De literatura e casas de banho

   Tempo de leitura: 3 minutos

Em tempos remotos, antes dos telemóveis, as pessoas sentavam-se na sanita e pegavam na garrafa de gel para ler a etiqueta. Se tivessem estado numa situação diferente, por exemplo na cimeira de uma montanha, talvez a sua atenção estivesse no vento sobre o rosto, no cheiro de vegetação, num horizonte largo. Mas na casa de banho, as circunstâncias não convidavam precisamente ao desfrute dos sentidos, e daí a garrafa para entreter-se. 

Havia — sempre houve —  pessoas mais avançadas, cultas e cuidadosas. Essas tinham revistas e mesmo livros na casita. Estavam, normalmente, no bidé, um artefacto que já tinha perdido a sua função original. O banho diário e o papel higiénico tinham-no tornado dispensável, e servia de estante improvisada. Se calhar tínhamos perdido em higiene, mas estávamos a ganhar um poucochinho em cultura. 

Hoje em dia há quem diga que não se lê tanto como dantes. Em geral, vivemos numa sociedade áudio-visual. Também há quem, pelo contrário, considere que nunca se leu tanto como agora. É um facto que existem muitas mais pessoas alfabetizadas, e que as novas tecnologias as familiarizam com a palavra escrita. Por isso, eu próprio considero que se lê muito, e talvez mais do que nunca. E no entanto.

No ser humano, a linguagem não existe separada do resto das suas capacidades cognitivas. As palavras dão forma aos conceitos, e os conceitos (e as histórias) dão forma à realidade vivida. Antigamente lia-se menos palavras escritas com letras, mas sempre lemos, antes e agora, palavras inscritas na experiência e na memória. A palavra escrita tem uma especificidade, é verdade, e abre possibilidades importantes. Mas talvez o simples facto de juntar as letras tenha sido sobrevalorizado. Talvez o que antigamente se entendia como “ler” estivesse a falar doutra coisa.  

Dantes, mesmo antes da alfabetização maciça da população, muito antes da proliferação das sanitas e das casas de banho, existiam lugares ou circunstâncias em que a palavra ganhava um espaço para si própria. Já fosse em lugares sagrados, a partir de bíblias e missais, ou simplesmente ao pé do lume, contando histórias reais, inventadas ou transmitidas entre gerações. Não era o mesmo uso da linguagem que no dia a dia: era uma maneira de debruçar-se sobre o próprio sistema de percepção, que só uma minoria grande (atenção a essa ordem das palavras) conserva com teimosia.

Hoje lemos muitas coisas no ecrã do nosso telemóvel, em qualquer momento e lugar. Por isso nunca se leu tanto, é verdade, mas também por isso há  cada vez menos momentos específicos para a leitura. Lemos muito, sim, mas da mesma maneira que antigamente líamos a etiqueta do gel na casa de banho. Falo por mim – é claro – e afirmo que faz falta, mais do que ler, ritualizar a leitura. Necessitamos um tempo atento à representação do mundo, que não se acabe ao acionarmos o autoclismo. Por isso, depois da descarga, quando a cisterna voltar a encher, leitora, leitor, leitore, não esqueça de verificar se a sanita ficou limpa. Talvez esta leitura concreta consiga assim ultrapassar o seu limite.

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