Chamam-me Minerva. Sou uma Churra do Minho.
Vim à Semana do Barrosão para representar a minha raça.
Achei que ia encontrar animais de trabalho.
Encontrei candidatos a influenciadores rurais.
O primeiro foi o porco.
Anda tão cheio de si que suspeito que já não grunhe. Faz discursos.
Tem um ar de quem acredita sinceramente que, se existisse um Ministério da Vaidade Animal, era nomeado sem concurso.
Passa o dia a esticar o focinho para as fotografias.
Olha para mim e diz:
“Repara na minha constituição.”
Eu reparo.
Constituição tem.
Modéstia é que nunca chegou à exploração.
Depois apareceu o galo.
Meu Deus… o galo.
Não canta.
Faz conferências sobre genealogia.
Já lhe ouvi mais histórias da família do que a um fidalgo à porta de um solar.
Um bisavô em Tourém.
Um trisavô em Pitões.
Um tio-avô em Covelães.
Mais cinco minutos e ainda descobrimos que um antepassado dele ajudou D. Afonso Henriques a conquistar Portugal.
Cada vez que abana a crista, parece que espera ouvir o hino nacional.
As cabras também não facilitam.
Passam o dia a subir a elevar a cabeça.
Não porque seja preciso.
Porque fotografadas de baixo parecem mais importantes.
Descobriram que existe um lado melhor para as selfies.
Agora já escolhem perfil.
Uma até me perguntou:
“Achas que fico melhor deste lado?”
Respondi:
“Minha filha… és uma cabra. Não és uma atriz de cinema.”
Ofendeu-se.
Há sensibilidades muito delicadas no mundo rural.
Entretanto, nós, as ovelhas, continuamos iguais.
Ninguém nos ouve falar de pedigree.
Nunca nos viram disputar quem tem a lã mais brilhante.
Nem fazemos pose.
Porque sabemos uma coisa que os vaidosos esquecem depressa.
Quem passa a vida a anunciar a própria importância costuma deixar pouco tempo para ser realmente importante.
Ao fim do dia olhei para o recinto.
O porco continuava convencido de que era um monumento nacional.
O galo ainda procurava um descendente da nobreza entre os visitantes.
As cabras disputavam qual delas tinha aparecido em mais telemóveis.
E eu continuei calmamente a mastigar erva.
Há muitos anos que aprendi uma verdade.
Na agricultura, o animal que faz mais barulho raramente é o que mais trabalho dá.
E, curiosamente, quem trata deles nunca pergunta pelo ego.
Pergunta sempre se comem bem.
Fotografia: Maria José Afonso





