A máquina de costura

Quando a trouxeram para casa, vinha embrulhada num cobertor velho e acompanhada por um silêncio respeitoso, como se entrasse alguém importante. A Maria da Luz tinha vinte e poucos anos, dois filhos pequenos e um marido emigrado em França. A máquina Singer foi comprada em prestações, pagas devagar, com dinheiro contado e ovos vendidos às escondidas na feira de Montalegre. Na aldeia comentou-se. “Houve lá quem comprasse uma máquina de costura.” Naquele tempo, aquilo não era capricho. Era quase uma decisão estratégica de sobrevivência. A Singer ficou encostada à janela da cozinha. De dia apanhava a luz fria da montanha. …

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Crónica de uma ovelha sem vaidade 

Chamam-me Minerva. Sou uma Churra do Minho. Vim à Semana do Barrosão para representar a minha raça. Achei que ia encontrar animais de trabalho. Encontrei candidatos a influenciadores rurais. O primeiro foi o porco. Anda tão cheio de si que suspeito que já não grunhe. Faz discursos. Tem um ar de quem acredita sinceramente que, se existisse um Ministério da Vaidade Animal, era nomeado sem concurso. Passa o dia a esticar o focinho para as fotografias. Olha para mim e diz: “Repara na minha constituição.” Eu reparo. Constituição tem. Modéstia é que nunca chegou à exploração. Depois apareceu o galo. …

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A nobre linhagem de Leopoldino

Chamam-me Leopoldino. Sou descendente de uma família antiga. Gente de respeito. Dizem que um trisavô meu cantava em Tourém antes do sol aparecer por trás da serra. Outro fazia rondas em Pitões das Júnias. Um tio-avô viveu em Covelães. E ainda hoje há quem jure que um primo distante governou durante anos um quintal inteiro em Solveira apenas com um olhar atravessado. Nós, os galos, nunca precisámos de cargos. Bastava-nos uma capoeira. Quando soube que vinha para a Semana do Barrosão, endireitei logo a crista. Afinal, era regressar às origens. O sangue puxava-me para estas terras. Foi então que um …

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As únicas influenciadoras que vivem só de erva 

“Ó Maria, olha para aquele senhor… já nos tirou mais fotografias do que à mulher.” “Deixa-o. Em casa diz que veio ver tratores.” “E veio.” “Veio, veio… mas a galeria do telemóvel vai cheia de cabras.” “Sabes o que eu acho?” “Diz.” “Há quem venha para a feira ver máquinas de centenas de cavalos…” “…e acabe parado em frente a duas cabras.” “É a prova de que o bom gosto ainda não morreu.” “Ou então é porque somos as únicas aqui que não pedimos financiamento.” “Nem Wi-Fi.” “Nem café.” “Só erva. E mesmo assim somos das mais requisitadas da exposição.” …

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O Cristiano Ronaldo do Barroso não jogava futebol

Todas as terras esperam, em silêncio, que um dia alguém as torne maiores do que o mapa onde cabem. É um fenómeno raro. Não depende da geografia, nem da riqueza, nem sequer da sorte. Depende de aparecer alguém que carregue um lugar às costas sem nunca o transformar num fardo. Há quem o faça correndo. Há quem o faça caminhando. Uns atravessam fronteiras com o corpo. Outros atravessam o tempo. Durante décadas, o padre Fontes fez uma pergunta que parecia simples, mas continha uma inquietação maior: o que acontece a um povo quando deixa de reconhecer a sua própria voz? …

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Há um país que continua a levantar-se antes do sol

Hoje perguntei ao Fernando Leite, de Fafe, a que horas começara o dia. Respondeu que às três da manhã, porque os animais não esperam pelo nascer do sol nem pelas comodidades de quem vive longe da terra. Depois perguntei-lhe se vinha à procura de taças. Disse apenas, “vamos lá ver”, como quem sabe que o trabalho nunca dá direito a certezas, apenas à consciência de ter feito o que devia. Falámos da raça barrosã. Quis saber porque permanecia fiel a ela quando tantas outras prometem mais rendimento. Olhou para mim com alguma estranheza, como se a pergunta trouxesse já a …

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A democracia começa em cada cidadão

Há quem pense que a democracia se resume ao direito de votar. É um erro confortável. Votar é apenas o primeiro minuto da democracia. Tudo o resto acontece depois. A eleição de Ramalho Eanes, a 27 de junho de 1976, não foi importante porque um homem chegou a Belém. Foi importante porque o poder começou finalmente a perceber que deixara de ser dono do país. Essa é a diferença entre um regime e um Estado de direito. Num, o poder exige obediência. No outro, o poder deve obediência à lei. Foi isso que começou a consolidar-se naquele momento. Não a …

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Napoleão

Há aldeias onde um galo ainda consegue mandar mais no trânsito do que muita rotunda moderna. Aquele saía todos os dias do quintal da Ti Maria da Assunção com um ar tão importante que parecia presidente da junta em dia de festa. Caminhava devagar, peito levantado, sem nunca olhar para os lados. Quem viesse de carro que travasse. E travavam. Porque no fundo ninguém quer ficar conhecido como “o homem que matou o galo da Assunção”. Há alcunhas que duram mais do que o casamento. “Não me toques que me desafinas.” A frase saiu um dia da boca do senhor …

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O país dentro da aldeia

“Todo o mundo é composto de mudança.” Camões podia estar a falar de um império. Eu penso numa aldeia. Porque uma aldeia contém o mundo inteiro. Nela encontramos a infância e a velhice. A chegada e a partida. O nascimento e a despedida. A esperança e a perda.Tudo o que acontece aos povos acontece primeiro às pessoas. Por isso, quando uma aldeia resiste, não está apenas a preservar casas ou caminhos.Está a preservar uma maneira de compreender a vida. O Barroso nunca foi apenas um território.É uma ideia de comunidade.Uma convicção silenciosa de que a vida humana ganha sentido quando …

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José Pereira: a memória de uma injustiça portuguesa

Há vidas que começam por parecer pequenas porque nasceram numa aldeia pequena. Depois, quando se escutam bem, percebemos que trazem dentro um país inteiro. José Pereira, avô de Rui Barroso Gonçalves, nasceu em Lamachã, a 7 de janeiro de 1914. Cresceu entre irmãos, trabalho, fome e necessidade. Ficou órfão de pai cedo, como Rui recorda, e foi a mãe que segurou a casa e aquela vida toda, num tempo em que as famílias numerosas conheciam a dureza pelo nome próprio. Ainda novo, José Pereira começou a trabalhar na Mina,no baldio que separava Criande, Negrões e Lamachã. Ganhava ali o pão. …

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A cozinha na Casa do Barrosão

Na Casa do Barrosão, a cozinha não é divisão da casa. É território. Os presuntos pendurados nas traves não são decoração rústica para fotografia bonita. São a prova material de uma vida inteira ligada à terra. Cada peça ali suspensa tem atrás madrugadas frias, erva carregada ao ombro, animais tratados todos os dias do ano, sem domingos nem feriados. E depois há a fotografia na parede. O trator cheio de fardos ocupa o lugar de honra porque, naquela casa, a fartura conquista-se. Não aparece. Não vem pronta. Faz-se. Há um orgulho muito próprio no mundo rural: o de olhar para …

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