Histórias sem ninguém para as contar

   Tempo de leitura: 7 minutos

Encontrei-a numa feira de velharias. Suja, maltratada, com o cabelo desfeito e aquele ar triste que algumas bonecas parecem adquirir quando deixam de pertencer a alguém. Fotografei-a.

Não sei porquê aquela e não outra coisa qualquer entre as centenas de objectos espalhados pelas bancas. Talvez porque, ao contrário de um prato, de um candeeiro ou de uma velha máquina de café, uma boneca tem qualquer coisa de humano. Sobretudo quando está assim, abandonada. Parece estar à espera de alguém que já não vem.

Fiquei a pensar a quem teria pertencido. Quem a terá recebido? Em que aniversário, em que Natal? Quem abriu uma caixa e ficou genuinamente feliz por encontrá-la lá dentro? Terá sido muito desejada? Terá alguém juntado dinheiro para a comprar? Terá sido oferecida por uns pais, uns avós, uma tia? Terá tido um nome?

É possível que tenha dormido durante anos ao lado de uma criança. Que tenha sido levada para a mesa, para a escola, para férias. Que tenha ouvido conversas que não entendia, assistido a zangas, doenças, festas de aniversário e domingos intermináveis. Deve ter sido despida e vestida centenas de vezes, penteada, abraçada, eventualmente castigada por alguma coisa que não fez. Talvez tenha perdido um sapato. As bonecas perdiam sempre um sapato.

E talvez tenha passado de uma criança para outra. De uma irmã para outra, de uma mãe para uma filha, de uma prima para outra prima. Não sei quantas mãos passaram por aquele cabelo agora desgrenhado. Nem quantas vezes aquele corpo de plástico foi apertado contra um peito para consolar uma tristeza que, naquele momento, parecia o fim do mundo.

Durante algum tempo, aquela boneca pode ter sido absolutamente insubstituível. Depois crescemos. É provavelmente aí que começa o abandono.

Os brinquedos não crescem connosco. Ficam para trás. Primeiro deixam a cama. Depois passam para uma prateleira. Da prateleira para uma caixa. Da caixa para um armário, uma arrecadação ou um sótão. E esperam.

Nós, entretanto, fazemos aquilo que os adultos fazem. Estudamos, trabalhamos, apaixonamo-nos, separamo-nos, mudamos de casa, temos filhos, envelhecemos. Esquecemo-nos daquela caixa.

Às vezes os brinquedos sobrevivem às próprias casas onde brincámos. E às pessoas que no-los ofereceram. Até que um dia alguém abre a caixa. E aí pode acontecer uma coisa terrível: já ninguém conhece a história.

Para quem abre aquela caixa, aquilo é apenas uma boneca velha. Cinco euros. Talvez três, se regatearmos.

Foi nisso que pensei enquanto a fotografava. Na extraordinária desvalorização das coisas que um dia tiveram um valor incalculável. Não económico, evidentemente. Muito mais importante do que isso.

Aquela boneca pode ter sido amada. E agora estava ali, entre pratos lascados, talheres desemparelhados, relógios que já não dão horas, bibelôs de gosto duvidoso e fotografias de famílias que ninguém sabe quem são.

As feiras de velharias são lugares estranhos. Vendem objectos, mas estão cheias de biografias.

Uma chávena pode ter sido aquela onde alguém bebeu café todas as manhãs durante quarenta anos. Um relógio pode ter sido oferecido num casamento. Uma mala pode ter atravessado fronteiras. Uma fotografia pode ser o único registo existente de alguém que viveu, amou, teve medo, riu e morreu. Depois alguém põe uma etiqueta com um preço. Talvez por isso os brinquedos me perturbem mais. Porque transportam uma coisa que os outros objectos não transportam da mesma maneira: a infância.

Encontrar um brinquedo nosso, muitos anos depois, é uma experiência quase física. Um carrinho, um urso, uma boneca, um pião, um livro infantil, uma caixa de lápis. Pegamos-lhe e, durante alguns segundos, alguma coisa regressa. Não é propriamente o brinquedo. Somos nós. Ou melhor: aquela criança que fomos e de quem, apesar de tudo, já nos separa uma vida inteira.

Talvez seja essa a razão pela qual custa tanto deitar fora certos objectos perfeitamente inúteis. Não estamos a guardar plástico, tecido, madeira ou papel. Estamos a guardar provas. Provas de que aquela criança existiu. Mas talvez seja também por isso que a imagem daquela boneca me tenha levado a pensar nos velhos.

Há pessoas que, depois de uma vida inteira de trabalho, de cuidados e de afectos, acabam tratadas como objectos que já não servem. Primeiro deixam de ser consultadas. Depois deixam de ser visitadas. Mais tarde passam para um quarto, para uma instituição, para um canto da casa. Continuam presentes, mas já ninguém pergunta verdadeiramente por elas. Também os velhos têm histórias que se vão apagando.

Quem se lembra de onde trabalharam? De quem amaram? Das dificuldades que atravessaram? Das crianças que criaram? Das noites em que ficaram acordados para cuidar de alguém? Das decisões que tomaram quando ainda ninguém lhes chamava velhos?

Tal como a boneca, podem conservar no corpo as marcas de uma vida inteira. Mas, quando deixam de ser úteis aos olhos dos outros, passam a ser avaliados pelo que ainda conseguem fazer. Cinco euros. Talvez três, se regatearmos.

É uma comparação desconfortável, mas necessária. Porque o abandono raramente começa com uma porta fechada. Começa muito antes, quando deixamos de olhar. Quando deixamos de perguntar. Quando a pessoa continua ali, mas a sua história já não interessa a ninguém.

A boneca que encontrei na feira tinha ainda outra coisa. Não era a minha memória. Era a memória de alguém que eu não conhecia. Uma espécie de pequeno vestígio arqueológico afectivo.

Eu conseguia ver as marcas, mas não sabia ler a história. Não sei quem a abraçou. Não sei quem lhe deu um nome. Não sei quantas noites dormiu junto de alguém. Não sei quantas gerações atravessou. Não sei sequer se a pessoa que a levou para aquela feira sabia alguma destas coisas. Se calhar não sabia. E talvez o verdadeiro abandono aconteça precisamente aí. Não quando deixamos de brincar com os brinquedos, nem quando os fechamos numa caixa. Mas quando desaparece a última pessoa capaz de contar a sua história.

Com os velhos, talvez o abandono aconteça quando deixamos de querer ouvir essa história. Quando os reduzimos à idade, à doença, à reforma ou à dependência. Quando esquecemos que, antes de serem velhos, foram crianças, jovens, pais, mães, trabalhadores, amantes, amigos. Pessoas inteiras.

Fiz-lhe uma fotografia e fui-me embora. A boneca ficou lá. Provavelmente continua à venda. Talvez, entretanto, alguém a tenha comprado. Talvez esteja novamente numa casa. Talvez tenha acabado noutra caixa. Ou talvez continue naquela banca, à espera que alguém ache que vale os cinco euros pedidos.

Não sei. Mas durante alguns minutos, pelo menos, deixou de ser apenas uma boneca velha numa feira de velharias. Alguém voltou a olhar para ela.

Possivelmente é isso que todos nós esperamos no fim: que alguém ainda veja, para além do corpo cansado e das marcas do tempo, a vida que ali esteve. Que alguém se lembre de que não somos coisas abandonadas, mas histórias que continuam a merecer ser contadas.

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