Entre o antigo Japão e os primatas

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Muriel Barbery, por boca dessa agente encoberta da civilização que é a sua personagem Renné Michel, cita uma passagem dialogada dum filme de Yasujirō Ozu:

(Pause) Dans l’ancien Japon, il y a de belles choses. (Pause)

Sorvo no café. Que saudade. A beleza dos objetos de antes, feitos a mão, com cuidado, por bons artesãos. Os objetos, os textos, os desenhos, o trato, a alimentação, as interações e até as ideias, diria eu. A civilização enfim que estamos a perder, sugerida a exótico entre duas pausas (as pausas destas cenas são importantes como suspiros).

Na trégua fresca das primeiras horas dum dia qualquer deste verão infernal, antes de ir trabalhar, ainda dá para ler, acompanhando o ligeiro pequeno almoço. Reconforta.

Acontece-me – pois procuro alimentar o intelecto e os olhos fora de circuito – ultimamente ler cousas belas. Beleza escrita, que me faz pensar. Velhos tratados, ensaio contracorrente feminista e solarpunk, artigos de opinião escritos por gente out of place, ou de fronteira, tratados de arte e artesanias, poesia clássica ou ofertada pelas amizades, narrativa de qualquer época menos a que recomendam as seções das grandes livrarias e as montras repetidas das pequenas lojas.

Não gosto da literatura que se desenha em massa para oferecer emoções, para entreter sem fazer pensar. Também não do ensaio que externaliza o pensamento, que foge como autoajuda, nem menos do que ecoa esta realidade de polarizações inventadas e temas na moda global dos informativos.

Passam assim pela minha vida alimentos, objetos, pensamentos, ferramentas, pessoas… simples, sólidos, bem desenhados, agradáveis de modos e trato, conversas. Qualquer cousa que não me ofereça estuporante e estupefaciente emoção substitutiva, drama ou adrenalina senão prazeres estéticos e pensamentos vivos.
(Pausa)

Que contraste engraçado com a realidade imperiosa dos mass média. Imagens que se repetem e até falsificam como se a informação não pudesse ir sem elas, ausência de estrutura e hierarquia nos informativos, propaganda reiterações e repetições de frases valeiradas, tópicos, ideias antiquadas e rançadas estridentes, publicidade aliciando a consumir.

O jogo levou-nos de retorno ao início da Revolução industrial, sem que aproveitemos três séculos de pensamento económico, experiência de erros e prática social. Não aprendemos nada que agora ainda pretendemos automatizar e externalizar o pensamento.

Dêem licença se não parece que estamos a contemplar um enorme documentário de primatas, ao jeito fluvial de Balzac ou Tolstói. Uma sucessão de personagens e interações entre grupos de grandes símios, enlouquecidos pelas mudanças ambiente no ecossistema que os desconcertam e negam, alterados por um excesso de calor e consumo frenético de frutas repletas de alguma substância alucinógena.

Parece realmente que o progresso nos levou a não ser quem de assumir as mudanças e a não tratar de resolver a realidade abaladiça, senão a procurar estratégias refúgio muito primitivas, ou, melhor a aparentar que se faz, com discursos e de estratégias sociais, económicas, culturais e de poder, prestigiantes, mas ultrapassadas pela passagem do tempo.

Dir-se-ia que contemplamos – fascinados – uma série de conflitos entre famílias de primatas crescidos com as suas novas tecnologias usadas como armas, obsidiadas na defensa de espaços territoriais em decomposição, a tratarem de manter as saudosas velhas hierarquias e procurando retomar essa forma primitiva de religião que consiste em adorar, submetendo-se, numa fantasia de estabilidade e poder, o mito dos machos alfa de espada e lança por ferramenta.

(Pausa)

O macaco de cabelo vermelho ocupa todos os ecrãs. O que resta é o consumo, a ânsia de devorar tudo sem manhã, o abuso de fruta colorida e alucinógena, algo de sexo extravagante insinuado (os mais, pornografia barata na rede) e muito ruído.

A ressaca vai ser boa.

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