Primeiro Campo Comercial Petróleo do Brasil

A Dependência Energética no Espaço CPLP+ Entre os Fósseis e as Renováveis

O Mundo em Língua Portuguesa Opina, uma rúbrica mensal de Paulo Lamas O Dilema da Soberania Energética num contexto de crise no Estreito de Ormuz A questão do acesso, produção e segurança de abastecimento energético constitui um dos eixos mais críticos do debate geopolítico global contemporâneo. No centro desta discussão reside um dilema estrutural: deverão os Estados procurar a autossuficiência e a autonomia energética através de modelos diversificados ou continuar reféns das redes de interdependência e importação de recursos fósseis? Esta problematização ganha especial complexidade e premência no seio da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e do seu …

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O inferno somos nós.

Há uma frase que se repete todos os dias nas redes sociais: “As redes sociais estão cada vez piores.” Curiosamente, quase nunca é dita fora delas. É publicada no Facebook, no Instagram, no X ou no TikTok, acompanhada por uma fotografia, um vídeo ou um texto suficientemente apelativo para recolher umas dezenas, ou centenas, de gostos. Critica-se o algoritmo esperando, naturalmente, que o algoritmo tenha a gentileza de mostrar essa crítica ao maior número possível de pessoas. É um dos grandes paradoxos do nosso tempo. As redes sociais passaram a desempenhar o papel que antigamente cabia ao café da esquina: …

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De andar perdido

Sugo no mate. Vai meia vida. Imitando Naipaul, poderia dizer que dentro da casa o ar está quente e carregado. Já podia ir frio e a cidade estar envolta na brêtema. O facto é que no salão soam os compasses melancólicos das Chicharras de Catuxa Salom e eu termino de ler um volume de artigos de Úrsula K. Le Guin. As entrevistas e soltos desta senhora resultam-me profundamente simpáticos, elegantes, lúcidos e aliciantes. Vários dos seus romances e relatos estão entre os meus favoritos. Gosto, com os anos, a cada vez mais, como se Tolkien plagiasse Swift em solaina antiga …

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O esteiro do Minho, fronteira ou passagem?

Desde Camposancos até Caminha são apenas 4 quilómetros em linha reta através do rio Minho. Houve em tempos um Ferryboat que funcionava regularmente durante os meses de verão. Mas agora acabou. Existe o cais do lado galego, com uma cafetaria que acolhe, sobretudo, peregrinos que vão a caminho de Santiago. Também existe, em teoria, o Xacobeo Transfer Ferry & Taxi Boat, da Guarda (agência de excursões de barco). Eu comprei um bilhete de ida desde Camposancos a Caminha para o dia 26 de agosto, seguindo a página web que se indicava no Google. Foi-me confirmado o meu pagamento de 9 …

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Um presente

Quando queremos celebrar alguma coisa, é habitual darmo-nos presentes. Costumam ser objetos, livros, brincos, colares, roupa… Matéria que estará presente (lá está) quando já não sejamos companhia. Quando vamos de viagem também trazemos presentes. São figurinhas, ímanes, postais, t-shirts… coisas para as pessoas que não nos acompanham, mas de quem nos lembramos naquela circunstância. E também compramos, ou simplesmente guardamos, coisas para nós, para conservarmos um pouco da viagem que fizemos. E a tudo isso chamamos, não por acaso, recordações. A mente é volátil e errática, mas a matéria permanece. Por isso ligamos a memória às coisas, às vezes mesmo …

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Histórias sem ninguém para as contar

Encontrei-a numa feira de velharias. Suja, maltratada, com o cabelo desfeito e aquele ar triste que algumas bonecas parecem adquirir quando deixam de pertencer a alguém. Fotografei-a. Não sei porquê aquela e não outra coisa qualquer entre as centenas de objectos espalhados pelas bancas. Talvez porque, ao contrário de um prato, de um candeeiro ou de uma velha máquina de café, uma boneca tem qualquer coisa de humano. Sobretudo quando está assim, abandonada. Parece estar à espera de alguém que já não vem. Fiquei a pensar a quem teria pertencido. Quem a terá recebido? Em que aniversário, em que Natal? …

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A crise entre pensar e criar

Há dias em que tudo parece estar no lugar. O computador está ligado, o documento aberto, o cursor pisca à espera de uma frase. Sentamo-nos diante da tela convencidos de que vamos produzir alguma coisa. Talvez um artigo, um poema, uma história, uma ideia. Mas os minutos passam e nada acontece. Pensamos, apagamos, reescrevemos e voltamos a apagar. Existe algo dentro de nós que queremos dizer, mas não conseguimos encontrar as palavras para dizê-lo. É nesse espaço entre aquilo que pensamos e aquilo que conseguimos produzir que nasce uma das experiências mais frustrantes de quem escreve e cria: a crise …

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Passar à terceira pessoa

Decidi tratar-te por tu. Talvez só amigos e família estejam a ler isto, mas se não couberes nessas categorias, então desculpa a confiança. Gosto de ver na pessoa a que me dirijo exatamente a pessoa a que me dirijo. Não aquilo que me disseram dela, nem aquilo que eu tenha imaginado. Afinal, mesmo que não te conheça, serás um ser humano, em toda a sua completude. Eu quero imaginar-te como ser complexo, e só consigo fazê-lo se te imaginar mais perto. Gosto bastante de pensar na natureza da linguagem. Se estivesse a dizer isto de qualquer outra pessoa, poderia estar …

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Da esperança da poesia (ou a quinta carta)

Conheci o poeta Reginald Dwayne Betts aos poucos, como se houvesse ali um conceito demasiado revolucionário a precisar de ser recebido em doses devagarinhas. Certa vez criminoso, depois recluso, agora advogado de formação, mas também ativista e sobretudo poeta, constrói a sua poesia em torno da experiência da vida. A sua experiência, antes de qualquer outra, mas também a da condição humana no sentido mais amplo, abraçando o erro, a identidade, o questionamento, a memória, a sobrevivência, a redenção. Mas escrever poemas não é o único caminho por onde Dwayne Betts vive a poesia: ele também é bibliotecário. O meu …

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Adeus, caro Foz

Doeu ler na imprensa a morte do Foz. Avisada, pela saúde quebrada, há anos, mas súbita e no dia do seu 85 aniversário. Lembro o sorriso pícaro, o piscar dos seus olhos danados, os lentes tortos, a gargalhada pronta e recolhida, como também o pronto do génio – sempre a desculpar – que reagia ante o abuso e a injustiça, qualquer uma.Lembro a voz característica, a presença sólida, mas frágil, agachando a dor. A palavra repleta de erudição literária, os fundos da memória histórica do ativista. A França, a tradição republicana, os exílios, os velhos livros galegos que tanto amamos. …

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A máquina de costura

Quando a trouxeram para casa, vinha embrulhada num cobertor velho e acompanhada por um silêncio respeitoso, como se entrasse alguém importante. A Maria da Luz tinha vinte e poucos anos, dois filhos pequenos e um marido emigrado em França. A máquina Singer foi comprada em prestações, pagas devagar, com dinheiro contado e ovos vendidos às escondidas na feira de Montalegre. Na aldeia comentou-se. “Houve lá quem comprasse uma máquina de costura.” Naquele tempo, aquilo não era capricho. Era quase uma decisão estratégica de sobrevivência. A Singer ficou encostada à janela da cozinha. De dia apanhava a luz fria da montanha. …

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Nem a natureza os quer. Imagina nós.

A elite adora a natureza. Não para a proteger. Para se comparar a ela. É uma tradição antiga e muito conveniente: o forte devora o fraco, é a lei da selva, o capitalismo é apenas a versão civilizada do mesmo princípio eterno. Os grandes predadores no topo, os pequenos herbívoros em baixo, e assim foi, é, e sempre será. Amén. Há só um problema com esta narrativa: é mentira biológica. Não apenas política. Comecemos pelo mais famoso habitante desta fantasia: o leão. O suposto rei da selva, símbolo de poder, de domínio, de hierarquia natural. O animal que qualquer CEO …

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O mundo precisa de mais febras

A palavra comunidade vem de longe. Do latim communitas, derivado de communis: aquilo que é comum, aquilo que é partilhado. Na raiz anda também o munus. Uma palavra curiosa, porque pode significar dever, encargo, serviço, mas também dádiva. Aquilo que cada um oferece aos outros. Gosto desta ideia. Uma comunidade não é apenas um conjunto de pessoas que têm alguma coisa em comum. É um conjunto de pessoas que dão alguma coisa umas às outras. Talvez seja por isso que me tenho lembrado tanto desta palavra desde o Rock no Rio Febras. Sim, o Rock no Rio Febras. Um festival onde passaram este ano, segundo as …

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As Bandeiras de Cisternino

Não há vilarejo da Puglia que não tenha a memória da guerra gravada em pedra. Profundamente gravada em pedra. O sangue derramado nas grandes guerras do século XX incrustou-se para sempre, na Itália setentrional, em monumentos aos “caduti”, em praças maiores ou largos mais singelos, para que jamais se esqueçam as vidas perdidas, tantas vezes, a defender uma causa que, à excepção dos cerca de 50 mil guerrilheiros mortos a combater o fascismo de Mussolini, talvez nem fosse a causa de cada um dos mais de um milhão de jovens italianos caídos no campo de batalha entre 1914 e 1918, …

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Crónica de uma ovelha sem vaidade 

Chamam-me Minerva. Sou uma Churra do Minho. Vim à Semana do Barrosão para representar a minha raça. Achei que ia encontrar animais de trabalho. Encontrei candidatos a influenciadores rurais. O primeiro foi o porco. Anda tão cheio de si que suspeito que já não grunhe. Faz discursos. Tem um ar de quem acredita sinceramente que, se existisse um Ministério da Vaidade Animal, era nomeado sem concurso. Passa o dia a esticar o focinho para as fotografias. Olha para mim e diz: “Repara na minha constituição.” Eu reparo. Constituição tem. Modéstia é que nunca chegou à exploração. Depois apareceu o galo. …

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O voo e a vontade

Em latim, ego volo (de volere, eu quero) e ego volo (de volare, eu voo) eram curiosamente homónimos. Nada tinham a ver em significado e origem, mas acabaram por coincidir. Coisas da vida. Façamos, no entanto, como se tivessem algo a ver, um pouco por volere e um pouco por volare. O espanhol é uma língua que na Galiza conhecemos demasiado bem, e por isso os usos lusófonos nos podem chocar às vezes. Nessa língua, voluntad tem um significado quase idêntico à nossa vontade, mas usos que o fazem diferenciar-se bastante, mais ligados ao conceito de força de vontade. Não …

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A Conversão ao Zeitgeist: Agostinho de Hipona e a Geopolítica do Cristianismo Imperial

Em 313 d.C., os imperadores romanos do Ocidente, Constantino, e do Oriente, Licínio, promulgaram o Édito de Milão, que instituiu o fim da perseguição ao cristianismo e concedeu liberdade de culto e neutralidade religiosa ao Império. Anos mais tarde, em 380 d.C., o Imperador Teodósio I tornou o cristianismo — e, em particular, o credo cristão saído do Concílio de Niceia («Jesus Cristo é consubstancial ao Pai, Homoousios») — a religião exclusiva e oficial do Estado Romano, proibindo quaisquer outras práticas através do Édito de Tessalónica.Recorrendo ao conceito alemão de Zeitgeist — ou «espírito da época», na tradução possível —, …

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Entre o antigo Japão e os primatas

Muriel Barbery, por boca dessa agente encoberta da civilização que é a sua personagem Renné Michel, cita uma passagem dialogada dum filme de Yasujirō Ozu: (Pause) Dans l’ancien Japon, il y a de belles choses. (Pause) Sorvo no café. Que saudade. A beleza dos objetos de antes, feitos a mão, com cuidado, por bons artesãos. Os objetos, os textos, os desenhos, o trato, a alimentação, as interações e até as ideias, diria eu. A civilização enfim que estamos a perder, sugerida a exótico entre duas pausas (as pausas destas cenas são importantes como suspiros). Na trégua fresca das primeiras horas …

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O Fardo do Carrasco: A Liturgia da Culpa Ocidental

Um homem com a farda do exército dos Estados Unidos da América aproxima-se do balcão do restaurante de comida rápida numa vila americana qualquer, uma manhã qualquer, e faz o seu pedido. A funcionária aponta a encomenda, recebe o dinheiro e diz ao soldado: “Obrigado pelo seu serviço!” (Thank you for your service!). Esta cena não é apenas uma fórmula conversacional. É o mais parecido com o ritual eclesiástico da Eucaristia que poderemos encontrar na América Protestante — onde as missas são espectáculos mediáticos e catárquicos desprovidos dos Mistérios que ainda são o acto principal da missa católica, a que …

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A nobre linhagem de Leopoldino

Chamam-me Leopoldino. Sou descendente de uma família antiga. Gente de respeito. Dizem que um trisavô meu cantava em Tourém antes do sol aparecer por trás da serra. Outro fazia rondas em Pitões das Júnias. Um tio-avô viveu em Covelães. E ainda hoje há quem jure que um primo distante governou durante anos um quintal inteiro em Solveira apenas com um olhar atravessado. Nós, os galos, nunca precisámos de cargos. Bastava-nos uma capoeira. Quando soube que vinha para a Semana do Barrosão, endireitei logo a crista. Afinal, era regressar às origens. O sangue puxava-me para estas terras. Foi então que um …

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