O Fardo do Carrasco: A Liturgia da Culpa Ocidental

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Um homem com a farda do exército dos Estados Unidos da América aproxima-se do balcão do restaurante de comida rápida numa vila americana qualquer, uma manhã qualquer, e faz o seu pedido. A funcionária aponta a encomenda, recebe o dinheiro e diz ao soldado: “Obrigado pelo seu serviço!” (Thank you for your service!).

Esta cena não é apenas uma fórmula conversacional. É o mais parecido com o ritual eclesiástico da Eucaristia que poderemos encontrar na América Protestante — onde as missas são espectáculos mediáticos e catárquicos desprovidos dos Mistérios que ainda são o acto principal da missa católica, a que tem ainda mais prestígio no resto do mundo “Ocidental”.

Sem o saber, a funcionária do restaurante de comida rápida que agradece ao homem fardado está a participar numa cerimónia sagrada de sangue e redenção sob a aparência duma fórmula de tratamento banal. E isto todos os dias, milhares de vezes por dia, em milhares de vilas e cidades, grandes e pequenas, de todo o país.

“Obrigado pelo seu serviço!” — e assim a ordem natural do cosmos: Nós em cima, eles em baixo, e o Deus omnipotente comprometido com Nós e com ninguém mais, e Nós com Ele. Tantas vezes repetida que Deus, a FOX News, Mark Rutte e Ursula von der Leyen não o podem possivelmente ignorar!

O mandato é divino e as nossas Elites só podem corresponder sob o perigo de se verem expulsas do Jardim do Paraíso VIP — aquele no qual se viaja exclusivamente em executiva, se fica alojado em cinco estrelas e se come nos três estrelas Michelin. As mãos que se estreitam no jardim VIP são exclusivamente mãos premiadas dos melhores escritores, poetas, filósofos, pintores, académicos e cientistas; apenas como concessão às massas no fundo da hierarquia se acede à foto e ao apertar da mão menos nobre do desportista medalhado.

“Obrigado pelo seu serviço!”. O homem fardado que recebe o agradecimento ocupa, inconscientemente, o lugar do animal levado ao altar para ser sacrificado e com a sua morte dar continuidade ao pacto. “Obrigado pelo seu serviço!” — e no seu corpo as cinco chagas dos cinco pregos que seguraram o Cordeiro à cruz abrem-se de novo, e fecham-se num instante à espera dum novo encontro e da repetição da fórmula.

O Homem Fardado Ocidental, para além do lugar do Sacrificado, ocupa também o lugar do Sacerdote. O serviço pelo qual lhe estamos gratos é o de carregar o peso moral dos actos hediondos que através Dele a sociedade Ocidental praticou e pratica sobre a Terra, contra a Terra. Suja as mãos, os pés, as coxas, o ventre, o peito, o rosto, o cabelo… não deixa um centímetro de si sem poluir; também a sua mente, toda, se corrompe segundo o próprio manual ético ocidental. Não deixa um só Imperativo Moral Iluminista e Racional sem conspurcar. E com isso mantém as ruas das nossas cidades limpas, com um brilho moral superior ao dum dia de Verão ao meio-dia, quando o sol com a sua força obriga as sombras a fugirem para o interior da terra.

Obrigado pelo seu serviço!

O sofrimento que nos atormenta não é o da família que expulsamos da sua casa para ali instalar um Farol da Nossa Democracia no meio de gente atrasada, ou o da mãe que não sabe quando verá ou se voltará a ver o filho adolescente raptado da sua casa pelo exército invasor, ou das mutilações e estupros, das humilhações diárias, da cobiça sem limites do bárbaro vestido de gala que te rouba a dignidade.

O sofrimento que nos atormenta — e o qual obsessivamente revisitamos em milhares de filmes, reportagens, livros — é o sofrimento do Homem Fardado Ocidental que carrega o fardo e a culpa do crime que comete por Nós, para Nós. E é com esta atenção obsessiva ao Homem Fardado e aos seus actos horríveis que queremos expiar a culpa colectiva. É esse pacto silencioso, o sacrifício do Homem Fardado, que selamos ao lhe dizermos: “Obrigado pelo teu serviço!”


Imagem: Batalha de Isandhlwana, Charles Edwin Fripp (1885)

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