O título deste artigo, que faz referência às entradas do dicionário eletrónico e-Estraviz, eram as contas certas a em junho. Hoje a cifra é porventura já maior. E esse repositório continua a atualizar-se e a ser acrescentado. Isto deve-se ao assombroso trabalho de Isaac Alonso Estraviz (Vila Seca-Ourense, 26 de janeiro de 1935), um filólogo que está na casa dos 91 anos.
Doutor em Filologia pela Universidade de Santiago de Compostela, professor reformado da Universidade de Vigo, esteve entre as pessoas fundadoras da Academia Galega da Língua Portuguesa e é membro correspondente da Academia das Ciências de Lisboa. Isaac Estraviz dedica, há mais de meia vida, o seu tempo ao estudo e à investigação lexicográficos, para esclarecer o significado das palavras de sempre e das novas que se vão incorporando.
O e-Estraviz é um dicionário de acesso livre, disponível na Internet desde o primeiro de janeiro do ano 2005. As suas definições, elaboradas da Galiza, estão pensadas também para a CPLP, para uma língua comum partilhada para a comunicação de quase 300 milhões de pessoas.
Este excelso produto cultural é consequência da biografia e do percurso pessoal de Isaac Estraviz, que soube envolver no seu empenho a cumplicidade de outros especialistas. Assim, consegue enriquecer a sua oferta lexical com novos contributos de maneira continuada.
Inícios em Lisboa
O interesse de Isaac Alonso Estraviz pela lexicografia e pela lexicologia afiançou-se em Lisboa, em 1979. Nesse ano, com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, ele alargou as suas investigações nesses campos de conhecimento. Depois, com a colaboração de um grupo de especialistas da Galiza, a maioria pertencente aos primeiros cursos de Filologia Galego-Portuguesa, dirigiu o Dicionário Galego Ilustrado Nos, publicado em 1983. Era este um projeto muito ambicioso, que ia constar de cinco volumes, mas só saiu dos prelos o primeiro, por problemas da editora1.
Em 1986 conseguiu publicar o primeiro dicionário galego completo, em três volumes, na editora madrilena Alhena, da qual Estraviz era um dos sócios. A obra contava com mais de 95.000 verbetes. Foi esse o ponto de partida para um terceiro projeto, um dicionário galego num único tomo, de 1.591 páginas, que publicou na editora Sotelo Blanco, de Compostela, em 1995.
Depois começou o e-Estraviz, que completou este ano 21 anos de presença e atualização na rede. Este projeto emergiu na altura no Portal Galego da Língua2 que coordenava nessa época Vítor Manuel Lourenço Peres —que se mantém como colaborador do Isaac Estraviz nesta empresa cultural—.
Outras pessoas que ajudaram ao sucesso deste dicionário eletrónico foram o brasileiro Rodrigo Wiese Randig, com léxico de países da CPLP; o português Paulo Domingos Paixão, que forneceu mais de 11.000 nomes de aves do mundo —tornando-o, porventura, no dicionário mais completo nesse âmbito— e o galego Ramiro Torres, que trouxe novas entradas da Galiza.
12 anos adaptado ao Acordo Ortográfico
O e-Estraviz foi crescendo nestes sete triénios: em junho de 2009 ultrapassou os 121.500 verbetes; em julho do 2011 eram já 126.319. Em janeiro de 2025 atingiu as 151.400 entradas. O ritmo de incorporação de novas palavras continua a ser elevado, dada a magnitude que já alcançou a obra, pois no último ano e meio foram adicionados por volta de 310 acréscimos, o que supõe uma média de quatro por semana, segundo as contas que ele leva.
Desde o ano 2014 o e-Estraviz está adaptado ao novo Acordo Ortográfico. Isaac Estraviz mantém-se bem atento às novidades. Assim, entre os termos mais recentes incluídos neste dicionário está, por exemplo, o “hantavírus”, para ajudar nas pesquisas das pessoas interessadas neste tipo de vírus, que tem despertado grande atenção internacional há umas semanas.
Nos últimos meses tem-se dedicado a incluir mais termos relacionados com capitais europeias e de outros espaços do mundo, como, por exemplo, “amboíno”, “amesterdanês”, “bacuense”, “bratislavo”, “erevanense”, “escopiense”, “gotlandês”, “gueês”, “liublianês”, “minsequense”, “nicosiano”, “orcadiano”, “podgoricense” “praguense”, “quixinauense”, “talinês”, “umiaque”, “vaduziano”, “varegue”, “vilniano / vilnês”, e mais.
A respeito do léxico dos países da CPLP, esclarece-se a qual pertencem os termos específicos que inclui. Assim, encontramos, por exemplo, “angolanismo”, “aboamado”, “ambuela”, “andorinha-de-cabeça-branca”, “andorinha-rupestre-de-cara-vermelha”, “andorinha-preta-e-ruiva”, “alacavuma”, “bassela”, “bitacaia”…., indicando se são de Angola, Moçambique ou de outros países.
Presença no Rio de Janeiro
Na biografia e trajetória de Isaac Alonso Estraviz deve salientar-se um acontecimento incontornável. Em maio de 1986 participou como representante da Galiza3 na reunião celebrada no Rio de Janeiro para um primeiro Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.4 Isaac Estraviz publicou até nessa normativa o seu livro Estudos Filologicos Galegoportugueses, no qual se ocupa da questão ortográfica, mas também dos seus interesses sobre o léxico e dicionários, e outros assuntos respeitantes à língua e à literatura.
Em Isaac Estraviz sempre surpreende a paixão com que ele fala do seu dicionário, obra que serviu também como um alicerce central para elaborar o Vocabulário Ortográfico da Galiza, editado pela Academia Galega da Língua Portuguesa em 2015. Este trabalho, coordenado pelo saudoso Carlos Durão5 e no qual Estraviz participou como relator, consta de 640 páginas e 154.189 verbetes6.
Para as pessoas que ainda não conheçam o e-Estraviz, seria bom que entrassem no seu sítio web e comprovassem a realidade do seu lema: Uma explosão de luz no universo da língua. Será com surpresa que verificarão como com projetos como este se contribui para construir uma língua comum mais inclusiva, forte, diversa e competitiva.
- Nota da redação : refere-se à Nos Ediciones da Corunha; não confundir com a Editora Nós de 1927 ou a atual editora Nós lisboeta ↩︎
- Portal Galego da Língua é um projeto noticioso da Associação Galega da Língua, ↩︎
- Juntamente com o advogado José Luís Fontenla e a professora Adela Figueroa Panisse, ↩︎
- Nota da redação: O Encontro Internacional de Unificação Ortográfica da Língua Portuguesa do Rio de Janeiro de 1986 não prosperou, mas serviu para constituir as bases do posterior Acordo de 1990 —em que novamente participou uma delegação galega—. No entanto na Galiza chegou a ser utilizado por um grupo de pessoas entusiastas relacionados com as Irmandades da Fala da Galiza e Portugal. Para saber mais da presença galega nos acordos de ´86 e ´90 é possível consultar o seguinte artigo de C. Durão ↩︎
- Carlos Durão foi um escritor, professor, tradutor e jornalista. Coordenador da Comissão de Lexicologia e Lexicografia da AGLP, faleceu em Vigo em setembro de 2023, aos 80 anos ↩︎
- Apenas enunciados, sem definições ↩︎






