Depois da xenofobia, o desafio da integração

Sempre que a xenofobia volta a fazer vítimas na África do Sul, o debate concentra-se, quase sempre, nas imagens de violência, nas perdas materiais e na necessidade de proteger os imigrantes. É um debate importante, mas incompleto. Há um outro lado que merece atenção: o que acontece quando os moçambicanos regressam ao país? Nos últimos dias, as redes sociais têm sido palco de mensagens que apelam à população, sobretudo às mulheres, para redobrar os cuidados porque, alegadamente, os moçambicanos que regressam poderão recorrer a roubos e outros crimes. Este tipo de discurso é preocupante. Além de não existir qualquer fundamento …

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A primeira feminista foi expulsa do paraíso?

Há uma pergunta que eu ouço cada vez mais. Não dita em voz alta. Sentida. Aparece no meio de um jantar bom, no silêncio depois de uma reunião de trabalho, nas três da manhã quando o sono não vem e o telemóvel não ajuda. O que é que andamos aqui a fazer? Não é desespero. É lucidez. É o corpo a perceber, antes da cabeça lhe dar licença, que há qualquer coisa profundamente torta nisto tudo. E que temos andado tão ocupados a sobreviver que não tivemos tempo de perguntar a quem é que sobrevivemos. Calma. Antes de ficarem sérios, …

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liberdadeS

Ditas assim, devagar, como quem passa a mão por uma parede antiga à procura de uma porta escondida.Porque talvez não exista uma só. Talvez a liberdade, no singular, seja apenas uma palavra demasiado limpa para aquilo que somos. Há antes liberdades. Pequenas. Quase secretas.A liberdade de respirar fundo numa manhã fria.A liberdade de olhar alguém nos olhos sem baixar a cabeça.A liberdade de dar um passo fora do lugar onde nos disseram para ficar. E depois há outras. Mais pesadas. Mais antigas. Liberdades que não pertencem a ninguém em particular, que atravessam gerações como um rumor persistente. Liberdades conquistadas devagar, …

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Lavadeira

Eu sou neta da Francisca, a Xica. Luandense, filha de uma mulher pescadora, Axiluanda, e de um homem do garimpo, Malangino, que fizeram a vida no musseque do Cazenga, em Luanda. Aos 15 anos, a Xica foi casada ao João, um Ribatejano já dos seus 29 anos, que trabalhava numa obra perto daquele musseque e um dia pediu a sua mão aos seus pais. O João havia chegado àquela terra, antes reinada por Nzinga Mbandi mas que seguia há alguns séculos invadida por povos do mar distante de Portugal. Chamavam-na de província ultramarina de Angola. Dizia eu que o João …

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O Cristiano Ronaldo do Barroso não jogava futebol

Todas as terras esperam, em silêncio, que um dia alguém as torne maiores do que o mapa onde cabem. É um fenómeno raro. Não depende da geografia, nem da riqueza, nem sequer da sorte. Depende de aparecer alguém que carregue um lugar às costas sem nunca o transformar num fardo. Há quem o faça correndo. Há quem o faça caminhando. Uns atravessam fronteiras com o corpo. Outros atravessam o tempo. Durante décadas, o padre Fontes fez uma pergunta que parecia simples, mas continha uma inquietação maior: o que acontece a um povo quando deixa de reconhecer a sua própria voz? …

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Da privatização selvagem à privatização rebelde

Deve estar para breve a descoberta de um novo negócio infalível: um ambientador para o espaço público ou, enquanto a invenção não chega, uma máscara perfumada para todos usarmos no nariz. Nem percebo porque é que não corro já a registar-lhe a patente. O “empreendedorismo” neoliberal nunca nos falhou: o problema que o capitalismo cria é o problema que o capitalismo resolve. A diferença é que, entretanto, o que não era preciso pagar, porque era de todos, foi transformado num negócio no qual “ninguém havia pensado até agora”. A novilíngua neoliberal em que os média de massas caem que nem …

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A loucura de rejeitar o paraíso ou a retirada dos invasores?

As direitas têm partilhado e usado a cartilha, segundo a qual o ímpeto migratório ocorrido em Portugal e na União Europeia faz parte de uma qualquer “invasão”, maquinada para destruir os valores europeus, ocidentais e cristãos. O conto de crianças é simples: vivíamos todos em paz, num paraíso à beira-mar plantado, habitação barata, serviços públicos de topo e salários invejáveis. Até que chegaram os invasores! Como explicar então, à luz desta narrativa, que o clube exclusivo e o jardim dos prazeres, de repente, se vejam confrontados com uma realidade em que os brasileiros desaparecem da lista de inscritos na Segurança …

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O e-Estraviz: 151.700 palavras da Galiza para o mundo

O título deste artigo, que faz referência às entradas do dicionário eletrónico e-Estraviz, eram as contas certas a em junho. Hoje a cifra é porventura já maior. E esse repositório continua a atualizar-se e a ser acrescentado. Isto deve-se ao assombroso trabalho de Isaac Alonso Estraviz (Vila Seca-Ourense, 26 de janeiro de 1935), um filólogo que está na casa dos 91 anos. Doutor em Filologia pela Universidade de Santiago de Compostela, professor reformado da Universidade de Vigo, esteve entre as pessoas fundadoras da Academia Galega da Língua Portuguesa e é membro correspondente da Academia das Ciências de Lisboa. Isaac Estraviz …

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Alexei Bueno, leitor da língua portuguesa

A morte de Alexei Bueno, no Rio de Janeiro, na madrugada de 27 de junho, aos 63 anos, interrompe uma das trajetórias mais consistentes da literatura brasileira recente. Poeta, crítico, ensaísta, tradutor e editor, ele vinha tratando um câncer e deixa uma obra construída em mais de quatro décadas de trabalho com a palavra escrita. Alexei nasceu no Rio, em 1963, e publicou seu primeiro livro, As escadas da torre, em 1984. Tinha pouco mais de vinte anos. Desde então, manteve uma relação exigente com a poesia. O primor no uso da Língua Portuguesa marcou livros como Lucernário, A via …

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O Ovo e a Galinha (de Ouro) do Futebol

Como a lógica implacável do marketing digital e dos patrocinadores transformou as convocatórias do Mundial 2026 num mero exercício de contabilidade financeira. Rio de Janeiro, 18 de maio de 2026. No imponente cenário do Museu do Amanhã, o treinador italiano Carlo Ancelotti sobe ao palco perante uma plateia elétrica de jornalistas nacionais e estrangeiros. O ambiente está carregado de um suspense cinematográfico. A grande incógnita que paralisa o país não se prende com a tática ou com a coesão da comitiva, mas sim com um único nome: Neymar Júnior. Estaria o astro na lista definitiva, mesmo após ter falhado os …

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Há um país que continua a levantar-se antes do sol

Hoje perguntei ao Fernando Leite, de Fafe, a que horas começara o dia. Respondeu que às três da manhã, porque os animais não esperam pelo nascer do sol nem pelas comodidades de quem vive longe da terra. Depois perguntei-lhe se vinha à procura de taças. Disse apenas, “vamos lá ver”, como quem sabe que o trabalho nunca dá direito a certezas, apenas à consciência de ter feito o que devia. Falámos da raça barrosã. Quis saber porque permanecia fiel a ela quando tantas outras prometem mais rendimento. Olhou para mim com alguma estranheza, como se a pergunta trouxesse já a …

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Venham de lá as bandeirinhas , que o resto já se foi!

Comecemos pelo geral: um país cheio de potencial, detentor da maior área exclusiva marítima da União Europeia, senhor de uma história antiga, rica e inigualável, para mais se considerada a sua reduzida dimensão, é mesmo assim incapaz de gerar as políticas, económicas e sociais, que o catapultem para um lugar honroso na EU. Dos salários à habitação, da saúde à educação, não são apenas os níveis medíocres obtidos em muitas das áreas que dizem respeito ao indivíduo comum, ao português. É, apesar de tudo, a degradação dos patamares eventualmente atingidos e que, malogradamente, mesmo assim, representaram enormes avanços nos últimos …

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O papamóvel.

Tenho uma pequena televisão na cozinha, que utilizo principalmente para acompanhar os noticiários durante as refeições. Custou-me encontrar uma do tamanho adequado que coubesse numa prateleira. Os enormes ecrãs que se vendem hoje em dia parecem mais apropriados para serem pendurados num saloon do Oeste do que na sala de estar de um apartamento típico — quanto mais na cozinha. Ainda me lembro de quando os telemóveis começaram a encolher, para depois medrarem outra vez até alcançarem as dimensões atuais. Nem sempre se trata de uma questão prática: qualquer coisa pode tornar-se moda, mesmo contra todas as expectativas. Logo que …

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Cultivar o olhar crítico na infância / Educar para pensar

No contexto do debate posterior à apresentação de vários trabalhos de fim de licenciatura dos alunos de Educação Infantil e Educação Primária, um colega sustentava que a prioridade nas primeiras etapas educativas devia consistir em transmitir os conhecimentos básicos — língua, matemática, ciências naturais ou ciências sociais — antes de dedicar tempo a competências que considerava secundárias, como o pensamento crítico. A sua reflexão levanta uma questão relevante: faz sentido trabalhar o pensamento crítico com crianças tão pequenas? A meu ver, a resposta é claramente afirmativa. De facto, a pergunta parte do pressuposto discutível de que aprender conteúdos e aprender …

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A Ficção que te paga o salário II

Parte II Na semana passada escrevi que o capital é uma ficção, o mérito é uma ficção, e o segundo capítulo é sempre mais confortável do que o primeiro. Se leste e concordaste, bem-vindo. Se leste e discordaste, melhor ainda. Se não leste, volta atrás. Isto é uma série e não tem resumo no início. Antes de continuar, uma pausa para a ficção que neste momento distrai o planeta inteiro: o futebol. Estamos em pleno Mundial. Nos Estados Unidos. Um país que chama ao futebol “soccer” e que não o vê. Pensa nisto: a nação mais poderosa do mundo está …

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A democracia começa em cada cidadão

Há quem pense que a democracia se resume ao direito de votar. É um erro confortável. Votar é apenas o primeiro minuto da democracia. Tudo o resto acontece depois. A eleição de Ramalho Eanes, a 27 de junho de 1976, não foi importante porque um homem chegou a Belém. Foi importante porque o poder começou finalmente a perceber que deixara de ser dono do país. Essa é a diferença entre um regime e um Estado de direito. Num, o poder exige obediência. No outro, o poder deve obediência à lei. Foi isso que começou a consolidar-se naquele momento. Não a …

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Maputo: há muito lixo na cidade

Há algo que me incomoda profundamente sempre que caminho pelas ruas da cidade de Maputo: o lixo. Está por toda a parte. Não é preciso entrar nos bairros mais afastados para encontrar montes de resíduos. Basta circular pelas principais vias da cidade para deparar-se com lixo acumulado em diferentes pontos, muitas vezes junto a zonas residenciais, onde famílias são obrigadas a conviver diariamente com o mau cheiro e com um ambiente que está longe de ser digno. É triste ver a capital do país apresentar uma imagem tão descuidada. Maputo deveria ser uma cidade limpa, organizada e convidativa, tanto para …

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De literatura e casas de banho

Em tempos remotos, antes dos telemóveis, as pessoas sentavam-se na sanita e pegavam na garrafa de gel para ler a etiqueta. Se tivessem estado numa situação diferente, por exemplo na cimeira de uma montanha, talvez a sua atenção estivesse no vento sobre o rosto, no cheiro de vegetação, num horizonte largo. Mas na casa de banho, as circunstâncias não convidavam precisamente ao desfrute dos sentidos, e daí a garrafa para entreter-se.  Havia — sempre houve —  pessoas mais avançadas, cultas e cuidadosas. Essas tinham revistas e mesmo livros na casita. Estavam, normalmente, no bidé, um artefacto que já tinha perdido …

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Da oficina de escrita na montanha (ou a terceira carta)

Faz poucos dias que regressei a casa, vinda de uma pequena viagem e de uma enorme residência em tempo e lugar entregues ao ofício da escrita. Regressei de uma experiência que, sei agora, não é possível reproduzir em qualquer outro lugar. Sei disso e, ainda assim, os dedos empurram-se nas teclas no balouçar da memória, atirados à crónica dos meus catorze dias de hospedagem artística na Casa Para Sempre – Vergílio Ferreira, na aldeia de Melo, na Serra da Estrela. A respiração própria que nasce no embalo da aventura fez-se sentir, como sempre acontece, antes da aventura propriamente dita. Começa …

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O Ano Zero

Em qualquer percurso humano há datas especiais que marcam mudanças de paradigma e nos enviam a lugares que, apesar de porventura imaginados, nunca teríamos sonhado vivenciar fisicamente nem como é que seria habitá-los.  Pode ser a morte do pai, ou o nascimento do primeiro filho, o dia em que quebramos uma perna e esta deve ser operada…. há momentos que transcendem o raciocínio e nos enviam para lugares em que o chão se abre por baixo dos nossos pés ou o sol brilha entre nuvens de trovoada no céu.  São os tais espaços onde tudo de repente passa a ser …

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