Hoje perguntei ao Fernando Leite, de Fafe, a que horas começara o dia. Respondeu que às três da manhã, porque os animais não esperam pelo nascer do sol nem pelas comodidades de quem vive longe da terra. Depois perguntei-lhe se vinha à procura de taças. Disse apenas, “vamos lá ver”, como quem sabe que o trabalho nunca dá direito a certezas, apenas à consciência de ter feito o que devia.
Falámos da raça barrosã. Quis saber porque permanecia fiel a ela quando tantas outras prometem mais rendimento. Olhou para mim com alguma estranheza, como se a pergunta trouxesse já a resposta errada, e disse, “nós temos a ver com esta raça, não queremos outra”. Há frases que não precisam de ser desenvolvidas, porque dentro delas vive uma maneira inteira de habitar o mundo, essa fidelidade que não cabe nas contas da rentabilidade e que explica porque ainda existem homens capazes de permanecer onde tantos desistiram.
Antes de terminar, perguntei-lhe se as vacas eram difíceis.
Sorriu.
“É como o povo. Têm horas de tudo. Bem-dispostas e mal-dispostas.”
Passamos a vida convencidos de que somos diferentes dos outros seres vivos e, afinal, acabamos todos por depender da mesma medida invisível, a paciência. Com ela constrói-se uma casa, cria-se um filho, trata-se um animal e guarda-se uma raça. Sem ela, nem as pessoas nem as vacas encontram caminho.


