Quando queremos celebrar alguma coisa, é habitual darmo-nos presentes. Costumam ser objetos, livros, brincos, colares, roupa… Matéria que estará presente (lá está) quando já não sejamos companhia. Quando vamos de viagem também trazemos presentes. São figurinhas, ímanes, postais, t-shirts… coisas para as pessoas que não nos acompanham, mas de quem nos lembramos naquela circunstância. E também compramos, ou simplesmente guardamos, coisas para nós, para conservarmos um pouco da viagem que fizemos. E a tudo isso chamamos, não por acaso, recordações.
A mente é volátil e errática, mas a matéria permanece. Por isso ligamos a memória às coisas, às vezes mesmo sem querermos. Qualquer objeto quotidiano carrega em si mais vivências do que as funções que lhe damos. Afinal, a memória é a presença possível do que já não está, que não é pouco. E oferecer um objeto a alguém é tencionar estar na sua vida, mais além do nosso corpo. Todo presente é uma forma de presença.
Existe uma ligação evidente entre os afectos e a memória. E é tão evidente, que às vezes esquecemos. Amar é ter presentes as pessoas que amamos, mesmo quando não as temos connosco. Mas também quando estão: darmos atenção, ouvir, olhar, compreender, talvez inclusive julgar, mas sem o fazermos necessariamente explícito. Estar é o mais valioso que podemos oferecer a alguém. Às vezes é o único, mas mesmo assim essencial. Por exemplo, num processo de luto. Quando a outra presença é impossível, oferecer a nossa é tudo.
Mas se darmos presentes é uma amostra de afeto, também é verdade que é preciso termos afeto por nós própries. Dar-se um carinho de vez em quando é necessário. Eu gosto, por exemplo, de comer gelados. Como matéria, não é nada que dure demasiado. Uma vez fora do frio, perderá consistência, e é preciso aproveitar o tempo para desfrutá-lo. Será um presente por partida dupla, e toda uma metáfora da vida.
Às vezes estou escrevendo, como agora, e quero oferecer-me, como presente, precisamente um gelado. Deixo o teclado, levanto–me… e quando chego à cozinha já não lembro para que tinha ido. Talvez a deslocação, talvez a exposição a outros objectos, tenham levado a minha atenção para outro lugar qualquer, lembraram-me de qualquer outra coisa, e isso tirou da minha mente o gelado. Assim perdi a memória, e assim perdi o presente.
No budismo zen, dá-se muita importância a estar consciente deste tipo de acontecimentos. No Zen trabalha-se um estado de consciência com plena atenção e abertura a todos os fenómenos: a própria matéria, o corpo, as sensações, as emoções, e a memória ou a mente representativa. Nesse estado, nenhuma dessas coisas consegue atrair a atenção retirando-lha às outras, por isso não se dão saltos como o da minha ida à cozinha. Em inglês, esse estado mental foi chamado de mindfulness. Foi o conceito que se encontrou para traduzir a palavra sânscrita smṛti, que significa, literalmente, memória ou retenção.
Vivemos num presente eterno, mas não conseguimos viver eternamente no presente. Fragmentamo-lo, inevitavelmente, em bocadinhos mastigáveis e digeríveis. Assim funciona a linguagem, criando instantes a partir dos quais localizamos o passado e o futuro. Se não fosse assim, comunicar seria simplesmente impossível. Todo ato de comunicação significa um presente compartilhado, um momento da eternidade em que somos. E, por isso, também este artigo é um presente. Não sei é quem o oferece a quem. Mas por via de dúvidas, muito obrigado.
(Dedicado à Bárbara, a minha esposa, no dia do seu aniversário. Por todos os presentes que nos demos, damos e daremos.)
Fotografia de Katrin Bolovtsova | Pexels





