Ceticismo apaixonado

Vou lasquinhando aproveitáveis das espinhas e cachola da pescada, que venho de fazer sopa com verduras sobrantes, para aproveitar de salpicão. A máquina de lavar vai bulebulindo a sua mecânica cantiga. É tarde entrada e planifico o dia-a-dia a seguir. A cozinha precisava de mais uma limpeza, carambas. É o seu jeito de me evidenciar o desacougo. Contudo rio. Fica-me uma sensação boa, ainda viva, da leitura, na luz da tarde, no salão. Dou em pensar, em segundo plano, por sobre o doméstico iminente, que a biografia de Bertrand Russell, The Passionate sceptic, escrita por Alan Wood, devorada nuns poucos …

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De andar perdido

Sugo no mate. Vai meia vida. Imitando Naipaul, poderia dizer que dentro da casa o ar está quente e carregado. Já podia ir frio e a cidade estar envolta na brêtema. O facto é que no salão soam os compasses melancólicos das Chicharras de Catuxa Salom e eu termino de ler um volume de artigos de Úrsula K. Le Guin. As entrevistas e soltos desta senhora resultam-me profundamente simpáticos, elegantes, lúcidos e aliciantes. Vários dos seus romances e relatos estão entre os meus favoritos. Gosto, com os anos, a cada vez mais, como se Tolkien plagiasse Swift em solaina antiga …

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Adeus, caro Foz

Doeu ler na imprensa a morte do Foz. Avisada, pela saúde quebrada, há anos, mas súbita e no dia do seu 85 aniversário. Lembro o sorriso pícaro, o piscar dos seus olhos danados, os lentes tortos, a gargalhada pronta e recolhida, como também o pronto do génio – sempre a desculpar – que reagia ante o abuso e a injustiça, qualquer uma.Lembro a voz característica, a presença sólida, mas frágil, agachando a dor. A palavra repleta de erudição literária, os fundos da memória histórica do ativista. A França, a tradição republicana, os exílios, os velhos livros galegos que tanto amamos. …

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Entre o antigo Japão e os primatas

Muriel Barbery, por boca dessa agente encoberta da civilização que é a sua personagem Renné Michel, cita uma passagem dialogada dum filme de Yasujirō Ozu: (Pause) Dans l’ancien Japon, il y a de belles choses. (Pause) Sorvo no café. Que saudade. A beleza dos objetos de antes, feitos a mão, com cuidado, por bons artesãos. Os objetos, os textos, os desenhos, o trato, a alimentação, as interações e até as ideias, diria eu. A civilização enfim que estamos a perder, sugerida a exótico entre duas pausas (as pausas destas cenas são importantes como suspiros). Na trégua fresca das primeiras horas …

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