“Aquí hi ha una cosa molt arriscada en la nostra societat: les bones intencions no justifiquen mai una mentida. S’ha de mantenir una mica el rigor científic. I a més jo no sóc un polític. (…) Ben, els ecologistes són importants, perquè promouen la conscienciació, i tan sols en aquests casos m’hi trobe prop. Però no estic gaire d’acord en els mitjans que empren.” Ramon Margalef1
Entre as nossas lembranças de infância, está a dos caçadores a pedirem uma gratificação (económica ou em espécie) polas2 raposas e outras alimárias mortas que levavam de casa em casa na aldeia. Os caçadores sempre foram muito apreciados nas comunidades rurais. A figura do caçador contrapunha-se à dos ecologistas, que defendíamos lobos e outros bichos da pior espécie. Não é de estranhar. Ao longo da história, o ser humano tem estado em conflito permanente com os outros predadores que competiam com ele polos mesmos recursos alimentares.
Na nossa língua, uma mesma palavra, “ecologista”, tem duas acepções: a de cientista que estuda as interações entre os seres vivos e o ambiente e a de ativista ambiental. Felizmente, nos últimos anos, tem-se tendido a designar como ecólogo ao cientista e como ecologista ao ativista. A confusão provém do inglês, onde o termo “ecologist” tem de ser traduzido por ecólogo e não por ecologista.
A meados da década de oitenta do século passado, assistimos a uma palestra universitária do catedrático Ramon Margalef (1919–2004), o grande ecólogo catalão, um investigador com um prestígio internacional imenso, ainda que desconhecido polo público em geral. Margalef foi, por exemplo, pioneiro no sistemático estudo ecológico da costa galega. Na nossa inocência juvenil, ficámos chocados com as suas palavras. Por um lado, a sua opção polo não intervencionismo na conservação da natureza e, por outro, a sua insistência em se demarcar dos ecologistas.
No seu livro de divulgação “Ecología” insistia nesta última ideia, falando mesmo dos “populizadores tremendistas” que “ameaçam a humanidade com os mais graves castigos, faça ou não faça qualquer cousa”. Não lhe faltava razão. Frequentemente, o movimento ambientalista tem caído no catastrofismo e tem pecado por um “sentido de milícia”, guiado mais por um ativismo político do que por razões científicas, o que o próprio Margalef fundamentava nas raízes históricas do pensamento ecológico. Segundo a sua tese, “a natureza resulta demasiado complexa para ser descrita e explicada de forma racional, através da composição de mecanismos físicos elementares”, daí ter sido interpretada, desde os nossos antepassados mais remotos, mediante um conjunto de “tradições e crenças”, mais ou menos ligadas a um “código de caráter sagrado” e, portanto, “indiscutível”. Esta visão ainda influencia, em certa medida, o movimento ecologista. Movimento ao qual a nossa sociedade deve, fique claro, a sensibilização e a consciencialização para os graves problemas ambientais que poderiam comprometer a sobrevivência e o bem-estar das próximas gerações.
Outro termo que suscita equívocos generalizados é o de “naturalista”, confundido tantas vezes com “naturista”, ou seja, confundem-se os observadores e estudosos da flora, da fauna e dos ecossistemas, com os adeptos dum estilo de vida holístico que visa a harmonia com a natureza, o que abrange a prática do nudismo social e a vida ao ar livre, bem como hábitos de vida mais saudáveis e o recurso a terapias naturais.
Nos últimos meses, um reputado naturalista galego, Ricardo Hevia, um dos mais conceituados especialistas europeus em aves marinhas e pelágicas, tornou-se notícia ao ficar em quarentena a bordo do navio MV Hondius, devido a um surto de hantavírus. O naturalismo é um conceito ligado à chamada “ciência cidadã”. Na sua última entrevista publicada, o próprio Margalef expressou o seu orgulho em se considerar naturalista, antes de se definir como ecólogo: “A qualidade essencial do bom naturalista é ser um contemplador da natureza (…) A contemplação leva à admiração e ao conhecimento. O conhecimento gerado pola admiração é muito diferente do conhecimento gerado polas páginas dum livro”. Os naturalistas, como é lógico, são habitualmente conservacionistas, quer dizer, protetores da biodiversidade e dos recursos naturais, promovendo o seu uso sustentável.
Neste saco de gatos, nunca melhor dito, vamos agora abordar o animalismo, a defensa dos direitos e do bem-estar dos animais, ou seja, as pessoas que se dedicam a combater a exploração, o sofrimento e o abandono animal. Na sua versão mais radical, o animalismo é antiespecista, defendendo que a pertença a uma determinada espécie não é um critério justo para decidir como um ser vivo deve ser tratado. De acordo com esta perspetiva, os seres sencientes, aqueles dotados de capacidade de sentir dor, prazer e emoções, devem ser sempre respeitados. E aqui, os animalistas não estabelecem distinções entre espécies autóctones e alóctones, nem entre animais domésticos e selvagens. Criticam o facto de o Homo sapiens assumir uma superioridade moral sobre os outros seres vivos, fundamentada na sua racionalidade. Porém, o tipo de animalismo mais comum (e também o menos informado) é aquele que pratica um especismo seletivo, protegendo apenas certos animais, designadamente animais de estimação, como cães e gatos.
Embora os animalistas sejam muitas vezes associados ao ecologismo ou ao conservacionismo, nada poderia estar mais longe da realidade. Os animalistas têm causado sérios problemas ambientais. Basta lembrar as libertações massivas de visons-americanos (Mustela vison) no meio natural ou as colónias felinas espalhadas por todas as nossas cidades. A “disneyficação” da natureza, da qual o animalismo participa, ao atribuir moralidade e sentimentos humanos aos animais, gera romantização e esquece a dura realidade dos ecossistemas reais, como a predação e a cadeia alimentar. Segundo um estudo publicado em 2012 na revista Nature Communications, os gatos domésticos, em particular os gatos ferais, aqueles que vagueiam livremente, são provavelmente a principal causa individual de mortalidade antrópica para aves e outros vertebrados no mundo ocidental. De fato, contribuíram para múltiplas extinções de espécies selvagens em ilhas.
É uma obviedade que os animais irracionais não podem ter mais direitos do que aqueles que nós, seres humanos, lhes concedermos. Carecem de capacidade de raciocínio para se outorgarem direitos a si próprios. Concordamos assim com Kant ao afirmar que não poderemos ferir a humanidade de quem não é ser humano, polo que os outros animais nem sequer fazem parte do universo da moralidade. O que não justifica, de forma alguma, a crueldade gratuita para com outros seres vivos. Como dizia este mesmo filósofo alemão, “podemos julgar o coração duma pessoa pola forma como trata os animais”.
A sentimentalidade simplista que sustenta as formas mais extremas de animalismo esvazia a excepcionalidade da vida humana, depreciando a centralidade, dignidade e necessidades (alimentares ou de investigação científica, p. ex.) do Homo sapiens face aos demais seres vivos. É evidente que cada espécie deverá ser tratada em função da sua natureza e das suas especificidades. Assim, um chimpanzé não é equiparável a um mosquito. Ou como diz a sabedoria popular, “um homem é um homem e um gato é um bicho”.
- Há algo de muito arriscado na nossa sociedade: as boas intenções nunca justificam uma mentira. Temos de manter um certo rigor científico. E, além disso, não sou político. (…) Bem, os ambientalistas são importantes porque sensibilizam as pessoas, e é apenas nesses casos que concordo com eles. Mas não sou propriamente a favor dos meios que utilizam. ↩︎
- O autor escreve numa variedade de português que inclui particularidades galegas ↩︎





