Há um país que continua a levantar-se antes do sol

Hoje perguntei ao Fernando Leite, de Fafe, a que horas começara o dia. Respondeu que às três da manhã, porque os animais não esperam pelo nascer do sol nem pelas comodidades de quem vive longe da terra. Depois perguntei-lhe se vinha à procura de taças. Disse apenas, “vamos lá ver”, como quem sabe que o trabalho nunca dá direito a certezas, apenas à consciência de ter feito o que devia. Falámos da raça barrosã. Quis saber porque permanecia fiel a ela quando tantas outras prometem mais rendimento. Olhou para mim com alguma estranheza, como se a pergunta trouxesse já a …

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Venham de lá as bandeirinhas , que o resto já se foi!

Comecemos pelo geral: um país cheio de potencial, detentor da maior área exclusiva marítima da União Europeia, senhor de uma história antiga, rica e inigualável, para mais se considerada a sua reduzida dimensão, é mesmo assim incapaz de gerar as políticas, económicas e sociais, que o catapultem para um lugar honroso na EU. Dos salários à habitação, da saúde à educação, não são apenas os níveis medíocres obtidos em muitas das áreas que dizem respeito ao indivíduo comum, ao português. É, apesar de tudo, a degradação dos patamares eventualmente atingidos e que, malogradamente, mesmo assim, representaram enormes avanços nos últimos …

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O papamóvel.

Tenho uma pequena televisão na cozinha, que utilizo principalmente para acompanhar os noticiários durante as refeições. Custou-me encontrar uma do tamanho adequado que coubesse numa prateleira. Os enormes ecrãs que se vendem hoje em dia parecem mais apropriados para serem pendurados num saloon do Oeste do que na sala de estar de um apartamento típico — quanto mais na cozinha. Ainda me lembro de quando os telemóveis começaram a encolher, para depois medrarem outra vez até alcançarem as dimensões atuais. Nem sempre se trata de uma questão prática: qualquer coisa pode tornar-se moda, mesmo contra todas as expectativas. Logo que …

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Cultivar o olhar crítico na infância / Educar para pensar

No contexto do debate posterior à apresentação de vários trabalhos de fim de licenciatura dos alunos de Educação Infantil e Educação Primária, um colega sustentava que a prioridade nas primeiras etapas educativas devia consistir em transmitir os conhecimentos básicos — língua, matemática, ciências naturais ou ciências sociais — antes de dedicar tempo a competências que considerava secundárias, como o pensamento crítico. A sua reflexão levanta uma questão relevante: faz sentido trabalhar o pensamento crítico com crianças tão pequenas? A meu ver, a resposta é claramente afirmativa. De facto, a pergunta parte do pressuposto discutível de que aprender conteúdos e aprender …

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A Ficção que te paga o salário II

Parte II Na semana passada escrevi que o capital é uma ficção, o mérito é uma ficção, e o segundo capítulo é sempre mais confortável do que o primeiro. Se leste e concordaste, bem-vindo. Se leste e discordaste, melhor ainda. Se não leste, volta atrás. Isto é uma série e não tem resumo no início. Antes de continuar, uma pausa para a ficção que neste momento distrai o planeta inteiro: o futebol. Estamos em pleno Mundial. Nos Estados Unidos. Um país que chama ao futebol “soccer” e que não o vê. Pensa nisto: a nação mais poderosa do mundo está …

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A democracia começa em cada cidadão

Há quem pense que a democracia se resume ao direito de votar. É um erro confortável. Votar é apenas o primeiro minuto da democracia. Tudo o resto acontece depois. A eleição de Ramalho Eanes, a 27 de junho de 1976, não foi importante porque um homem chegou a Belém. Foi importante porque o poder começou finalmente a perceber que deixara de ser dono do país. Essa é a diferença entre um regime e um Estado de direito. Num, o poder exige obediência. No outro, o poder deve obediência à lei. Foi isso que começou a consolidar-se naquele momento. Não a …

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Maputo: há muito lixo na cidade

Há algo que me incomoda profundamente sempre que caminho pelas ruas da cidade de Maputo: o lixo. Está por toda a parte. Não é preciso entrar nos bairros mais afastados para encontrar montes de resíduos. Basta circular pelas principais vias da cidade para deparar-se com lixo acumulado em diferentes pontos, muitas vezes junto a zonas residenciais, onde famílias são obrigadas a conviver diariamente com o mau cheiro e com um ambiente que está longe de ser digno. É triste ver a capital do país apresentar uma imagem tão descuidada. Maputo deveria ser uma cidade limpa, organizada e convidativa, tanto para …

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De literatura e casas de banho

Em tempos remotos, antes dos telemóveis, as pessoas sentavam-se na sanita e pegavam na garrafa de gel para ler a etiqueta. Se tivessem estado numa situação diferente, por exemplo na cimeira de uma montanha, talvez a sua atenção estivesse no vento sobre o rosto, no cheiro de vegetação, num horizonte largo. Mas na casa de banho, as circunstâncias não convidavam precisamente ao desfrute dos sentidos, e daí a garrafa para entreter-se.  Havia — sempre houve —  pessoas mais avançadas, cultas e cuidadosas. Essas tinham revistas e mesmo livros na casita. Estavam, normalmente, no bidé, um artefacto que já tinha perdido …

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Da oficina de escrita na montanha (ou a terceira carta)

Faz poucos dias que regressei a casa, vinda de uma pequena viagem e de uma enorme residência em tempo e lugar entregues ao ofício da escrita. Regressei de uma experiência que, sei agora, não é possível reproduzir em qualquer outro lugar. Sei disso e, ainda assim, os dedos empurram-se nas teclas no balouçar da memória, atirados à crónica dos meus catorze dias de hospedagem artística na Casa Para Sempre – Vergílio Ferreira, na aldeia de Melo, na Serra da Estrela. A respiração própria que nasce no embalo da aventura fez-se sentir, como sempre acontece, antes da aventura propriamente dita. Começa …

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O Ano Zero

Em qualquer percurso humano há datas especiais que marcam mudanças de paradigma e nos enviam a lugares que, apesar de porventura imaginados, nunca teríamos sonhado vivenciar fisicamente nem como é que seria habitá-los.  Pode ser a morte do pai, ou o nascimento do primeiro filho, o dia em que quebramos uma perna e esta deve ser operada…. há momentos que transcendem o raciocínio e nos enviam para lugares em que o chão se abre por baixo dos nossos pés ou o sol brilha entre nuvens de trovoada no céu.  São os tais espaços onde tudo de repente passa a ser …

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A ficção que te paga o salário

Parte I Há uma ficção tão bem contada que ninguém a questiona. Não é a Bíblia. Não é o Senhor dos Anéis. Não é o último romance que te venderam como a voz de uma geração. É o capital. O dinheiro. A ideia de que um pedaço de papel ou um número num ecrã vale alguma coisa. Vale porque concordamos que vale. No dia em que deixarmos de concordar, é papel. E o ecrã apaga-se. Tudo o que sustenta a tua vida assenta numa ficção colectiva. O banco onde guardas o dinheiro não o tem. Emprestou-o. A nota que tens …

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Burela vibrou por Cabo Verde

Uma crónica de Atrás de resultados e golos, o Campeonato do Mundo costuma oferecer histórias extraordinárias que revelam a face mais humana de um desporto tornado paixão planetária. Além das inúmeras críticas ao Mundial que possivelmente menos representa os adeptos, encontramos pequenas epopeias, protagonistas inesperados e comunidades migrantes que encontram no futebol o elo que as faz orgulhar e reivindicar as suas origens enquanto povo. O que relaciona Burela, na Marinha galega, Chaves e Cabo Verde? Fomos à procura da resposta. O 15 de junho Espanha e Cabo Verde enfrentavam-se em Atlanta. Era o primeiro jogo do Mundial de 2026 …

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Napoleão

Há aldeias onde um galo ainda consegue mandar mais no trânsito do que muita rotunda moderna. Aquele saía todos os dias do quintal da Ti Maria da Assunção com um ar tão importante que parecia presidente da junta em dia de festa. Caminhava devagar, peito levantado, sem nunca olhar para os lados. Quem viesse de carro que travasse. E travavam. Porque no fundo ninguém quer ficar conhecido como “o homem que matou o galo da Assunção”. Há alcunhas que duram mais do que o casamento. “Não me toques que me desafinas.” A frase saiu um dia da boca do senhor …

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Inteligência Artificial para Totós: Como matar a Arte em 15 segundos

Pedi ao Chat GPT para me fazer uma letra para um fado tradicional português que falasse sobre “perder a alma pela pressa da vida, pela artificialidade das máquinas e o sucumbir ao destino da tecnologia”.E, passado nem 15 segundos, eis que nasceu um poema artificial: Perdi a Alma às Máquinas (Fado) (1.ª estrofe) Nas ruas corre o relógio,Sem parar nem descansar,Toda a gente vai com pressa,Sem tempo para olhar.As máquinas dão as horas,Mandam no meu coração,E eu vou atrás dos ponteiros,Sem escutar a canção. ~~Refrão~~Ai, quem me roubou a alma?Quem ma levou sem eu ver?Foi a vida apressada,Foi o medo …

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O Brasil endividado aposta no celular

Durante décadas, o jogo esteve associado à loteria federal oficial e modalidades ilegais, como o jogo do bicho, cassinos e caça-níqueis clandestinos, bingos fechados pela polícia ou às apostas realizadas em corridas de cavalos. Hoje, tudo isso e muito mais, quando se trata de jogos de azar, cabe em um celular e está ao alcance de usuários de todas as idades. Bastam alguns toques na tela para apostar no resultado de um jogo de futebol, no número de cartões amarelos de uma partida ou no próximo escanteio, no vencedor da Fórmula 1 e até em se o Neymar vai ou …

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A Traição de uma história de liberdade

Não se pode dissociar o que está a suceder em Portugal com os serviços públicos, a segurança social ou o pacote laboral das conhecidas pretensões da direita portuguesa, relativamente à Constituição da República Portuguesa, aprovada em 2 de Abril de 1976. A CRP, na versão de 1976, foi o resultado de uma relação de forças estabelecida com o 25 de Abril de 1974 e que encontrou respaldo na letra da lei fundamental. Com todas as tropelias já sucedidas na data da aprovação do texto constitucional, entre elas o 25 de Novembro e o fim do PREC, a Constituição da República …

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O Pulso | José Ramos-Horta

O Pulso é uma rúbrica de Paulo Lamas O “O Mundo em Língua Portuguesa Opina” evolui. A partir de hoje, inauguramos um novo formato de análise: O Pulso. O objetivo é simples, mas ambicioso: selecionar entrevistas, debates e artigos de figuras proeminentes da CPLP+, sintetizando as suas ideias-força e opiniões mais relevantes. Estreia-se hoje este formato com uma análise à recente e incisiva entrevista de José Ramos-Horta, Presidente de Timor-Leste e Nobel da Paz, ao canal Neutrality Studies. A PERSONAGEM José Manuel Ramos-Horta (Díli, 1949) é um político e jurista timorense e atual presidente do país. Inicialmente fora o porta-voz …

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A Taça do mundo é nossa… e não vossa

Cantavam no país da Canarinha, os pentacampeões brasileiros: A Copa do Mundo é nossa… e com o Brasil não há quem possa… Não se enganem. Num mundo cheio de injustiças e contradições, o Mundial é da FIFA, perfeita aliada de uns Estados Unidos “trumpizados” até níveis inacreditáveis. Quando a bola começar a rolar neste mês de junho de 2026, a FIFA apresentará ao mundo o maior torneio de futebol da história. Pela primeira vez haverá 48 seleções, 104 jogos distribuídos por Estados Unidos, Canadá e México (que também contam e organizam, mas não fazem barulho), numa competição que durará mais …

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O país dentro da aldeia

“Todo o mundo é composto de mudança.” Camões podia estar a falar de um império. Eu penso numa aldeia. Porque uma aldeia contém o mundo inteiro. Nela encontramos a infância e a velhice. A chegada e a partida. O nascimento e a despedida. A esperança e a perda.Tudo o que acontece aos povos acontece primeiro às pessoas. Por isso, quando uma aldeia resiste, não está apenas a preservar casas ou caminhos.Está a preservar uma maneira de compreender a vida. O Barroso nunca foi apenas um território.É uma ideia de comunidade.Uma convicção silenciosa de que a vida humana ganha sentido quando …

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A Xenofobia na África do Sul: mais um teste à eficácia da União Africana

A actual onda de xenofobia na África do Sul não é um fenómeno novo. Trata-se do recrudescimento de um problema recorrente que voltou a ganhar força a partir de abril de 2026, quando novos ataques contra migrantes africanos foram registados em várias localidades daquele país. Esta onda de ataques expõe, mais uma vez, uma das maiores contradições do continente africano: os líderes discursam sobre integração e unidade, enquanto milhares de africanos continuam a ser perseguidos por outros africanos. Tais acontecimentos demonstram que o ideal de unidade africana permanece distante da realidade vivida por muitos migrantes. Segundo informações divulgadas pela DW …

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