A campainha da História

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Volto muitas vezes a um extraordinário livro do jornalista norte-americanos Otto Friedrich (1929-1995): Antes do Dilúvio (edição brasileira de 1997).

Não é um livro sobre Hitler. Nem sequer é um livro sobre o nazismo. É um livro sobre tudo o que existia antes deles. Sobre uma Berlim vibrante, cosmopolita, irreverente, artisticamente deslumbrante, convencida de que vivia o auge da modernidade. Uma cidade onde conviviam Einstein, Brecht, Marlene Dietrich, Otto Dix, George Grosz e tantos outros. Uma cidade onde quase ninguém imaginava que o chão já estava a desaparecer debaixo dos pés.

Talvez seja por isso que volto tantas vezes a esse livro.

Não para compreender o dilúvio. Esse já sabemos como terminou. Volto para tentar perceber porque é que quase ninguém reparou na subida da água. E, quanto mais leio, mais me convenço de que essa cegueira não foi um acidente da História. Fazia parte do método.

Durante anos, nas diferentes funções que fui desempenhando em Portugal e nas instituições europeias, cansei-me de falar da República de Weimar. Falava dela em reuniões, conferências, entrevistas, artigos, aulas e debates sobre pobreza, desigualdade, democracia e direitos humanos. Não por qualquer fascínio pela Alemanha dos anos 20, mas porque via demasiados sinais que me pareciam inquietantemente familiares.

Uns chamavam-me pessimista. Outros diziam que exagerava. A maior parte olhava para mim como quem ouve alguém falar de um obscuro campeonato regional de futebol alemão dos anos vinte. Weimar parecia-lhes apenas mais um capítulo poeirento dos livros de História.

O problema é que Weimar nunca foi apenas um capítulo da História alemã. Foi um aviso.

Durante muito tempo achei que a História tinha aprendido alguma coisa consigo própria. Era uma ideia confortável. Duas guerras mundiais, o Holocausto, dezenas de milhões de mortos, cidades reduzidas a escombros e uma Europa inteira a jurar “nunca mais”. Parecia um preço suficientemente elevado para não voltarmos a repetir o erro.

Afinal, parece que nos limitámos a decorar a lição.

Existe uma ideia curiosa de que o fascismo chega sempre de botas, camisa negra ou castanha, braço estendido e uma voz rouca a discursar para multidões. É um erro. O fascismo também evolui.

Hoje pode chegar de fato e gravata. Ou de calças de ganga e sapatilhas. Tem perfil no X, no TikTok e no Instagram. Sorri para as câmaras. Fala de liberdade de expressão enquanto escolhe cuidadosamente quem pode falar. Senta-se em debates televisivos. Vence eleições. Governa cidades, regiões e países.

Já não precisa de entrar pela força. Basta convencer-nos de que entrou porque a democracia o escolheu.

Os anos 20 do século passado nasceram à sombra da pandemia de gripe espanhola, de uma economia fragilizada, de uma desigualdade obscena, de uma profunda desconfiança nas instituições e de uma tecnologia que mudou radicalmente a forma como as pessoas recebiam informação. Os nossos nasceram à sombra da pandemia de COVID-19.

Na altura, a novidade chamava-se rádio. Hoje chama-se algoritmo. A tecnologia mudou. A manipulação apenas mudou de software. Os anos 30 também não começaram com campos de concentração. Começaram com frases.

“Os políticos são todos iguais.”

“É preciso alguém que ponha ordem nisto.”

“Os estrangeiros vivem à nossa custa.”

“Há demasiada gente a viver dos subsídios.”

Soa familiar?

Não é coincidência.

É método.

A História raramente copia os acontecimentos; copia os mecanismos.

Cada época escolhe os seus culpados de estimação. Ontem eram os judeus, os ciganos, os comunistas e os homossexuais. Hoje são os migrantes, as pessoas trans, os refugiados, os muçulmanos ou quem recebe uma prestação social.

O curioso é que quase nunca se culpa quem realmente concentra riqueza e poder. Um fundo financeiro compra bairros inteiros e chama-se investimento. Uma família recebe um apoio social e transforma-se numa ameaça ao país.

Nunca vi abrir um telejornal com a frase: “Hoje vamos conhecer o multimilionário que vive há décadas à custa dos benefícios fiscais.” Mas conheço reportagens suficientes sobre quem recebeu mais trinta euros de apoio social. Também nisso aprendemos pouco.

Entretanto, Viktor Orbán deixou de ser uma excentricidade húngara. Giorgia Meloni governa Itália. A AfD tornou-se uma força política incontornável na Alemanha. Marine Le Pen deixou de ser encarada como uma impossibilidade. Donald Trump regressou à Casa Branca. E, em Portugal, discursos que há poucos anos provocariam embaraço ocupam hoje o horário nobre e disputam eleições sem que quase ninguém se escandalize.

Não aconteceu de um dia para o outro. Foi acontecendo. É sempre assim. Primeiro normaliza-se a linguagem. Depois normalizam-se as ideias. Por fim, alguém pergunta, sinceramente espantado, quando foi que chegámos aqui. Como se tivéssemos acordado numa estação diferente sem nos lembrarmos da viagem.

Há, porém, uma lição de Weimar que continua a ser desconfortável. Hitler não chegou ao poder porque, de repente, a Alemanha acordou toda nazi. Chegou porque demasiadas elites conservadoras, económicas e industriais acharam que o conseguiam utilizar. Precisavam dele para derrotar a esquerda, conter a instabilidade e proteger os seus interesses. Convenceram-se de que o domesticavam. A História encarregou-se de lhes responder.

É por isso que desconfio sempre de quem hoje garante que “as instituições são suficientemente fortes”, que “eles moderam-se quando chegam ao poder” ou que “é melhor tê-los dentro do sistema”. Já ouvi argumentos demasiado parecidos.

Mudam os protagonistas. Mudam as bandeiras. Mudam as redes sociais. O método permanece.

Talvez o mais inquietante destes novos anos 20 seja precisamente isso. Não reconhecemos o cheiro da História enquanto ela ainda está a arder. Continuamos à espera de ouvir os passos. As botas. Os gritos. Mas a História raramente bate duas vezes à mesma porta. Prefere mudar a campainha.

Mas talvez o verdadeiro problema nem seja esse. O verdadeiro problema é continuarmos convencidos de que, quando ela voltar a tocar, havemos de a reconhecer.

Foi exactamente isso que também pensaram os que viveram antes do dilúvio.

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