Eu sou neta da Francisca, a Xica. Luandense, filha de uma mulher pescadora, Axiluanda, e de um homem do garimpo, Malangino, que fizeram a vida no musseque do Cazenga, em Luanda. Aos 15 anos, a Xica foi casada ao João, um Ribatejano já dos seus 29 anos, que trabalhava numa obra perto daquele musseque e um dia pediu a sua mão aos seus pais. O João havia chegado àquela terra, antes reinada por Nzinga Mbandi mas que seguia há alguns séculos invadida por povos do mar distante de Portugal. Chamavam-na de província ultramarina de Angola. Dizia eu que o João havia sido enviado à Angola para trabalhar na construção de uma barragem em Malange, por sinal terra dos pais da Xica, e epicentro do Reino do Ndongo, de Nzinga.
Na década de 1950, pasme-se, não haviam muitas avenidas nem sonhos profissionais para mulheres, pior ainda para as negras, a base da pirâmide imperialista-fascista-colonial. Não haviam profissões, mas não faltava trabalho.
A Xica, exímia aprendiz que era, aprendeu na casa dos senhores portugueses onde foi levada a morar para e trabalhava gratuitamente desde criança, a lavar e engomar. Ela lavava e engomava roupa que era uma beleza. Tornou-se então Lavadeira Profissional. Lavava para patrões brancos, para hoteis e pousadas, e dizem que o fazia muitíssimo bem. Uma lavadeira de excelência!
Vinco atrás de vinco
Lençol branco cintilante
Eu já não conheci a Xica lavadeira. No meu tempo ela já era uma rainha, de longas unhas pintadas em lilás, sentada num trono, a ditar ordens carinhosas aos seus súbditos:
-Eli, traz um chá pra tua avó
-Eli vem pentear-me
E eu, súbdita radiante e honrada por poder servir sua alteza, lá ía cumprir as importantes missões.
Então eu já não a vì lavar, mas lembro do a ouvir cantar, cantava os cânticos provavelmente herdados da sua antiga profissão de lavadeira:
Oh Alecrim
Oh Alecrim dourado
Que nasceu na selva, sem ninguém o Semear (x2)
Ai meu amor, quem te disse a ti, que a flor do campo é o Alecrim? (x2)
Ou
Kidi Mwene, mungongo mumu (x2)
Mungongo mumu, mu ilwezu iavulu
Tunda kubanga kie?
Eu já não fui a tempo de aprender a lavar e nem a cantar (como rapidamente se pode notar). Mas tenho a poesia nascer-me por dentro e a transbordar aos montes, a brotar e a precisar de purificação, lavagem e dobragem.
Então, lavo a minha roupa,
Espremo – a com estas mãos inexperientes
Desajeitada
Não me ensinaram a tecnologia das antigas lavadeiras
Então estendo-as como posso
Estico os braços, puxo e ajeito, de qualquer jeito
Depois canso-me
Atiro as peças que sobram
Antes de finalmente desistir a desabar na minha insignificância
Entre fracassos e frustrações de amar, quer dizer, de lavar
Eu sinto que as antigas lavadeiras tinham verdadeiras razões para reclamar, digo, lavar
Sofrimentos suficientes
Trouxas proeminentes
E cânticos alegres para amenizar
E eu?
Esta filha do meio nascida neste país já independente
Já em paz
Já crescente
Já subtil
Mal reconheço o som de uma AK47 ou um fuzil
Nem sei como quantas desilusões um país se faz
Que vivo o luxo de escrever e de sonhar
Que tão importantes dores poderia eu ter
Para aqui vos trazer
Ou para os vossos ouvidos ousar levar?
E lavo mal
Com as mãos suaves
E canto mal
Com a voz trepidante e grave
Quando tentei lavar um lençóis com as mãos
Quase morri
Vinco atrás de vinco
O lençol não ficou branco cintilante
Desisti
Voltei às peças leves
Próprias para as minhas mãos suaves
Como quando tentei gritar gritos de revolução
De sonhos de melhorar esta minha Nação
E tossi, engasguei-me
E a eloquência me saiu em rouquidão
Dizem que maus tempos fazem homens fortes, homens fortes fazem bons tempos e bons tempos fazem homens fracos. Mas e as mulheres, quando foram os nossos bons tempos? E no colonialismo, quem foram as mulheres fracas? Não há espaço para o privilégio do lamento no imperialismo, na pobreza, não existem mulheres no conformismo.
No sinismo
Somos forçadas a lavar
Trouxas de manchas alheias
Involuntárias curandeiras destinadas a purgar
Engomar e suavizar estas sociedades feias
Porque, seja de casa ou dos patrões
A roupa precisa ser lavada
Senão acumula, sufoca, amordaça e mata
E eu, insisto
Vou lavando os meus desamores
Raivas e encantos
Poema após poema
Engomo as desilusões do meu povo
Vinco atrás de vinco
A tentar que a alma fique cintilante
E como sou atrevida, assanhada, esse alecrim, o alecrim dourado que nasceu na selva sem ninguém o semear, neta da Xica e pertencente a esta terra cujo chão o meu coração tem orgulho em pisar,
Luto a luta que posso
Com a arma que me cabe nas mãos
Reúno os meus poemas e lençóis
Em trouxas de oração
A tentar fazer jus ao amor da Xica e do João
Estendo ao meu país a minha poesia desajeitada
Porque haja o que houver
A roupa precisa ser lavada!
Kidi Mwene, mungongo mumu (x2)
Mungongo mumu, mu ilwezu iavulu
Tunda kubanga kie?





