Doeu ler na imprensa a morte do Foz. Avisada, pela saúde quebrada, há anos, mas súbita e no dia do seu 85 aniversário.
Lembro o sorriso pícaro, o piscar dos seus olhos danados, os lentes tortos, a gargalhada pronta e recolhida, como também o pronto do génio – sempre a desculpar – que reagia ante o abuso e a injustiça, qualquer uma.
Lembro a voz característica, a presença sólida, mas frágil, agachando a dor. A palavra repleta de erudição literária, os fundos da memória histórica do ativista. A França, a tradição republicana, os exílios, os velhos livros galegos que tanto amamos.
Lembro o dizer oportuno, a retranca, que nos fazia – a mim me fazia – voltar à terra; a lucidez na análise de momentos, gentes, cousas, depois plasmada em livros, fonte de notas e memórias.
Lembro, o magistério de quem sabia estar e sabia retirar das histórias as mesquinhadas, e a capacidade de quem sabia fazer emergir, pessoas, exemplos das inúmeras anedotas do ativista político.
Lembro as perplexidades compartilhadas, a incredulidade dos que conservamos certa inocência, ante as recuadas, as perseguições, os preterimentos, as cabronadas e as traições. Tantas. Dos nossos.
Lembro o entusiasmo para os novos projetos coletivos, o otimismo e o conselho prudente do experiente. A colaboração sempre pronta nas causas. E a capacidade para despertar a admiração no interlocutor das figuras as que cumpria lembrar. Também, o silêncio respeitoso sobre aquelas das que não queria falar (mal).
Lembro a sua presença intelectual, política, poderosa, generosa, amical, discreta. Lembro por sobre todas as cousas a conversa, oral e escrita, a memória detalhada e inabalável: Brais Pinto, Reimundo Patinho, o conselho da mocidade, a UPG, a Carta de Brest, o exílio, o Ruedo Ibérico, o antifranquismo, a clandestinidade, o nacionalismo, o reintegracionismo, o antifraguismo, o independentismo, os centros sociais, as redes sociais, a educação, a AGAL, a AGLP.
Talvez não o soubemos escutar, aproveitar, querer como merecia. Acho que terminara sendo reintegracionista ativo e autor de artigos linguísticos diversos, porque não suportava a injustiça, nem manipulação, a falsidade, a mentira histórica sobre a língua da farsa académica e comenência política; motivo este que reaparecia nos seus escritos históricos, políticos, e nomeadamente no prólogo à sua monumental compilação sobre a política exterior da UPG.
Sempre solidário, sempre antifeixista, sempre integrador, sempre pragmático ao jeito militante, sempre defensor “dos de abaixo”, sempre capaz de ouvir e falar cos novos, o Luís Gonçales Blasco “Foz”, sem dúvida foi um desses “mestres gratuitos” como lhes chamava Pedret Casado ou um desses “unoficial teachers” no dizer também clássico, mas mais académico de C.S. Lewis.
Essa gente, que merece um capítulo no “livro dos amigos”, que aparece na nossa vida, por fora do percorrido académico e da que desde o primeiro momento, pela sua generosidade, temos o prazer e sorte de aprender. Gente que depois também pela sua generosidade nos iguala à condição de camaradas, colegas, amigos, confidentes.
Das conversas, reuniões, encontros em cafés, jantares, saímos todas as vezes, com ideias, matizes, contos, livros, referências bibliográficas, noticias, perspetivas, anedotas, mas também com o exemplo vivo dos atos, os modos, com o jeito da boa escola política, da tradição combativa, do laicismo, do internacionalismo, da reivindicação e compromisso social, da vida civil e associativa do cidadão.
Doeu, doe. A vida doe nas mortes. Por vezes tanto que paralisa. Isso é algo que ele sabia bem.
Teria gostado de me despedir com jeito e tempo, de lhe dizer mais uma vez que tinha razão, que já ia indo, que pensava retomar a escrita, tal como ele me demandava, que íamos recuperar contato e conversa, os projetos, o trato. Com ele e com tantas amizades das que desliguei nestes anos escuros.
Parece que a sua morte impõe a tarefa: urge escrever, reconectar, reencetar, espalhar otimismo, solidariedade, relativismo cosmopolita, soberania, laicismo e tolerância, crítica sem drama, humor e erudição mundana; reatar a política exterior e a interior.
Enfim, irmão, camarada, mestre, amigo…
Saúde e República galega!





