No contexto do debate posterior à apresentação de vários trabalhos de fim de licenciatura dos alunos de Educação Infantil e Educação Primária, um colega sustentava que a prioridade nas primeiras etapas educativas devia consistir em transmitir os conhecimentos básicos — língua, matemática, ciências naturais ou ciências sociais — antes de dedicar tempo a competências que considerava secundárias, como o pensamento crítico. A sua reflexão levanta uma questão relevante: faz sentido trabalhar o pensamento crítico com crianças tão pequenas? A meu ver, a resposta é claramente afirmativa. De facto, a pergunta parte do pressuposto discutível de que aprender conteúdos e aprender a pensar corretamente são tarefas distintas e até contrapostas. No entanto, acontece precisamente o contrário. Os conhecimentos são imprescindíveis, mas também o é a capacidade para os compreender, relacionar, questionar e aplicar de forma fundamentada. Sem isto último, a educação corre o risco de se reduzir a uma mera acumulação de informação sem sentido.
A necessidade é ainda mais evidente num contexto como o atual. Vivemos rodeados de informação, mas também de desinformação. As redes sociais, os algoritmos e determinados discursos públicos facilitam a difusão de notícias falsas, simplificações interesseiras e preconceitos que apelam mais às emoções do que à reflexão. Educar para o pensamento crítico significa oferecer ferramentas para distinguir factos de opiniões, pedir razões que legitimem o que é afirmado, identificar estereótipos e reconhecer quando um argumento é frágil ou manipulador. Em síntese, supõe formar pessoas menos vulneráveis perante os discursos enganosos e a polarização.
Ora, importa esclarecer o que se entende por pensamento crítico, já que não significa ensinar às crianças complexas teorias filosóficas nem fomentar nelas uma atitude de oposição permanente. Pensar criticamente é, simplesmente, aprender a fazer perguntas, justificar o que se diz, ouvir as razões dos outros, aceitar que nos podemos equivocar e estar dispostos a rever as nossas próprias ideias quando encontramos melhores argumentos. Ao contrário do que se costuma crer, muitas destas capacidades surgem de forma espontânea desde idades muito precoces. As crianças perguntam constantemente o porquê de as coisas acontecerem, questionam normas que consideram injustas, detetam contradições e propõem alternativas. O problema, então, não é que sejam incapazes de pensar criticamente, mas sim que, com demasiada frequência, a escola e o mundo adulto acabam por substituir essas perguntas por respostas fechadas e por premiar mais a repetição de tarefas do que a reflexão.
Por isso se torna valiosa a Filosofia para Crianças, desenvolvida por Matthew Lipman e Ann Margaret Sharp, uma proposta pedagógica centrada em transformar a sala de aula numa comunidade de diálogo onde os alunos aprendem a pensar em conjunto a partir de contos, situações quotidianas ou conflitos surgidos na própria convivência, com o objetivo de aprender a argumentar, ouvir e deliberar de forma respeitosa. Mas esta metodologia exige também uma adequada formação do corpo docente, pelo que se torna necessário preparar os futuros professores nestas competências durante a sua formação universitária, capacitando-os para formular boas perguntas, facilitar o diálogo e aceitar que educar não consiste unicamente em transmitir respostas, mas também em acompanhar a sua procura partilhada.
Nesse sentido, talvez a finalidade mais profunda da educação não seja tanto preparar as futuras gerações para responder corretamente a um exame, mas sim capacitá-las para compreender o mundo em que vivem e nele participar de forma responsável. E essa tarefa começa, precisamente, quando uma criança pergunta “porquê?” e encontra um adulto disposto a pensar com ela.


