Venham de lá as bandeirinhas , que o resto já se foi!

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Comecemos pelo geral: um país cheio de potencial, detentor da maior área exclusiva marítima da União Europeia, senhor de uma história antiga, rica e inigualável, para mais se considerada a sua reduzida dimensão, é mesmo assim incapaz de gerar as políticas, económicas e sociais, que o catapultem para um lugar honroso na EU. Dos salários à habitação, da saúde à educação, não são apenas os níveis medíocres obtidos em muitas das áreas que dizem respeito ao indivíduo comum, ao português. É, apesar de tudo, a degradação dos patamares eventualmente atingidos e que, malogradamente, mesmo assim, representaram enormes avanços nos últimos 50 anos, tal o estado de subdesenvolvimento em que o fascismo nos havia deixado – a que muitos querem voltar, incluindo o governo português.

Incapazes de perceber que um país que não faz do desenvolvimento humano, traduzido numa objetiva da elevação da qualidade de vida e de trabalho da sua população, o objeto fundamental do seu projeto de futuro, nunca será realmente um país realmente evoluído, as – cada vez mais – poderosas elites, que decidem na comunicação social e nas redes sociais o próximo governo a formar e os políticos mais elegíveis, ocupam-se apenas do curto prazo. É razão para dizer que políticos sem história, promovidos em “fast track” com dinheiro rapidamente ganho, só podem produzir políticas fugazes, enredando a população num ciclo vicioso caracterizado por um interminável “ímpeto reformista” que tem sempre o mesmo desfecho.

Eis a explicação fácil da realidade socioeconómica que vivemos: elevado nível de emprego da força de trabalho, apesar da importação de enormes quantidades da mesma, e persistência de todos os males das nossas relações de trabalho, baixos salários, baias qualificações, precariedade elevada e baixo valor acrescentado das atividades económicas promovidas. Taxas de lucro brutais nas maiores empresas e resultados recorde no imobiliário, salários incapazes de pagar pela alimentação, quanto mais pela habitação, grande quantidade de micro e pequenas empresas, cujos donos circulam entre um itinerário de criação, endividamento, insolvência, testa de ferro, endividamento, insolvência. Mais drástico contraste não existe, apesar de poucos conseguirem identificar a contradição.

No futebol a situação não é muito diferente. Tal como o clima invejável e um mar imenso, Portugal tem também a invejável sabedoria para o futebol. Poderia usá-la como forma de impulsionar uma cultura de desporto e usar os enormes recursos gerados para construir melhores infraestruturas em todo o país e para todos os clubes, mas não. Tal como os recursos, captados por uma economia orientada para o curto prazo e o mais vil oportunismo, são acumulados por uma vastíssima minoria de famílias oligarcas, tal como os enormes lucros dos monopólios privatizados GALP, EDP, REN, ficam para grupos de capital estrangeiros, ou de oligarquias nacionais sedeadas no estrangeiro, também no futebol sucede o mesmo. Tal como a EDP é campeã das renováveis ou a Tekever dos drones, Jorge Mendes é o maior empresário do mundo, Ronaldo, seu associado, o jogador mais rico e Mourinho, também associado desta triarquia, um dos treinadores mais enriquecidos. O que ganhou o futebol português com isso? O futebol, a esmagadora maioria de quem por desporto o pratica e a generalidade de quem nele trabalha, pouco. Mas quem explora tudo isto, muito! Especialmente se considerados os impostos deixados por pagar, com a anuência geral e a permissividade estatal.

A influência de Jorge Mendes – ou de outros como ele – é tão brutal nalguns clubes, como o Benfica, que já nem jogadores se formam. Uma espécie do que sucede com os jovens da “geração mais qualificada de sempre”, empurrada para a emigração pela conjugação de elevado desemprego, enorme precariedade, consequentes baixos salários e exorbitantes custos da habitação. Com raríssimas exceções, os jogadores daquela que ainda é considerada uma das melhores academias do mundo, não encontram espaço num plantel privatizado por uma SAD detida por capital coletivo, do clube, mas influenciada pela lógica lucrativa dos empresários que promovem presidentes e treinadores, como os maiores oligarcas promovem primeiros-ministros e deputados. Um clube que não defende os seus sócios e atletas, um estado que não defende o povo que o detém.

O resultado é simples, tal como o país, os clubes estão cada vez mais endividados, outros venderam (privatizaram) a empresários obscuros – investidores, dizem -o seu desporto mais valioso – o futebol. Tal como o estado português privatiza sem parar, vendendo os sectores mais lucrativos – como um clube de futebol vende os jogadores mais valiosos -, uns e outros, em nome dos seus constituintes, sócios ou eleitores, enunciam belas intenções, mas apresentando quase sempre parcos resultados. Mascarados de altruístas investidores, apresentados por duplicados CEO’s de farda azul, o resultado é sempre, invariavelmente, cansativamente e exaustivamente o mesmo. Menos para o todo e tudo para a parte! A taxa de acumulação das oligarquias nacionais e a soldo do estrangeiro, é simplesmente assustadora, para quem, ainda há 30 anos, via o país ainda ter tudo o de que necessitava para ser verdadeiramente desenvolvido.

A tendência geral, na vida económica geral e no futebol, é a da apropriação desmesurada dos recursos coletivos, por indivíduos gananciosos, sem escrúpulos, mas elevados a heróis por uma comunicação social que faz o seu top humano, como quem faz um ranking dos maiores apostadores da bolsa ou os maiores jogadores do casino. Celebram os lucros de uma oligarquia e choram quando estas se queixam de não os ganharem. A redução do jornalismo a um cartel de angariadores publicitários, tornou-o numa bolsa de verdades compradas com dinheiro extorquido a quem a verdade singela e objetiva, se destinaria. A prateleira de órgãos comunicacionais ainda é variada, mas pertence a muito poucos, a variedade é ainda menor e a qualidade é como aquela que encontramos num expositor de tabaco: muita estética, grande persuasão, preço elevado e muito lucro certo, danos para a saúde garantidos!

Às vezes parece que, quanto mais sugam, mais admirados são, quanto mais acumulam só para si, mais heroicos se tornam. Apesar de todas as capas de jornais e revistas, ou programas de TV, que se fazem com tais figuras, são muito poucas almas que se interrogam sobre uma evidente situação: todos eles são heróis da exploração do erário público ou coletivo e a sua promoção, ao invés de promover a superação individual, a virtude ou a honorabilidade, apenas promove a inveja, a ganância e a cobiça do alheio. É como defender que a publicidade do jogo a dinheiro, das apostas que destroem vidas e famílias, faz bem ao desporto e ao futebol. Como se o futebol fosse apenas uma atividade económica despida de gente a quem provocar danos. O mesmo que se passa com a economia de casino, em que a terrível e historicamente proibida especulação é vendida como “investimento”!

A quantidade de clubes que venderam o seu bem mais precioso a troco da promessa democrática de títulos e crescimento, colide com uma realidade em que os três grandes são cada vez maiores e os restantes cada vez mais pequenos. Este logro pseudo-democrático, cujo ressentimento afastou as gentes dos clubes e das coletividades, encontra paralelo em governos que são capazes de prometer desenvolvimento alicerçando as suas políticas em privatizações massivas, despindo o estado da capacidade de gerar os recursos para promover o prometido desenvolvimento. Uns e outros prometem resultados alienando os bens que os produziriam supostamente segundo a vontade dos seus eleitores. Os eleitores, de uns e outros, ficam invariavelmente desiludidos, para contentamento de quem diz ser democrata, apenas porque compra eleições como quem compra camisas. Reduz-se a democracia a um mero momento burocrático, tão vazio de sentido prático e construtivo quanto um Mundial Fifa made by Trump.

Tal como o país que tem o melhor jogador do mundo, o maior cube do mundo, em número de associados, a melhor formação do mundo, o melhor empresário do mundo e o treinador mais rico do mundo, tem a maioria dos estádios vazios, com exceção dos três grandes, também o país que tem a maior zona marítima exclusiva da EU, tem uma CPLP, uns Açores e Madeira, as maiores reservas de lítio da EU, o melhor clima, os seus trabalhadores moram na rua e têm os bolsos vazios.

Tal como o triunvirato melhor jogador-treinador-empresário dominam o futebol, os maiores oligarcas dominam a política e a economia. Os associados deixam os estádios e os eleitores deixam de votar. Uns meros 25% da metade dos eleitores possíveis elege um governo que tudo destrói. Umas escassas dezenas pode alienar um negócio futebolístico de milhões, numa deserta assembleia geral de um histórico clube como o Vitória de Setúbal ou um Belenenses. Eis a política do ressentimento no seu melhor. Há quem lhe chame de democracia. Adivinhem quem?

Mas é na seleção que tudo se une e faz sentido. A seleção portuguesa foi privatizada, a maioria dos jogadores são de apenas um empresário e até o treinador lhe obedece. O eterno capitão é sócio dessa empresa e impõe – sob pena de despedimento – a sua presença em 90 minutos por jogo, com exceção daqueles que o próprio escolhe não jogar e que nenhum treinador – sempre representados pelo seu sócio empresário – tem coragem de negar. Não é por acaso que Ronaldo é o único veterano com todos os minutos possíveis jogados. Mais uma farsa, para um mundial de farsa.

Tal como as estatísticas demonstram que, com Ronaldo, a seleção joga pior, marca menos e ganha ainda menos – até o europeu de França foi ganho sem ele em campo -, mesmo assim, o treinador tem coragem de a todos mudar, menos Ronaldo. Dos responsáveis, nem um pio. O poder tudo pode. Tal como as estatísticas mostram que a precariedade se combate com a sua dissuasão, que os salários aumentam com mais sindicatos, mais sindicalizados e mais contratação coletiva e que a habitação se resolve com mais habitação pública ou cooperativa, que não acabe nas garras especulativas do deus mercado, o que fazem os sucessivos governos e, em especial, este? O contrário! Os resultados são péssimos, mudam-se os governantes, mas permanece quem manda. Pelo menos na seleção conhecemos a cara do dono que tudo muda, permanecendo intocável.

No estado, na política, a equipa muda, o dono permanece, mas esconde-se através de uma invisibilidade provocada pelo imenso ruído público comprado com a sua riqueza. Não que o(s) dono(s) da seleção não comprem a sua invisibilidade, mas a evidência é tal que até os cegos a vêem, por muito que nenhum dos três jornais desportivos diários, dos milhares de comentadores futeboleiros e jornaleiros desportivos se esforcem em nunca pronunciar – quanto mais denunciar – tão malignas influências. Mas a sorte de uns e outros é a mesma. Ver e não ter voz, é como ter voz e não falar!

E o melhor de tudo, é que, sabendo e vendo tudo isto: aquele que se orgulha de ser o maior clube do mundo, do universo, em que os associados elegiam democraticamente mesmo no tempo do fascismo, vende sem parar e não forma jogadores, orgulha-se de “ser do povo”, mas o povo não tem lugar no seu estádio – até o futebol o capital alienou do povo trabalhador – tal o preço que cobra para lá se entrar, um estado que privatiza o que é de todos, par que lucre apenas para alguns, desvia dos serviços para a universalidade dos portugueses, para investir nas armas que a todos também matam, mas que apenas alguns lucram, um estado que desiste de resolver os problemas que a todos afectam, apesar de cobrar os impostos respectivos, o país que mais privatizou na EU, o país que mais depende de fundos da EU para o investimento público, uma selecção que faz heróicos hinos, como o piroso “é tuga, ou nada”, privatizada na sua vontade e estratégia, que se apresenta como grande quando vendeu a sua alma à vaidade e ao logro do glamour da riqueza, os Portugueses, que nunca olham para bandeira ou ouvem o hino quando se trata de defender o que é seu e deveria ser de todos, pegam nas bandeirinhas e lembram-se que têm pátria.

Este acto, da bandeirinha futeboleira, que transforma o patriotismo num carnaval, é tão vazio como as letras das cantigas do Dai Dai ou do Tuga. És o maior, com mais força, queres tudo, dás tudo e ganhas… Para quê? Para quem? Porquê e como?

Cabo verde passou com alma, com dor e glória, que só a humildade e a superação pode trazer. Portugal também costumava fazê-lo, mas convenceu-se de uma falsa grandeza, que se desfaz quando olhamos para a essência. Uma selecção sem alma, um país que perdeu a alma, uma pátria despida. A forma como a seleção portuguesa passou aos 1/16 avos de final coincide com o estado deste mundial: o mundial mais mentiroso de todos. Quando Shaquira diz que tens de dar tudo para ganhar, não acredites. Há quem só precise de dar a alguns, tal como a Fifa quando deu um prémio da paz a Trump!

Uma mentira entre mentiras! Venham de lá as bandeirinhas!

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