Sempre pensei que existem dois tipos de pessoas: as que trancam a porta quando chegam a casa e as que não. Confesso que sou das segundas. Trancar a porta, mais do que dar-me segurança, dá-me a impressão de estar fechado, como se estivesse a pôr impedimentos desnecessários para sair. Ou então é como se o facto de fechar à chave me fizesse recordar que existem perigos fora, e não é nisso que quero pensar quando estou em casa.
Não se trata de que eu não goste de estar no meu apartamento, nem que me sinta inseguro. É, provavelmente, o meu lugar favorito do mundo. É nele que tenho os livros e a calma para os ler, o computador e a vontade de escrever, a companhia escolhida e que me escolheu, a cama, o sono e o sonho. É em casa que faço tantas coisas corriqueiras e higiénicas que não faria em lugar nenhum. Já estão a imaginar e não insisto. O caso é que é o lugar onde posso ser como sou, sem restrições nenhumas e sem exageros. E, no entanto, não é para ficarmos em casa que fazemos uma casa, escreveu o poeta argentino Juan Gelman. É isso.
Uma coisa que eu faço em minha casa é meditar. Agora um pouco menos, mas sei que voltarei aos velhos tempos. Em qualquer caso, eu sou um desses. Já meditei em muitos lugares diferentes, mas nenhum me ofereceu as facilidades que tenho em casa. Suponho que porque estou mais à vontade, aqui consigo relaxar muito melhor, e chego a estados mentais interessantes, em que posso ver pensamentos a passar, sem me prender por eles, e inclusive momentos em que simplesmente desaparecem. É uma sensação total de liberdade, em que a linguagem se para e há apenas corpo a respirar, ou apenas espaço, mas quase que desaparece o tempo. Existem mais maneiras de chegar a esse estado, mas a minha é esta. Talvez haja quem pense que sou um alucinado por falar disto nestas linhas, mas a verdade é que meditar é a minha casa dentro de casa.
Por isso, só posso compreender as pessoas que aspiram a ter casa, e as que têm medo de perder a sua: as que moram na casa familiar, porque aspiram a ter um espaço independente e próprio; as arrendadas, porque não sabem se vão poder pagar o mês; as que têm um crédito habitação, porque não sabem se vão subir os juros, ou porque pode acontecer alguma coisa e não poder pagar; e até as proprietárias, que não querem perder o que tanto custou de ganhar, ou mesmo que herdaram um espaço cheio de lembranças. Compreendo pior as que recebem a renda que as primeiras pagam, mas não tanto para ignorar a importância desse dinheiro numa economia familiar. A casa é sempre casa, mas aí começa a ser uma outra coisa.
Quando saio da meditação, continuo em casa. Voltam os pensamentos a ocupar a minha atenção, e sinto-me cómodo com eles. E fico a pensar que talvez precisemos de uma casa pela mesma razão que precisamos das palavras: a realidade é demasiado grande se não a partirmos aos bocados, ou então somos nós demasiado pequenos perante todo o universo. São precisas paredes: elas protegem e separam, tornam o espaço funcional, permitem-nos viver no mundo. E mesmo fora de casa sabemos quais são os nossos limites, o bairro, a cidade, o território, os lugares e as situações que consideramos nossos.
Também sabemos os coletivos a que pertencemos, e como neles podemos sentir-nos ou não em confiança. Há coisas que só se comentam em família. Só se fala em meditação quando alguém demonstra um interesse prévio. Há coisas que um homem somente dirá a um outro homem, e coisas que os ricos só confessam entre eles. Há assuntos que não se podem falar no ambiente de trabalho. Também há coisas que cada vez são mais difíceis de dizer, por medo de não ser compreendido, e mesmo de ser atacado. Não espanta que as pessoas queiram ficar em casa: há quem queira tornar o exterior irrespirável.
Mas depois estão as coisas compartilhadas pela maioria. Por exemplo, as das pessoas que precisam de um salário para terem casa, ou para que a casa seja o lugar de conforto de que as pessoas necessitam. Resulta paradoxal que, nos meios de comunicação de massas, cada vez que se ouve uma coisa sobre isso, haja alguém a contradizer, ou que nas redes sociais este seja um tema de conflito. É preciso um espaço para dizer essas coisas em confiança: paredes para uma casa nova, que na verdade é velha e familiar. Digamos que a classe. Porque afinal, se as pessoas não têm casa, essa função terá que ser assegurada pelo espaço imediatamente superior: a rua. Aproveitando que não deixei a porta trancada, eu vou a ela. A gente vê-se lá.
Imagem: Via crucis. Metafísica sin cielo. Pamen Pereira. 1992. Reprodução com licença da autora.




