Quando a trouxeram para casa, vinha embrulhada num cobertor velho e acompanhada por um silêncio respeitoso, como se entrasse alguém importante.
A Maria da Luz tinha vinte e poucos anos, dois filhos pequenos e um marido emigrado em França. A máquina Singer foi comprada em prestações, pagas devagar, com dinheiro contado e ovos vendidos às escondidas na feira de Montalegre.
Na aldeia comentou-se.
“Houve lá quem comprasse uma máquina de costura.”
Naquele tempo, aquilo não era capricho. Era quase uma decisão estratégica de sobrevivência.
A Singer ficou encostada à janela da cozinha. De dia apanhava a luz fria da montanha. À noite trabalhava à luz da candeia , enquanto a lareira ia baixando e os miúdos dormiam enroscados no quarto ao lado.
Tac-tac-tac.
A aldeia habituou-se ao som.
Primeiro vieram as bainhas das vizinhas. Depois os aventais, os remendos, os vestidos das meninas para a festa da Senhora dos Remédios. Havia sempre qualquer coisa para apertar, coser ou inventar de novo. A Maria da Luz tinha um dom raro: olhava para um casaco velho e via ainda ali duas camisas e roupa para uma criança.
As mulheres da aldeia começaram a aparecer mais vezes na cozinha dela.
Não iam só pela costura. Iam pela conversa.
Enquanto a Singer trabalhava, falava-se da vida inteira. Da filha que estava na Suíça, do rapaz chamado para a tropa, da vizinha doente, das batatas que naquele ano apodreceram mais cedo com a chuva.
A cozinha transformou-se numa espécie de centro do mundo.
E a máquina ouvia tudo.
Ouviu choros escondidos. Gargalhadas inesperadas. Discussões de marido e mulher. Ouviu a rádio anunciar o 25 de Abril. Ouviu cartas lidas em voz alta para quem não sabia ler. Ouviu o primeiro telefonema vindo de França, quando finalmente chegou um telefone à aldeia.
E continuou sempre.
Tac-tac-tac.
Anos depois, quando os filhos cresceram e a Maria da Luz morreu, a máquina ficou parada pela primeira vez. Cobriram-na com um pano. A cozinha deixou de ter aquele som. E a casa, dizem alguns, nunca mais voltou a ser exactamente a mesma.
Hoje a Singer repousa no Ecomuseu de Pitões das Júnias.
As pessoas olham para ela como peça antiga.
Mas às vezes imagino que, quando o museu fica vazio e a noite cai sobre a serra, ainda se consegue ouvir ao longe o barulho do pedal.
Tac-tac-tac.
Como se a memória recusasse ficar quieta.
(História ficcionada)
Dos textos e da fotografia © Maria José Afonso



