. Ajudando. Fazendo. Dando tempo. Parece pouco. Não é.

E depois há aquela a que chamámos, durante muitos anos, Comunidade Europeia. A certa altura achámos que comunidade era pouco e resolvemos chamar-lhe União. A palavra ficou mais forte. A coisa, nem por isso.

Temos mercado único, moeda única, regras orçamentais, metas, indicadores, tratados e regulamentos. Mas continuamos com enormes dificuldades em perceber aquilo que temos verdadeiramente em comum e, sobretudo, aquilo que devemos uns aos outros.

Talvez porque tenhamos trocado, algures pelo caminho, desenvolvimento por crescimento. E não são a mesma coisa. O crescimento pergunta quanto produzimos, quanto exportamos, quanto vale o PIB e quantas décimas avançámos desde o trimestre anterior. O desenvolvimento faz perguntas bastante mais incómodas. Pergunta quem ficou para trás. Pergunta como se distribui aquilo que produzimos. Se uma criança nascida numa família pobre tem as mesmas possibilidades que outra. Se os territórios mais frágeis conseguem acompanhar os mais ricos. Se quem perde é abandonado ou se alguém lhe estende a mão. Porque o desenvolvimento exige igualdade e solidariedade. O crescimento pode perfeitamente viver sem nenhuma das duas. Basta-lhe a competitividade. E a competitividade, quando deixa de ser um instrumento e passa a ser uma maneira de organizar a sociedade, tem uma regra bastante simples: ganham os mais fortes.

Talvez por isso tenhamos uma União Europeia extremamente competente a medir défices e bastante menos competente a medir abandonos. Podemos atravessar fronteiras sem mostrar o passaporte. Mas isso, por si só, não faz uma comunidade. Porque communitas nunca quis dizer apenas circular pelo mesmo espaço. Queria dizer partilhar. Queria dizer obrigação perante os outros. Queria dizer munus. E talvez seja estranho que um festival em Briteiros pratique com tanta naturalidade uma ideia que um continente inteiro parece ter tanta dificuldade em concretizar.

No Rock no Rio Febras ninguém perguntou se carregar uma mesa aumentava o PIB. Ninguém calculou a produtividade marginal da patanisca. Havia uma coisa para fazer e fazia-se. Em conjunto. E, no fim, aquilo que se conseguia angariar voltava à comunidade. Talvez a diferença entre crescimento e desenvolvimento também possa ser explicada assim, sem gráficos nem PowerPoints.

Mas o Rock no Rio Febras não me ensinou nada disto. Passei boa parte da minha vida a defender o espírito comunitário como um dos pilares fundamentais de uma democracia saudável. A acreditar que uma sociedade não se constrói apenas com indivíduos e instituições, mas com relações, compromissos, responsabilidades partilhadas e a consciência de que aquilo que acontece aos outros também nos diz respeito.

Não descobri a comunidade em Briteiros. Aconteceu uma coisa talvez mais importante. Voltei a acreditar que ela é possível. Porque confesso que fui desacreditando. Não da ideia, mas da nossa capacidade de a pôr em prática.

Foram demasiados anos a assistir à transformação de cidadãos em consumidores, de direitos em serviços, de solidariedade em caridade, de comunidade em redes sociais e de desenvolvimento numa corrida em que nos explicam que alguns terão inevitavelmente de ficar para trás. A certa altura começamos a perguntar-nos se ainda sabemos fazer de outra maneira. E depois aparecem umas centenas de pessoas em Briteiros. Umas montam palcos. Outras carregam mesas. Outras cozinham. Outras servem. Outras recebem quem chega. Outras tocam. Outras fotografam. Milhares aparecem para participar. E aquilo funciona. Não porque alguém esteja a tentar vencer os outros, mas precisamente porque ninguém conseguiria fazê-lo sozinho. E, no fim, o resultado do esforço de todos regressa a todos.

Talvez seja difícil encontrar uma definição mais simples de comunidade. Foi isso que o Rock no Rio Febras me devolveu. Não uma ideia nova. Uma esperança antiga. A certeza, ou pelo menos a vontade de voltar a tê-la, de que aquilo em que fui desacreditando continua a ser possível. Assim queiramos. E, sobretudo, assim tenhamos lucidez suficiente para perceber que o caminho é por aqui.

Porque uma democracia não vive apenas de eleições, parlamentos, governos ou constituições. Vive também da capacidade de reconhecermos no outro alguém com quem partilhamos alguma coisa e perante quem temos alguma responsabilidade.

Os romanos encontraram uma palavra para isso. A Europa chegou a chamar-lhe Comunidade. Depois preferiu chamar-lhe União. Em Briteiros chamaram-lhe Rock no Rio Febras. E talvez, no meio de 40 mil pessoas, 15 mil pataniscas, música, mesas, cabos, cerveja e gente a trabalhar sem perguntar primeiro o que ganhava com isso, esteja uma coisa muito mais séria do que parece: a prova de que ainda sabemos fazer comunidade.

Agora falta perceber que precisamos dela. E talvez seja por isso que o mundo precise mesmo de mais febras.


Fotografia: © Sérgio Aires

Share