A nobre linhagem de Leopoldino

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Chamam-me Leopoldino.

Sou descendente de uma família antiga. Gente de respeito. Dizem que um trisavô meu cantava em Tourém antes do sol aparecer por trás da serra. Outro fazia rondas em Pitões das Júnias. Um tio-avô viveu em Covelães. E ainda hoje há quem jure que um primo distante governou durante anos um quintal inteiro em Solveira apenas com um olhar atravessado.

Nós, os galos, nunca precisámos de cargos. Bastava-nos uma capoeira.

Quando soube que vinha para a Semana do Barrosão, endireitei logo a crista. Afinal, era regressar às origens. O sangue puxava-me para estas terras.

Foi então que um pardal, desses que sabem tudo antes dos jornais, me contou uma história.

“Sabes aquele teu amigo Alfredo?”

“Qual deles?”

“O que foi leiloado em Carvalho, no dia de Santo António.”

Sorri.

O Alfredo sempre gostou de ser o centro das atenções. Desde pinto que dizia que havia de valer mais do que um vitelo. Rimo-nos todos.

Afinal… quase acertou.

Depois lembrei-me do Napoleão, o de Covelo do Gerês.

Esse nunca precisou de leilões. Bastava-lhe atravessar a estrada. Os carros travavam. As pessoas esperavam. E ele caminhava devagar, como quem fazia um favor ao mundo por existir.

Ainda hoje me pergunto se era um galo… ou um funcionário das Estradas de Portugal.

Enquanto recordava esta família tão distinta, ouvi um visitante dizer:

“Olha que bonito.”

Bonito?

Meu caro, isto não é beleza.

É património genético.

É história.

É uma linhagem que acordou aldeias inteiras muito antes de existirem despertadores, telemóveis ou aplicações que dizem quando nasce o sol.

Nós já dávamos essa informação de graça.

Olhei em redor. As pessoas fotografavam-me de todos os ângulos.

Confesso que fiz um pequeno esforço para parecer natural.

Há vaidades que também fazem parte da raça.

Só tive pena do porco ali ao lado.

Abanava as orelhas, vinha até à rede….

…e mesmo assim acabaram todos por vir tirar retratos ao galo.

Há dias em que a elegância vence o espetáculo.

E eu, Leopoldino, filho de uma longa geração de galos barrosões, fiquei ali quieto, com a serenidade de quem sabe uma verdade: Há famílias que deixam apelidos.

A minha deixou despertadores vivos espalhados pelas aldeias de Montalegre. E isso, convenhamos, tem muito mais graça.

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