O papamóvel.

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Tenho uma pequena televisão na cozinha, que utilizo principalmente para acompanhar os noticiários durante as refeições. Custou-me encontrar uma do tamanho adequado que coubesse numa prateleira. Os enormes ecrãs que se vendem hoje em dia parecem mais apropriados para serem pendurados num saloon do Oeste do que na sala de estar de um apartamento típico — quanto mais na cozinha.

Ainda me lembro de quando os telemóveis começaram a encolher, para depois medrarem outra vez até alcançarem as dimensões atuais. Nem sempre se trata de uma questão prática: qualquer coisa pode tornar-se moda, mesmo contra todas as expectativas. Logo que a opinião dominante decide que algo é «fixe», as restantes opções ficam muito limitadas.

Na minha procura do eletrodoméstico, cada vez que o empregado de uma loja me dizia que tinham deixado de fabricar os televisores mais pequenos, porque as pessoas já não os compravam, vinha-me à mente a imagem de um cardume de sardinhas a virar em simultâneo, como um único organismo vivo. No documentário em que vi esse espetáculo pela primeira vez, disseram que as sardinhas fazem isso para se defenderem dos predadores. Talvez seja uma estratégia eficaz contra um tubarão, mas a probabilidade de um peixe acabar nas redes aumenta drasticamente se fizer parte de um grupo que nada perto delas.

Para além das televisões e dos telemóveis, há outros objetos que costumam transcender a sua utilidade inicial e chegam a tornar-se peças de culto, como, por exemplo, a roupa, os relógios ou os carros. No que diz respeito a estes últimos, os meios de transporte possuem um evidente valor simbólico, que ajuda a que sejam associados aos seus proprietários. Ao falar em Alexandre, o Grande, muitos conseguem mencionar o nome do seu cavalo, Bucéfalo (embora este não seja propriamente uma “coisa”), da mesma forma que Cristóvão Colombo aparece sempre ligado à Santa Maria, o Air Force One ao presidente dos Estados Unidos ou o Papa ao papamóvel.

No outro dia, enquanto tomava o pequeno-almoço, a TVE retransmitia a visita oficial de Leão XIV a Espanha, com uma grande mobilização de meios. Surpreendeu-me a enorme repercussão do evento, não tanto entre os fiéis católicos, mas sobretudo junto das autoridades e da televisão pública. Porém, assim que vi como os políticos de um e de outro lado procuravam apropriar-se de determinadas partes do discurso do Papa — quer dizer, puxar a brasa à sua sardinha (já voltamos às sardinhas) —, percebi tudo.

A religião continua a despertar paixões, já que se trata de uma realidade intrinsecamente ligada à condição humana desde tempos imemoriais.

Há quem considere o cristianismo uma espécie de programa político que deve ser levado à letra, em clara contradição com a doutrina do próprio Jesus Cristo, que insistia em que o seu reino não era deste mundo e que, confrontado com a questão, defendeu dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.

No extremo oposto, alguns ateus militantes olham para os crentes com uma alegada superioridade intelectual, esquecendo que muitas das mentes mais brilhantes da civilização ocidental se declararam, nalgum momento, cristãs. Uma delas, o escritor inglês Chesterton, resumiu este paradoxo numa única frase:

Desde que os homens deixaram de crer em Deus, não é que não acreditem em nada; é que acreditam em qualquer coisa.

Contudo, o mais habitual não é qualquer tipo de fanatismo, mas uma visão quase infantil que mistura ignorância, leviandade e superstição. Assisti a um episódio esclarecedor desta natureza no minúsculo ecrã da minha televisão, num momento da emissão em que o foco das câmaras se desviou para o papamóvel, estacionado por razões logísticas no parque dos estúdios de televisão. Fiquei atónito com a atitude dos jornalistas, eufóricos perante a inédita presença da icónica viatura. Enquanto o Papa norte-americano participava num ato qualquer, visivelmente avassalado pelo entusiasmo da multidão, a sua montada merecia todas as atenções mediáticas.

Foi tal o espetáculo que comecei a ver naquela máquina um ícone pagão, um totem, o bezerro de ouro… Só faltou que os jornalistas se pusessem a andar de cócoras à sua volta e lançassem os microfones para o céu, reproduzindo uma cena do filme 2001: Odisseia no Espaço.

Na verdade, não sei o que opinar sobre o Papa atual, embora hoje em dia seja quase obrigatório posicionar-se publicamente a respeito de qualquer tema. Depois de ter sido testemunha de algumas das reações que a sua visita provocou, gostaria de lhe perguntar o que pensa do facto de as pessoas encararem tudo como algo pessoal, confundirem, distorcerem e mesmo manipularem até o mais sagrado.

Talvez respondesse aquilo que um sacerdote disse uma vez ao prémio Nobel da Literatura Imre Kertész: que, ainda que Deus exista, a religião é obra dos seres humanos — como o papamóvel, acrescento eu —; Deus não tem religião.

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