Depois da xenofobia, o desafio da integração

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Sempre que a xenofobia volta a fazer vítimas na África do Sul, o debate concentra-se, quase sempre, nas imagens de violência, nas perdas materiais e na necessidade de proteger os imigrantes. É um debate importante, mas incompleto. Há um outro lado que merece atenção: o que acontece quando os moçambicanos regressam ao país?

Nos últimos dias, as redes sociais têm sido palco de mensagens que apelam à população, sobretudo às mulheres, para redobrar os cuidados porque, alegadamente, os moçambicanos que regressam poderão recorrer a roubos e outros crimes. Este tipo de discurso é preocupante. Além de não existir qualquer fundamento para associar um grupo inteiro de pessoas à criminalidade, acaba por transformar vítimas da xenofobia em suspeitos. Quem regressa ao seu país merece acolhimento e não desconfiança.

Isso não significa, porém, que não exista um problema. Existe, e é sério. O verdadeiro debate não deveria ser sobre o medo dos migrantes, mas sobre a capacidade de Moçambique para os reintegrar.

É inegável que o país enfrenta um mercado de trabalho cada vez mais difícil. Todos os anos, milhares de jovens terminam os seus estudos e procuram uma oportunidade que tarda em aparecer. Neste contexto, o regresso de mais cidadãos aumenta naturalmente a pressão sobre um sistema que já tem dificuldade em responder às necessidades de quem cá vive.

Esta é uma inquietação legítima, mas não deve ser confundida com a ideia de que o aumento da criminalidade será uma consequência inevitável do regresso dos migrantes. O desemprego, a pobreza e a exclusão social podem aumentar a vulnerabilidade das pessoas e criar tensões na sociedade, mas isso não faz de ninguém um criminoso.Generalizar essa ideia apenas alimenta o preconceito e reproduz, dentro de Moçambique,
a mesma lógica de exclusão que condenamos quando acontece na África do Sul.

O que falta discutir são as políticas de integração. Que respostas tem o Estado para acolher cidadãos que regressam, muitas vezes depois de perderem tudo? Existem programas de inserção no mercado de trabalho? Há incentivos para o empreendedorismo ou para a formação profissional? Estas são as perguntas que realmente importam.

A xenofobia não termina quando um migrante cruza a fronteira de volta para casa. As suas consequências prolongam-se no tempo e chegam também a Moçambique. Ignorar esta realidade é desperdiçar a oportunidade de preparar o país para um desafio que pode tornar-se cada vez mais frequente.

Combater a xenofobia passa, naturalmente, por exigir respeito pelos direitos dos moçambicanos que vivem na África do Sul. Mas passa também por garantir que, se forem obrigados a regressar, encontrem um país capaz de lhes oferecer dignidade, oportunidades e esperança. Porque o maior risco não está no regresso dos migrantes; está na falta de políticas que permitam transformar esse regresso num novo começo, e não num novo problema.

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