José Pereira: a memória de uma injustiça portuguesa

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Há vidas que começam por parecer pequenas porque nasceram numa aldeia pequena. Depois, quando se escutam bem, percebemos que trazem dentro um país inteiro.

José Pereira, avô de Rui Barroso Gonçalves, nasceu em Lamachã, a 7 de janeiro de 1914. Cresceu entre irmãos, trabalho, fome e necessidade. Ficou órfão de pai cedo, como Rui recorda, e foi a mãe que segurou a casa e aquela vida toda, num tempo em que as famílias numerosas conheciam a dureza pelo nome próprio.

Ainda novo, José Pereira começou a trabalhar na Mina,no baldio que separava Criande, Negrões e Lamachã. Ganhava ali o pão. Trabalhou tanto que chegou a encarregado. Foi também nesse mundo da mina que conheceu Vitorino, de Couto de Ervededo, encarregado-geral. E foi por essa relação de trabalho e confiança que uma noite tudo começou a tomar outro rumo.

Vitorino apareceu-lhe em casa e pediu-lhe um favor.

Havia sete homens vindos de Espanha. Refugiados. Vinham cansados, estafados, de passagem para Ponte de Lima. Precisavam de comer e de dormir. Vitorino pediu a José Pereira que lhes desse guarida.

José Pereira recebeu-os.

Deu-lhes de comer. Deu-lhes abrigo. No dia seguinte, os homens seguiram viagem. Fizeram contas, quiseram pagar-lhe, insistiram. Rui lembra que o avô era daqueles que dava tudo o que tinha e nem gostava de cobrar a quem vinha em aperto. Mas os homens pagaram e foram embora.

Podia ter sido só isto: uma noite, sete homens cansados, uma casa aberta.

Mas não foi.

Tempos depois, em Negrões, morreu um homem conhecido. Pelo que Rui conta, esse homem teria tido em casa um médico refugiado, vindo das Pedras Salgadas, enviado para ali por ser lugar mais escondido. Segundo a memória que ficou, terá entregado esse médico à guarda espanhola, e o homem acabou fuzilado. Passados meses, a morte de Pinto foi relacionada com José Pereira.

A acusação caiu sobre ele como caíam muitas acusações naquele tempo: pela junção de medo, boatos, pressões e conveniências. Como José Pereira tinha dado abrigo a espanhóis, quiseram ligá-lo à morte do homem.. Fizeram dele o mandante de um crime que, segundo o próprio repetiu ao neto, nunca cometera.

Mas havia mais.

Num processo em tribunal, José Pereira foi chamado a depor. Antes da audiência, o advogado do regime, chamou-o ao escritório. Queria que ele dissesse em tribunal aquilo que convinha à sua parte. Lembrou-lhe os irmãos, os cargos, a influência, o poder. Disse-lhe, em suma, que mais tarde poderia precisar deles.

José Pereira ouviu e respondeu que não. Que diria ao juiz aquilo que sabia. Nada mais.

No tribunal, quando tentaram pôr em causa a sua palavra, José Pereira pediu licença ao juiz e disse que não era homem suspeito de faltar à verdade. E disse mais: se tivesse aceitado declarar aquilo que, minutos antes, lhe fora pedido no escritório do advogado, então talvez já não o estivessem a tratar daquela forma.

A frase caiu mal. Muito mal.

O advogado perdeu a questão e, à saída, segundo Rui, deixou-lhe a ameaça:

“Tu vais pagá-las. E vais pagá-las em pouco tempo.”

E pagou.

Quando vieram a morte de Pinto, a história dos refugiados espanhóis e as versões convenientes, José Pereira já era um homem marcado. Era pobre, era de aldeia, era incómodo, não se deixava dobrar. E isso, no regime de então, podia chegar para se fazer uma condenação.

A mulher dele também foi presa. Esteve dois meses na PIDE. Rui conta que a avó dizia ter passado cerca de um mês quase só com água e pão, e que levou muita pancada. O filho ficou sozinho. Tinha apenas 12 anos quando viu os pais levados.

José Pereira foi condenado a 29 anos e meio de prisão e degredo. Rui fala numa sentença enorme, com cerca de 320 páginas. O avô andou por cadeias do Norte: Viseu, Custóias, Alcoentre, Porto, Tomar. Passou pela PIDE. Sofreu torturas. Rui conta que lhe arrancaram unhas com alicate, que lhe fizeram a tortura do sono, que o mantiveram debaixo de uma pinga de água constante na cabeça, sem poder mexer-se.

Queriam que confessasse.

Ele não confessou.

Nunca aceitou dizer que tinha cometido um crime que dizia não ter cometido.

Na cadeia, aconteceu uma das partes mais fortes desta história: José Pereira aprendeu a ler e a escrever. Entrou analfabeto e, já preso, conquistou as letras. Rui diz que a letra não era bonita, porque aprendeu tarde, mas que a forma de escrever parecia de poeta: frases bem feitas, assuntos bem tratados, pensamento claro.

Foi com essa escrita aprendida dentro da prisão que escreveu a Bento da Cruz.

Contou-lhe que estava preso injustamente. Disse-lhe que tudo tinha sido uma vingança dos do regime . Pediu ajuda, porque temia passar o resto da vida na cadeia.

Bento da Cruz entrou em contacto com o irmão, o Joaquim Cruz. Rui recorda também António Cruz como parte desse grupo a quem o avô ficou profundamente ligado. Surgiu ainda o padre Batista, capelão da cadeia de Custóias, professor de português em Singeverga, lembrado por Rui como homem decisivo no caminho que acabaria por abrir uma porta.

Para José Pereira, os irmãos Cruz ficaram como mais do que família. Rui diz que o avô repetia muitas vezes: se não fossem eles, só sairia com o 25 de Abril.

E talvez fosse mesmo assim. Cumpriu 19 anos e meio de cadeia. Tinha 29 anos e meio para cumprir. Saiu em 1966. Se tivesse cumprido tudo, só voltaria à liberdade com a Revolução.

Rui lembra-se do dia em que o avô regressou.

Era criança. Estava numa varanda, numa casa ali mais acima, quando viu vir pela rua um homem com um baúzinho de madeira na mão. Sabia que era ele. Era o avô. O homem que tinha sido arrancado à aldeia voltava, muitos anos depois, com aquilo que lhe restava numa mão.

A imagem ficou-lhe para sempre.

José Pereira voltou a Lamachã sem os melhores anos da vida. Dos 30 aos 50, passou-os preso. Não trouxe de volta o tempo perdido. Não trouxe a juventude. Não trouxe o sono, porque a prisão também lhe roubou as noites. Rui conta que o avô dormia com o rádio ligado, marcado pela tortura do sono, incapaz de descansar como os outros.

Mas voltou com uma coisa intacta: a dignidade.

Voltou como homem que não se deixou pisar. Como alguém que aprendeu a escrever atrás das grades para pedir justiça. Como alguém que deu abrigo a quem vinha com fome e acabou condenado por um crime que sempre negou. Como alguém que, perante um juiz, preferiu dizer a verdade a salvar-se pela mentira.

Rui guarda dele a frase que atravessou a família: não te deixes vergar. Acredita naquilo que és. Acredita na verdade. Luta pelos teus ideais.

E talvez seja esse o verdadeiro regresso de José Pereira. Não foi só o homem a entrar de novo na aldeia com um baú na mão. Foi a sua verdade a entrar na memória do neto, onde ainda hoje continua viva.

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