A Ficção que te paga o salário II

   Tempo de leitura: 7 minutos

Parte II

Na semana passada escrevi que o capital é uma ficção, o mérito é uma ficção, e o segundo capítulo é sempre mais confortável do que o primeiro. Se leste e concordaste, bem-vindo. Se leste e discordaste, melhor ainda. Se não leste, volta atrás. Isto é uma série e não tem resumo no início.

Antes de continuar, uma pausa para a ficção que neste momento distrai o planeta inteiro: o futebol.

Estamos em pleno Mundial. Nos Estados Unidos. Um país que chama ao futebol “soccer” e que não o vê. Pensa nisto: a nação mais poderosa do mundo está a organizar o maior torneio do desporto mais popular do mundo, um desporto que não faz parte da sua cultura. Porquê? Porque o Mundial não é desporto. É geopolítica com camisolas bonitas. É soft power. É a capacidade de um império dizer ao mundo: venham cá jogar ao nosso campo, com as nossas regras, nos nossos estádios, e agradeçam o convite.

E a sequência de anfitriões diz tudo: Rússia 2018, Qatar 2022, Estados Unidos 2026, Arábia Saudita 2034. Putin, Al-Thani, Trump, bin Salman. E pelo meio, em 2030, Espanha, Portugal e Marrocos. Um modelo mais sofisticado: em vez de anfitrião único autoritário, mistura-se com duas democracias para diluir a crítica. Marrocos, que ocupa ilegalmente o Sahara Ocidental, é legitimado ao sentar-se à mesa com Espanha e Portugal. Quatro lavagens e uma camuflagem. O desporto como detergente diplomático.

E nós vemos. E gritamos golo. E partilhamos memes. E durante cinco semanas esquecemos que o país onde jogamos tem 750 bases militares espalhadas por 80 países. O economista Jeffrey Sachs diz-o com uma clareza que devia ser proibida: se o teu país tem uma base militar americana, não tens um aliado. Tens um dono. Portugal tem a Base das Lajes, nos Açores. Somos aliados. Ou somos vendidos com cerimónia.

O Mundial é a ficção mais sofisticada do mundo. Noventa minutos em que o campo é plano, as equipas começam iguais e o mérito decide. Exactamente o que o capitalismo promete e nunca cumpre. O futebol é o ensaio geral da meritocracia: onze contra onze, que vença o melhor. E nós acreditamos. Porque no campo, ao contrário da vida, as regras são iguais. E essa ilusão de igualdade é suficiente para nos fazer esquecer que, fora do campo, as regras nunca foram iguais.

Mas esta crónica não é sobre futebol. É sobre o que o futebol esconde.

Sei o que estás a pensar: se nada é escolha, então nada importa. É o contrário. Se nada é escolha, tudo importa. Importa o que te aconteceu. Importa o que aconteceu a quem te criou. Importa o bairro e a escola. Se havia livros em casa ou gritos. Se alguém te disse “podes ser o que quiseres” ou se o silêncio te disse que não eras nada. Tudo o que veio antes de ti, porque tudo o que veio antes de ti és tu.

Um neurocientista de Stanford chamado Robert Sapolsky passou a vida a estudar o cérebro e chegou a uma conclusão que devia ser ensinada nas escolas: o livre arbítrio não existe. Não da forma como nos vendem. Cada decisão que tomas é o resultado de tudo o que te aconteceu antes. Os teus genes. O sítio onde nasceste. Os pais que tiveste. A escola onde não andaste ou onde andaste sem querer. O que comeste ao pequeno-almoço, que mudou as tuas hormonas, que mudaram o teu humor, que mudou a forma como respondeste àquele email às três da tarde. Nada disto é livre. Tudo disto é acumulação. E nenhuma acumulação se escolhe.

E eu pergunto: como é que pode ser uma escolha, se não tiveste escolha na realidade que alimentou o teu cérebro?

No Cloud Atlas, alguém diz que por cada crime e cada bondade, damos à luz o nosso futuro. Se não há livre arbítrio, há consequência. E a consequência não é individual. É geracional. O que fizeram aos nossos avós está inscrito nos nossos corpos. O que fizermos às crianças de hoje estará inscrito no mundo de amanhã. Não por escolha. Por acumulação. A mesma acumulação que Sapolsky descreve nos neurónios, o Cloud Atlas descreve nas vidas. As ondas não escolhem a margem. Mas chegam sempre.

E por isso, quando olhamos para uma criança num bairro sem psicólogo e dizemos “depende dela“, estamos a mentir. Não depende dela. Depende de nós. Cada escola que fecha, cada hospital que encerra, cada serviço público que desaparece é uma decisão sobre o futuro de alguém. E quem faz essas decisões chama-lhes orçamento. Mas orçamento é só outra palavra para prioridade. E a prioridade diz-te tudo sobre quem manda e o que lhes importa.

A nossa inteligência é arrogante. Achamos que controlamos. Que decidimos. Que o pensamento é livre. Mas o pensamento é o produto de tudo o que nos aconteceu. É o rio onde caíram todas as chuvas da nossa vida. E o rio não escolhe o caminho. O caminho foi feito pelo terreno. Nós somos o rio. O terreno é tudo o que veio antes.

Mas há momentos em que o rio transborda. Não por livre arbítrio. Por inevitabilidade. A vida dá uma volta de um momento para o outro. É um salto. Mesmo que demore uma vida inteira a acontecer.

Eu sei. Aconteceu-me.

Durante décadas, fui uma pessoa que o sistema reconhecia. Tinha o nome certo, o corpo certo, a voz certa. E um dia, sem aviso e com todo o aviso, tudo mudou. Não porque escolhi. Porque tudo o que me tinha acontecido convergiu num ponto em que já não era possível continuar a ser o que não era. O salto demorou uma vida inteira. E demorou um segundo. As duas coisas ao mesmo tempo. Como um parto. Nove meses para um instante.

E o que nasci não foi uma escolha. Foi uma verdade que já lá estava e que o sistema tentou calar. Como cala tantas outras. O bairro, o sotaque, a cor da pele, a pobreza, a diferença. O sistema cala tudo o que não lhe é útil. E quando não consegue calar, pune. E quando não consegue punir, ignora. E quando não consegue ignorar, liga a televisão e mete o Mundial.

Mas a maior ficção não somos nós. É o capital. É o mérito. É a mão invisível. É o campo plano que nunca existiu. É a ideia de que isto é normal e que sempre foi assim. Não foi sempre assim. E não tem de continuar a ser.

Alguém me disse uma vez que mudar o mundo é impossível. Eu respondi que mudar o mundo é a única coisa que já aconteceu. Sempre. Desde sempre. O mundo muda-se. A questão é quem o muda e para quem. E até agora, mudou-o quem tinha dinheiro para comprar o guião. Mas os guiões são ficções. E as ficções podem ser reescritas.

Esta é a minha parte da reescrita. Qual é a tua?

Share