Da privatização selvagem à privatização rebelde

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Deve estar para breve a descoberta de um novo negócio infalível: um ambientador para o espaço público ou, enquanto a invenção não chega, uma máscara perfumada para todos usarmos no nariz.

Nem percebo porque é que não corro já a registar-lhe a patente.

O “empreendedorismo” neoliberal nunca nos falhou: o problema que o capitalismo cria é o problema que o capitalismo resolve. A diferença é que, entretanto, o que não era preciso pagar, porque era de todos, foi transformado num negócio no qual “ninguém havia pensado até agora”. A novilíngua neoliberal em que os média de massas caem que nem tordos, chama-lhe “inovação”, para parecer bem.

As nossas principais cidades cheiram mal. Este é o problema. Cheiram mal por várias razões, porque a mobilidade desenfreada torna o ar irrespirável nas zonas mais carregadas de pessoas e veículos, porque as árvores que ladeavam avenidas foram retiradas das “opções paisagísticas” acabando com a sombra e com a oxigenação da cidade, porque a economia de “serviços” despeja no ar todo o tipo de aromas, só alguns dos quais agradáveis, porque o lixo em excesso, produzido pelo capitalismo hiperconsumista, degrada os chamados “pontos verdes”, e cheiram mal porque os espaços sociais de higienização, como as casas de banho públicas, estão quase totalmente privatizados. E não vale a pena culparmos as ondas de calor pela podridão acelerada. Quem passa, como eu, quase diariamente, pelas grandes interfaces de transportes, como Campanhã, no Porto, ou a Gare do Oriente, em Lisboa, só consegue escapar desta podridão se perdeu totalmente o olfacto.

Os cheiros, na Gare do Oriente, já ultrapassam o nauseabundo, nalguns locais da enorme infraestrutura tornaram-se mesmo totalmente insuportáveis. Em Campanhã, começaram a surgir há menos tempo, precisamente quando a Infraestruturas de Portugal, que gere as estações de caminho de ferro, decidiu privatizar as casas de banho, entregando-as a concessionários.

Também aqui a estratégia foi a costumeira: deixa-se degradar o serviço ao limite, no caso, deixa de se fazer a limpeza às casas de banho públicas tornando-se antros de mau cheiro, que, a certa altura, a solução é a da alternativa sem alternativa: “privatizar”. Ir a uma casa de banho minimamente (?) asseada, numa grande interface de transportes, passou a ser, por isso, um negócio como outro qualquer: estar à rasquinha passou a ter um custo de 50 cêntimos. Há já quem tenha avançado com petições públicas a contestar o processo, mas, pelo menos nesta 1, parecem ser poucos os interessados em revertê-lo.

É assim que, da selvajaria privatizadora em que vamos aceitando viver, porque passamos a poder tratar das nossas necessidades vitais em espaços por onde a concessionária privada tem de fazer passar um pano de limpeza de vez em quando, se passa para a privatização rebelde do espaço público: não é rara, agora, a visão degradante de um pobre, um mendigo, um sem-abrigo, um toxicodependente, a apropriar-se de um recanto público ligeiramente mais recatado, para fazer ali o depósito da degradação social em que o capitalismo nos vai, cada vez mais, metendo. Antes, isto passava-se longe dos olhares, agora, já nem isso.

Na sociedade a que o filósofo Byung-Chul Han chama a “do cansaço”, porque nos põe constantemente a correr uns contra os outros, a competição pelo espaço tornou-se uma das experiências sociais mais desgraçadamente comuns: a regra, na sociedade ultracompetitiva, passou a ser a da ocupação, por vezes, violenta. As classes privilegiadas, os beneficiários do capitalismo, fazem-no de vários modos: compram o espaço privado de luxo que habitam ou no qual circulam, e adquirem direitos económicos sobre o espaço público, privatizando-o, passando a gozar do seu usufruto exclusivo. Em troca deste, fornecem os serviços que antes eram de todos. Fornecem, é uma forma subtil de dizer “passam a vender”.

A violência reside na expulsão de todos os restantes, que se vêem obrigados a competir por um espaço público cada vez mais exíguo, ou a ficar tão à rasca que não lhes resta outra solução senão a privatização rebelde do espaço público que sobra. Gera-se, deste modo, um ciclo de exclusão e expulsão que se desenvolve sem fim. Até que, um dia, que não há-de estar já tão longe assim, nada reste a que possamos chamar “espaço público”.


Ilustração: Velha cheirando um cravo (Alegoria do olfato) 1650 , David Rijckaert III

  1. https://peticaopublica.com/mobile/pview.aspx?pi=PT80464 ↩︎
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