Quatro deuses na mesma mesa

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“Não sou católico praticante.” Já ouviram isto. Já disseram isto. Talvez estejam a pensar isto agora. É a frase mais portuguesa que existe depois de “desenrasca-te.” E significa exactamente a mesma coisa: eu sei que as regras existem, mas só cumpro as que me convêm.

Não sou católico praticante é código. É a confissão mais honesta que a Igreja alguma vez produziu, e nem sequer acontece num confessionário. Acontece num jantar, num café, numa conversa casual. Significa: acredito num deus vago e confortável que não me chateia muito, que não me obriga a nada, que me deixa comer carne na sexta-feira santa e usar preservativo e divorciar-me e viver em pecado, mas que está lá para quando eu precisar dele. No funeral. No baptismo. No casamento. Nos três momentos em que Deus é convocado como figurante de uma cerimónia que já não é sobre ele.

É a religião à la carte. O buffet da fé. Entra-se, escolhe-se o que apetece, deixa-se o resto no tabuleiro, e sai-se com a consciência tranquila e o prato cheio. O problema é que ninguém chama a isto o que é: uma transição. O Cristianismo, em Portugal e no Ocidente, está em transição. Como um corpo que já não cabe na roupa que lhe deram.

Olhem para uma mesa de jantar em qualquer família portuguesa. A avó reza o terço todos os dias. Tem um altar no quarto com a Nossa Senhora de Fátima, uma vela que nunca se apaga e um ramo de oliveira benzido que substitui de dois em dois anos. Vai à missa ao domingo. Confessa-se na quinta-feira. E sabe de cor que santo protege contra dores de cabeça.

A mãe vai à missa no Natal e na Páscoa. Tem uma cruz na parede da entrada. Reza quando tem medo. Quando o avião abana. Quando o resultado dos exames demora. Quando o filho não atende o telefone à meia-noite. Não sabe em que santo acredita, mas acredita em alguma coisa. E esse alguma coisa basta-lhe.

A filha diz que é “espiritual mas não religiosa.” Tem um colar com um olho turco, um livro de Paulo Coelho na mesa de cabeceira, e uma aplicação de meditação que usa três vezes por ano. Fez yoga durante um mês. Acha que o universo conspira a favor de quem acredita. Não pisa uma igreja a não ser que tenha vitrais bonitos para fotografar.

A neta fez um altar com cristais, uma vela aromática da Zara, uma carta de tarot e uma imagem de Frida Kahlo. Não sabe quem é Santo António mas sabe o signo de toda a gente. Acredita em energia, em manifestação, em fases da lua. Nunca leu a Bíblia. Mas viu um TikTok sobre chakras e sentiu que fazia sentido.

Quatro gerações. Quatro versões de Deus. Na mesma mesa. No mesmo Natal. Com o mesmo bacalhau. E ninguém fala do assunto. Porque falar do assunto é admitir que alguma coisa mudou. E admitir que mudou é reconhecer que talvez não fosse tão sólido como diziam.

E a Igreja sabe.

Está a perder o público. O latim morreu. Os seminários estão vazios. As igrejas enchem no Natal e esvaziam em janeiro. A única fila constante é no funeral, porque a morte ainda assusta mais do que a incoerência.

Mas houve um tempo em que funcionava. E funcionava porque a Igreja percebeu uma coisa que o Instagram só reinventou: numa sociedade onde ninguém lia, onde não existia fotografia, nem vídeo, nem imprensa, quem controlava a imagem controlava a alma. A catedral era o reel. Os vitrais eram os stories. As esculturas eram os posts. A arquitectura, a pintura, a música, tudo foi desenhado para fazer o que o algoritmo faz hoje: captar a atenção e não a largar. Entravas numa catedral gótica com doze anos, analfabeto, descalço, e olhavas para cima. E o que vias era Deus. Não porque Deus estivesse lá. Porque alguém com muito dinheiro e muito poder tinha contratado os melhores artistas da Europa para te convencer de que sim.

E as vestes. As vestes do padre não são roupa. São cenário. O ouro, a púrpura, o vermelho, as cores do Império Romano recicladas para a liturgia. A mitra do bispo é a coroa do imperador com outro nome. A capa pluvial é o manto real cortado por outro alfaiate. O anel do cardeal é o sinete do rei com outra inscrição. A Igreja não imitou a monarquia. Vestiu-a. Herdou a linguagem visual do poder imperial e chamou-lhe sagrado.

Debaixo de tanta púrpura, com todo esse ouro nos ombros, o que sobra para os pobres? O Banco Alimentar. Recolhe comida. Massa, arroz, leite, latas. E a presidente explicou aos pobres que se não têm dinheiro para comer bifes todos os dias, não podem comer bifes todos os dias. A Marie Antoinette lusitana, como lhe chamou o AbrilAbril. Dar aos pobres, sim. Mas bife, não. Bife é para quem pode. A caridade católica alimenta. Mas não alimenta demais. Não vá o pobre esquecer-se de que é pobre.

Na Galiza dizem: “Eu non creo nas meigas, pero habelas, hainas.” Não acredito em bruxas, mas que as há, há. É a versão galega do não sou católico praticante. A mesma lógica. A mesma cobertura. O mesmo medo de fechar a porta ao que não se compreende. E as meigas, as curandeiras, as mulheres que curavam com ervas e liam o corpo como quem lê um mapa, são exactamente o que a Igreja não conseguiu matar. No Minho e na Galiza sobreviveram apesar da fogueira. E em 2026, a mesma avó que reza o terço à Nossa Senhora vai à curandeira quando a Nossa Senhora não resolve. O catolicismo sempre teve plano B. E o plano B é mais velho do que a Igreja.

E o baptismo? O baptismo tornou-se uma apólice de seguro. Baptizam os filhos “por via das dúvidas.” Não acreditam, mas também não querem arriscar. É o seguro contra incêndio mais antigo do mundo. E se não houver incêndio, pelo menos houve festa, houve fato de marinheiro, houve fotografias e houve folar.

Vamos ao casamento? Não o meu, credo, que lugar comum. O casamento católico é o último sacramento com bilheteira. Mas já não é religioso. É estético. As pessoas casam na Igreja pelo cenário, não pela fé. Pela porta de pedra. Pelo corredor longo. Pela luz que entra pelos vitrais e fica bem na fotografia. O padre é figurante. A noiva é realizadora. O fotógrafo é o verdadeiro celebrante. E o Instagram é o altar.

A batina já não seduz. O incenso não convence. E o sistema faz o que sempre fez: em vez de mudar o corpo, muda o disfarce.

E o disfarce mais recente não usa hábito. Usa fato e gravata. A igreja evangélica trocou a catedral pelo auditório, o vitral pelo projector, o coro pelo microfone de lapela. Mas sobre isso não me vou alongar. A minha outra metade, a Xeila de Graça, já tratou do assunto na revista Visão com o detalhe e o veneno que a ocasião merece. Só direi isto: quando uma igreja troca o CÉU pelo CEO e ninguém nota a diferença, a transição já não é espiritual. É empresarial, um trespasse vá.

Há qualquer coisa que sobrevive a tudo isto, a todos os artifícios. Uma coisa que não tem nome, que não tem dono, que não tem uniforme. Que aparece quando a mãe reza sozinha no quarto às três da manhã porque o filho está internado no hospital. Que aparece quando a neta acende a vela e fecha os olhos e, por um segundo, sente qualquer coisa que não sabe explicar. Que aparece num funeral, não por causa do padre, mas por causa do silêncio que se faz quando toda a gente olha para a mesma caixa e percebe que não há fato, nem batina, nem algoritmo que nos salve daquilo.

Isso não é religião. Isso é o que a religião tentou ser antes de se tornar uma multinacional.

Eu conheço essa coisa sem nome. Encontrei-a no sítio mais improvável: dentro de mim. Quando tirei a roupa que o sistema me deu à nascença e fiquei nua diante do espelho, sem disfarce, o que restou não era católico nem praticante. Era sagrado. Do tipo que não se ensina. Que não se vende. Que não se fiscaliza. Sente-se.

E tenho lugar de fala: sou trisneta de um padre. A Xeila, a minha outra metade, saiu mais à trisavó. Mas sobre o que ela era, fica para a próxima crónica.

A avó sabia o nome do santo. A neta sabe o nome do cristal. Nenhuma das duas sabe o nome do que realmente procura. Mas procuram. Todas procuram. E talvez a procura, mais teimosa do que qualquer fogueira, seja a única coisa sagrada que nos resta. Mais do que a resposta. O resto é roupa. E a roupa muda. Sempre mudou.

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