A esquerda, a nação e o nacionalismo

Gosto muito dos textos de Sergio Aires para o De Norte a Sul. Parecem-me brilhantemente escritos, e destilam uma visão do mundo com que me identifico profundamente. Como galego que sou, continua a chocar-me às vezes o uso que faz da palavra nacionalismo, mas em geral fico a pensar que eu gostava de escrever como ele. Afinal é uma raridade que na Galiza continuemos a usar essa palavra como usamos, enquanto na Europa e no mundo o conceito identifica movimentos de extrema direita. Suponho que no fundo gostamos de rarices, e inclusive de sermos uma. Fora das fronteiras da Galiza, …

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Se eu dissesse que Inês de Castro tinha bufas grandes

Se eu dissesse que Inês de Castro tinha bufas grandes (mas eu não disse, e se quem lê o ouviu, lá saberá porquê), todo o mundo perceberia que estou a fazer uma afirmação obscena. Algumas pessoas talvez sorrissem, achando piada por adiantado, reconhecendo o tom de quem vai respeitar pouco as normas ou as convenções sociais. E, na verdade, não se enganaria. Mas algumas pessoas talvez não soubessem quem foi Inês de Castro, então não perceberiam até que ponto a afirmação é infame. Ainda bem que, como vocês bem ouviram, eu não a disse. Qualquer pessoa do mundo que conheça …

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Cães de peluche

Um monge perguntou ao mestre Zhaozhou: “Um cão tem a natureza de Buda?” (…) Koan Mu Os cães não são ursinhos de peluche. São animais, movidos por instintos, e as categorias humanas, a nossa forma específica de compreender o mundo, nada lhes diz respeito. Às vezes é preciso lembrá-lo. De facto, acabei de lembrá-lo à Rita, a minha cadela, depois de me vir pedir mais festinhas, pela centésima vez no dia. Ela ficou a olhar para mim, inclinando para um lado a cabeça. Parece evidente que não percebeu o que lhe disse, mas as suas pupilas focaram-me com interesse e tristeza. …

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A última vitória de Heitor

Eu também fui ver o último filme de Christopher Nolan. A sua versão da Odisseia foi provavelmente o grande sucesso dos cinemas este ano, e não me foi alheio. Mas eu, ainda por cima, tinha na prateleira de leituras dois livros pendentes, que também li durante as férias: Circe ou o pracer do azul, de Begonha Caamanho, e Ophiusa, de Samuel L. Pimenta. Em ambas obras, o próprio Ulisses é um personagem importante. Li com fruição, e afinal, passei um verão homérico.  Contrariamente ao itaquiense Ulisses, eu estive a maior parte desse tempo em casa. Não vou negar que me …

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Arrefecer motores

Para quem, como eu, foi sempre fraco em disciplinas de ciência, a simples existência do motor de combustão parece quase um milagre. Pequenas explosões controladas, no seio de cilindros metálicos, fazem mover pistões, que imprimem movimento a braços articulados, que dão movimento ao resto da maquinaria a que pertence. Inclusive o movimento gerado pode tornar-se eletricidade, que alguma bateria poderá guardar, para poder produzir outros processos. Já estão a ver que ainda não caí na moda do carro elétrico. Seja como for, tamanha precisão é ao mesmo tempo bela e assustadora. Talvez o ruído ajude a produzir ambas coisas, mas …

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Diálogo (telefónico) impossível entre Bodhidharma e Martin Heidegger

Heidegger: Estou?Bodhidharma: Está?Heidegger: Estou sim. Daqui é Martin Heidegger. Quem fala?Bodhidharma: Não sei.Heidegger: Perdão?Bodhidharma: Está?Heidegger: Mas quem fala?Bodhidharma: Não sei.Heidegger: Como assim não sabe?Bodhidharma: Não sei!Heidegger: Mas o que é que não sabe?Bodhidharma: Nem sei nem “sou”.Heidegger: Ok. Então não sabe. Mas quer saber?Bodhidharma: Não sei…Heidegger: Ó meu amigo, assim não posso ajudá-lo, sabe?Bodhidharma: Sei…Heidegger: Ah, então já sabemos que sabe, e já sabemos que não sabe. Só falta questionar-se para ser Dasein.Bodhidharma: Eim?Heidegger: Dasein.Bodhidharma: O quê?Heidegger: Dasein!Bodhidharma: Dá sem?Heidegger: Dasein! O ser-aí.Bodhidharma: Ser aí? Estar?Heidegger: Estou sim.Bodhidharma: Então estar.Heidegger: Estou, estou.Bodhidharma: Então dá sem estar…Heidegger: Estou, já disse.Bodhidharma: Mas …

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Um presente

Quando queremos celebrar alguma coisa, é habitual darmo-nos presentes. Costumam ser objetos, livros, brincos, colares, roupa… Matéria que estará presente (lá está) quando já não sejamos companhia. Quando vamos de viagem também trazemos presentes. São figurinhas, ímanes, postais, t-shirts… coisas para as pessoas que não nos acompanham, mas de quem nos lembramos naquela circunstância. E também compramos, ou simplesmente guardamos, coisas para nós, para conservarmos um pouco da viagem que fizemos. E a tudo isso chamamos, não por acaso, recordações. A mente é volátil e errática, mas a matéria permanece. Por isso ligamos a memória às coisas, às vezes mesmo …

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Passar à terceira pessoa

Decidi tratar-te por tu. Talvez só amigos e família estejam a ler isto, mas se não couberes nessas categorias, então desculpa a confiança. Gosto de ver na pessoa a que me dirijo exatamente a pessoa a que me dirijo. Não aquilo que me disseram dela, nem aquilo que eu tenha imaginado. Afinal, mesmo que não te conheça, serás um ser humano, em toda a sua completude. Eu quero imaginar-te como ser complexo, e só consigo fazê-lo se te imaginar mais perto. Gosto bastante de pensar na natureza da linguagem. Se estivesse a dizer isto de qualquer outra pessoa, poderia estar …

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O voo e a vontade

Em latim, ego volo (de volere, eu quero) e ego volo (de volare, eu voo) eram curiosamente homónimos. Nada tinham a ver em significado e origem, mas acabaram por coincidir. Coisas da vida. Façamos, no entanto, como se tivessem algo a ver, um pouco por volere e um pouco por volare. O espanhol é uma língua que na Galiza conhecemos demasiado bem, e por isso os usos lusófonos nos podem chocar às vezes. Nessa língua, voluntad tem um significado quase idêntico à nossa vontade, mas usos que o fazem diferenciar-se bastante, mais ligados ao conceito de força de vontade. Não …

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Discurso sobre o amor com soneto de fundo

Amor é fogo que arde sem se ver, mas logo se nota quando aquece a pele. As emoções vivem no corpo, e isso é uma parte essencial do seu próprio significado como conceito. Elas são o lugar em que o significado e o corpo coincidem, em que o somático é também semântico. Os opostos mais básicos estão entrelaçados, e a poesia, a arte, é a sua linguagem natural. O que se sente não cabe nas palavras. Será sentido, mas não tem sentido: simplesmente é. Pensamos as emoções como boas e más, próximas ou contrárias, e às vezes até criamos um …

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De literatura e casas de banho

Em tempos remotos, antes dos telemóveis, as pessoas sentavam-se na sanita e pegavam na garrafa de gel para ler a etiqueta. Se tivessem estado numa situação diferente, por exemplo na cimeira de uma montanha, talvez a sua atenção estivesse no vento sobre o rosto, no cheiro de vegetação, num horizonte largo. Mas na casa de banho, as circunstâncias não convidavam precisamente ao desfrute dos sentidos, e daí a garrafa para entreter-se.  Havia — sempre houve —  pessoas mais avançadas, cultas e cuidadosas. Essas tinham revistas e mesmo livros na casita. Estavam, normalmente, no bidé, um artefacto que já tinha perdido …

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