O Ovo e a Galinha (de Ouro) do Futebol

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Como a lógica implacável do marketing digital e dos patrocinadores transformou as convocatórias do Mundial 2026 num mero exercício de contabilidade financeira.

Rio de Janeiro, 18 de maio de 2026. No imponente cenário do Museu do Amanhã, o treinador italiano Carlo Ancelotti sobe ao palco perante uma plateia elétrica de jornalistas nacionais e estrangeiros. O ambiente está carregado de um suspense cinematográfico. A grande incógnita que paralisa o país não se prende com a tática ou com a coesão da comitiva, mas sim com um único nome: Neymar Júnior. Estaria o astro na lista definitiva, mesmo após ter falhado os particulares preparatórios? Estaria clinicamente apto para a exigência brutal de um Campeonato do Mundo?

Quando Ancelotti pronuncia o nome de Neymar, a sala irrompe em aplausos, gritos e cânticos. O espetáculo mediático cumpre o seu primeiro grande objetivo. Contudo, o choque com a realidade desportiva estava agendado para o dia 5 de julho. Na segunda parte de um tenso nulo frente à Noruega, Neymar pisa o relvado. O resultado é imediato, mas catastrófico: a sua gritante falta de ritmo quebra o equilíbrio tático do Brasil. A Noruega aproveita, fatura por duas vezes e vence por 2-1. O Brasil cai redondo nos oitavos-de-final.

Apenas vinte e quatro horas depois, a 6 de julho de 2026, o drama repete-se em Dallas. Portugal e Espanha medem forças num dos duelos mais aguardados dos oitavos-de-final. Trata-se de um embate de alta voltagem, com os corações de dois países sintonizados na mesma frequência. Cristiano Ronaldo, aos 41 anos, surge no onze inicial. Mais do que isso: joga os 90 minutos regulamentares e o tempo de compensação.

Aos 41 anos, a biologia não perdoa. Ronaldo já não possui a frescura nem a capacidade atlética para aguentar a exigência máxima de um torneio desta envergadura. A sua permanência intocável em campo sobrecarrega o resto da equipa, obrigada a compensar a extrema passividade do capitão na frente de ataque. Nos instantes finais, a Espanha explora impiedosamente o desgaste físico português e sela a vitória. Portugal — e Ronaldo — regressam a casa mais cedo.

No plano estritamente desportivo, a frustração dos adeptos é mútua e legítima. Discutem-se as substituições que tardaram, a ausência de coragem para sentar Ronaldo no banco ou o erro crasso de lançar um Neymar sem ritmo. No entanto, analisar estas escolhas sob o prisma do futebol jogado é um erro de diagnóstico. As decisões cruciais já não respondem à lógica das quatro linhas.

Enquanto as seleções eram eliminadas, o contador de capitais digitais não parava de subir. Cristiano Ronaldo entrou no torneio com 665 milhões de seguidores no Instagram e saiu com 671 milhões. Neymar saltou dos 223 milhões para os 238 milhões. No futebol moderno, estes números valem muito mais do que golos.

“Portugal perde mais visibilidade para os patrocinadores se deixar de ter Cristiano Ronaldo em campo do que se for eliminado de uma prova.” ANALISTAS DA CONSULTORA “YOUR BRAND VALUE SPORTS”

671 Milhões – Seguidores de Cristiano Ronaldo no Instagram após a eliminação (+6M durante a prova)

238 Milhões – Seguidores de Neymar Júnior no Instagram após a eliminação (+15M durante a prova)

Traduzindo a frieza do mercado: para as marcas globais e para a própria FIFA, é financeiramente mais vantajoso ter um Cristiano Ronaldo em campo a ser eliminado precocemente do que ter um Portugal campeão do mundo sem o seu ícone no relvado. Roberto Martínez, selecionador nacional até ao dia da derrota, conhecia perfeitamente as regras deste jogo de bastidores. Sabe que o seu perfil pacato e consensual garante que os interesses corporativos da Federação e dos patrocinadores nunca serão beliscados por decisões desportivas ousadas.

Do mesmo modo, Carlo Ancelotti — cujo percurso em Madrid lhe conferiu um autêntico doutoramento em marketing desportivo — compreendeu a inevitabilidade económica de convocar Neymar. Prescindir do camisola 10 significaria desligar a tomada que alimenta os patrocinadores milionários que procuram capitalizar a atenção de centenas de milhões de adeptos espalhados pelo globo.

Ironicamente, o adepto comum, os clubes e a imprensa especializada continuam a ser deixados no seu papel tradicional: debater o jogo “desportivamente”. Gastam-se rios de tinta e horas de emissão a discutir se Ronaldo ainda é melhor que Messi, ou se a genialidade de Neymar pode resolver um jogo num lance isolado. Toda esta discussão não passa de uma cortina de fumo.

A verdade, embora incómoda, é cristalina. As convocatórias e as titularidades de Ronaldo e de Neymar não foram decididas nos relvados de treino, mas sim nos gabinetes das multinacionais e nas salas de reunião da FIFA, no dia em que os gestores de carreira de ambos apresentaram os relatórios de impacto das suas redes sociais. Discutir a tática de Ancelotti ou de Martínez tornou-se, por isso, um exercício inútil. No futebol moderno, a galinha de ouro dos patrocinadores dita sempre as regras, e o desporto passou a ser apenas o pretexto para o espetáculo.

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