O passado não vota

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O passado não vota

O voto seguinte exige razões novas.

É por aqui que prefiro começar uma reflexão sobre o livro de Ascenso Simões. Pelo que ainda terá de ser feito. Quem procura uma resposta para a sua vida tem o direito de perguntar pelo futuro, mesmo quando reconhece o trabalho do passado.

A história de um partido pode explicar por que razão tantas pessoas confiaram nele. Pode mostrar o que essa confiança tornou possível. Mas nenhuma organização recebe dos seus fundadores uma procuração sem prazo.

Cada geração precisa de perceber o que tem a ver com aquilo.

Em Socialismo Democrático, o Norte Interior e Lisboa partilham o título. No índice, encontram-se eleições, militantes, congressos, conflitos internos, a UTAD, o Douro, a regionalização e as gravuras do Côa. Ao percorrer estes temas, interessa-me uma mudança de posição: olhar para as decisões a partir da vida de quem as recebeu.

Uma universidade pode ocupar um capítulo da história política. Na vida de uma estudante, pode permitir um curso que a família não conseguiria pagar noutra cidade. Uma decisão fica registada num documento. As suas consequências entram numa casa.

É aí que procuro a importância da política.

Sou de Montalegre. Daqui, chegar a Lisboa pode parecer uma conquista. E pode sê-lo. Há percursos pessoais que exigem trabalho, competência e persistência. Mas convém distinguir a satisfação de ver alguém daqui chegar longe da capacidade dessa pessoa para tornar mais viável a vida de quem ficou.

A primeira sente-se depressa. A segunda precisa de provas.

Temos o direito de saber que propostas foram defendidas, que prioridades foram aceites e quais ficaram pelo caminho. Representar um território inclui explicar as escolhas difíceis. Inclui dizer que não se conseguiu. Inclui, sobretudo, continuar disponível depois de passar o entusiasmo da eleição.

A expressão «dar voz ao interior» sempre me pareceu insuficiente. Há cá pessoas que sabem muito bem o que querem dizer. O problema começa quando acabam de falar.

O que acontece ao que disseram? Que decisão muda por causa disso?

A distância política mede-se também nesta sequência. Uma população pode ser ouvida muitas vezes e continuar sem influência sobre o seu futuro.

Conheço o trabalho de instituições locais que procuram encurtar essa distância. Conheço profissionais e responsáveis que respondem, acompanham e resolvem com os meios disponíveis. Esse trabalho importa. E merece condições para que uma boa resposta deixe de depender do esforço extraordinário de alguém.

A segurança de um direito está em podermos contar com ele quando muda a pessoa que nos atende.

Também a liberdade se percebe melhor em situações concretas. Quando criticamos alguém que estimamos. Quando recusamos uma proposta de uma pessoa que já nos ajudou. Quando votamos de outra maneira e voltamos a encontrar-nos na rua.

Num concelho onde as relações são próximas, estas coisas têm um peso que escapa à linguagem dos programas eleitorais. Uma divergência pode entrar num almoço de família. Uma pergunta pode alterar um cumprimento. Há quem escolha o silêncio para conservar uma relação.

É um custo humano da participação política. Merece ser reconhecido por quem exerce poder.

Podemos agradecer uma ajuda sem entregar a nossa opinião em troca. Podemos respeitar um percurso e considerar que chegou o momento de escolher outro. A maturidade democrática está também na capacidade de aceitar isso sem procurar uma ofensa.

Os valores tornam-se mais claros quando nos contrariam.

A igualdade exige que a pessoa próxima cumpra os mesmos critérios que as outras. A liberdade exige espaço para uma opinião que nos desagrada. A solidariedade exige aceitar que uma necessidade mais urgente passe à frente da nossa.

É fácil subscrever estas palavras. Aplicá-las obriga a perder alguma coisa: uma vantagem, uma preferência, o conforto de ter sempre razão.

Por isso me interessam os temas do índice relativos aos primeiros militantes, às primeiras sedes e, mais adiante, às disputas internas e aos desvios aos princípios. Permitem perguntar o que acontece entre a vontade inicial de participar e os hábitos de uma organização instalada.

Quem entrou queria fazer o quê? O que conseguiu? A partir de quando começou a gastar mais tempo a discutir lugares do que a discutir respostas?

Uma estrutura pode conhecer ao pormenor os seus apoios internos e compreender cada vez menos quem está fora dela. Quando isso acontece, até uma vitória pode esconder um problema.

A memória política ajuda a perceber esse processo. A indicação de «uma história parcial», no subtítulo, sugere que há factos e percursos por abordar, talvez num outro volume. Há valor nesse trabalho de recuperar o que ficou disperso e permitir que seja discutido.

Mas recordar exige liberdade de julgamento. O mérito não torna uma decisão imune à crítica. Um erro não apaga tudo o que uma pessoa fez. Avaliar com seriedade obriga a suportar as duas coisas.

O passado merece ser conhecido sem se transformar numa obrigação de concordar.

Ascenso Simões traz para o título uma relação que continua a precisar de respostas: a do Norte Interior com os lugares onde se decide. Para quem vive aqui, essa relação conta quando permite estudar, trabalhar, receber cuidados e escolher ficar.

A história pode ajudar-nos a perceber como chegámos até aqui.

As razões para continuar têm de chegar à vida de quem cá está.

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