Vou lasquinhando aproveitáveis das espinhas e cachola da pescada, que venho de fazer sopa com verduras sobrantes, para aproveitar de salpicão. A máquina de lavar vai bulebulindo a sua mecânica cantiga. É tarde entrada e planifico o dia-a-dia a seguir. A cozinha precisava de mais uma limpeza, carambas. É o seu jeito de me evidenciar o desacougo1. Contudo rio. Fica-me uma sensação boa, ainda viva, da leitura, na luz da tarde, no salão.
Dou em pensar, em segundo plano, por sobre o doméstico iminente, que a biografia de Bertrand Russell, The Passionate sceptic2, escrita por Alan Wood, devorada nuns poucos dias, sendo um de ressaca dominical. É uma das melhores obras de ensaio biográfico que já li . Não por acaso, coloquei reverencialmente, numa prateleira, junto com o Montaigne a cavalo, de Jean Lacouture.
Que contraste com o ensaio atual, com o paper pré-cozinhado e o artigo académico enlatado a uso de pares. A academia há muito que – para mim – abandonou o desempenho, a razão, as perguntas, os experimentos, a curiosidade, o debate, a ciência, a qualidade: o humanismo enfim, e já não tem nada que seja paixão e menos estilo. Que saudades dos textos dos historiadores e cientistas doutrora.
Pode que estas leituras e personagens não passem doutras formas de saudade, pode que seja a idade. Mas a mim resgatam-me.
Antes que deixem. Dizia, gosto da biografia, do estilo, da história e da anedota narrada e breves analíticas sugeridas dos trabalhos e escritos que vão conformando a imagem do homem; da obra inabarcável e a extensa peripécia vital longeva, contada com a energia meticulosa de quem admira na proximidade. Apenas os fragmentos e alusões às mulheres que passam pelas páginas ficam fora de quadro e as cenas domésticas longe do meu gosto. Mas, pronto, isto é uma biografia para se ler e não, dou por exemplo, a de Murguia escrita por Xosé Ramón Barreiro.
Bom, também é que gosto da personagem. Fui lendo no decurso do tempo alguns ensaios, correspondências e diferentes verbetes relativos a Russell em enciclopédias papel e na rede, em manuais, referências noutras obras e biografias. Diria que é uma presença e fotografia que me ronda e acompanha, instigando a curiosidade. Lembro-o aí já nos tempos dos livros de história e filosofia do Bacharelato. Figura pública de primeira ordem: ativo, nas lutas por uma lógica descrente, contra o idealismo ambiente, nas polémicas na imprensa, no pacifismo na Grande Guerra, no rotundo antifascismo, no ativismo antinuclear na Guerra Fria, nas anedotas da exuberante vitalidade e capacidade de trabalho.
Das suas achegas-experimentos pedagógicos temos conversado muito e com prazer o saudoso José Paz e mais eu. Acho que tenha também pela casa, algum ensaio em castelhano ou inglês; e entre os livros da minha mulher está a Logicomix: An epic search for truth, aquela banda desenhada, para mim modelo, (que depois bem serviu para entender e pensar aquela proposta sobre a de Carvalho Calero do Xico Paradelo), que conta em biografia a procura de Bertrand Russell pelos fundamentos da lógica e os princípios matemáticos.
Os fios que nos levam e trazem. É inquietante pensar que a excelente biografia de Wood, imediatamente consumida pelo público e celebrada pela crítica, é quase póstuma. No mesmo ano, o jornalista-filósofo tirou-se a vida. Provavelmente por causa de ter-se-lhe detetado uma enfermidade incurável. Nem três meses depois, a sua mulher também se suicidou.
Esta biografia de Russell ficou pois, infelizmente, incompleta, assim como fechado o caminho a trabalhos analíticos posteriores, revelando, porém, nela os muitos encontros e conversas do autor: a sua amizade.
No decurso dos trabalhos, Wood iniciara em paralelo às leituras e compilação da obra esparsa na imprensa, um estudo mais técnico do trabalho filosófico de Russell, vindo a tornar-se, com o seu conhecimento meticuloso e detalhista, uma presença fundamental, um jeito de notário da obra ou comprovante da memória.
Como o próprio Russell contará depois na sua Autobiografia e na correspondência editada, quando a obra estava tomando forma, passou a “gostar muito” do casal, a “depender do seu conhecimento de tudo a ver comigo” e “da sua compreensão solidária”. Os Wood desempenharam também algumas funções organizacionais e divulgativas inestimáveis para a redação e apresentação do Manifesto de Russell Einstein em julho de 1955.
O início do Manifesto, não me resisto a dizer que ainda cumpre ler hoje, tem o apelo sonoro como o da Declaração de independência dos Estados Unidos:
In the tragic situation which confronts humanity, we feel that scientists should assemble in conference to appraise the perils that have arisen as a result of the development of weapons of mass destruction, and to discuss a resolution in the spirit of the appended draft.
É curioso o pouco ou nada que tenho lido da obra de Bertrand Russell, de Wittegstein, ou Einstein, ou dos filósofos, matemáticos e físicos do período de justo antes, entre-guerra e após frio. Suponho que passaram de moda nos anos em que eu estudava a carreira. A filosofia, tal como a aprendi, não me atrai, por muito que me fascinem as biografias, os contextos históricos e os supostos do pensamento questionante que detonam.
Também é verdade que me impõe respeito a matemática, a lógica ou a física pura. Não me vejo, desculpem-me, pelo momento à altura de uma dessas leituras épicas na fonte original inglesa. Vejo-as barreiras medonhas.
Mas quem sabe o que ou de nada? Talvez, afinal, se também foi que errei tudo ou tanto do caminho andado e do discurso dos meus anos, era justo na filosofia, por onde deveria ter enveredado para continuar a escrever ou simplesmente a refletir. Que imos tendo uma idade e umas responsabilidades como indivíduos pensantes anómalos.
É recomendável o ceticismo apaixonado, num mundo a cada vez mais estandardizado e virado de volta cara uns idealismos nunca superados e com tendência a constantes de posicionamentos obrigados. Diretrizes e modelos rejeitáveis que se impõem e fazem corrente de opinião, mas que por mais que bombasticamente reverberados e likeizados, não passam de apriorismos de torcida, lugares-comuns à moda, boutades e trendings, isso sim, devidamente indexados para definir rankings de influência e índices de impacto.





