Oh que surpresa, uma trilogia. Arranjem-me um John Williams para banda sonora. Na Parte I desmontámos o dinheiro. Na Parte II desmontámos o campo de futebol. Hoje vamos desmontar o mapa.
Olha para um mapa. Qualquer mapa. Aquelas linhas que separam um país do outro, uma cor da outra, um nome do outro. Agora pergunta-te: quem as desenhou? E para quem?
As fronteiras não existem na natureza. Nenhum rio sabe que é a fronteira entre dois países. Nenhuma montanha sabe que de um lado se fala espanhol e do outro português. Nenhum pássaro apresenta passaporte. Aliás, se os pássaros precisassem de passaporte, o SEF já tinha falido. Outra vez. As fronteiras são uma ficção. Das mais eficazes que o poder alguma vez inventou. Porque conseguiram uma coisa extraordinária: convencer-te de que o chão muda de dono quando cruzas uma linha que não existe.
Patrick Geary, historiador de Princeton, escreveu um livro chamado O Mito das Nações onde desmonta isto com a delicadeza de um cirurgião e a paciência de um professor primário: a ideia de que existe um carácter nacional fixo, enraizado num passado distante e simples, não tem fundamento. Os povos da Europa são processos, diz ele. Não são coisas. São rios, não pedras. Formam-se e reformam-se ao longo da história. Até os Hunos, lembra Geary, só estiveram unidos durante os dez anos de Átila. Dez anos. E nós achamos que Portugal existe desde sempre. Ai minha nossa senhora da guia, desculpem a referência, mas é só um anzol para os académicos. Os outros podem continuar a respirar. Isto não vai cair no teste.
E essa ficção precisa de outra para sobreviver: a nação. A ideia de que há um “nós” e um “eles.” De que quem nasceu deste lado é família e quem nasceu do outro lado é estrangeiro. De que há uma identidade colectiva, uma essência partilhada, um sangue que nos une. Portugal. A pátria. Os descobrimentos. O fado. O bacalhau. A saudade. A bandeira. Puxa-se por esse fio e no fim aparece sempre o mesmo novelo: uma história inventada por quem precisava de soldados para morrer, de trabalhadores para produzir e de mulheres para parir uns e outros em silêncio.
As nações não nasceram do povo. Nasceram do poder. Foram desenhadas em gabinetes por homens que nunca pisaram as terras que dividiam. A Conferência de Berlim de 1884 cortou África com régua e esquadro. Não perguntaram aos povos. Não perguntaram aos rios. Traçaram linhas sobre pessoas como quem corta um bolo. E chamaram-lhe civilização.
E agora, em 2026, a mesma Europa que desenhou essas linhas quer que elas sirvam de muro. Quer fronteiras para pessoas. Nunca para dinheiro. O capital atravessa o mundo em milissegundos. Sem passaporte. Sem visto. Sem fila. Os setecentos e trinta milhões de dólares de Israel chegam a Portugal sem que ninguém peça papéis. O lítio de Covas do Barroso vai sair para fora sem que ninguém peça licença. O cobalto do Congo, o país onde nasci, alimenta todos os telemóveis do mundo sem que ninguém pergunte a que custo humano. As fronteiras existem para quem trabalha. Nunca para quem lucra.
O John Lennon pediu que imaginasses um mundo sem países. Foi assassinado. A canção sobreviveu. Sobreviveu e tornou-se hino de aeroporto. O capitalismo tem este dom: transforma a revolução em música de elevador e vende-a de volta. E continua a ser cantada em estádios de futebol durante competições entre países. A ironia não precisa de comentário.
E quando este sistema falha, quando a economia estala, quando as pessoas começam a sentir que alguma coisa está profundamente torta, o poder precisa de um culpado. Precisa de alguém para apontar. E é aqui que a fronteira se torna arma.
Vou pedir-te que te lembres de uma coisa que aprendeste na escola e que provavelmente arquivaste na gaveta das coisas tristes: a Segunda Guerra Mundial.
A Alemanha estava em ruínas. A economia tinha colapsado. A inflação comia o salário antes de ele chegar ao pão. O povo estava furioso, humilhado, à procura de uma explicação para a miséria. E o poder disse: a culpa é deles. Dos judeus. Dos ciganos. Dos homossexuais. Dos deficientes. Dos que não encaixam. Dos outros.
Mas antes de os matar, foi preciso desumanizá-los. Ninguém mata quem reconhece como igual. Para acabar com alguém, primeiro tens de transformar esse alguém em coisa. Em número. Em praga. Em ameaça. Em doença. Primeiro vem a palavra. Depois vem a lei. Depois vem o campo.
E eu pergunto, com todo o cuidado e toda a clareza: o que estamos a fazer agora é diferente?
Quando um deputado diz “ilegais” em vez de pessoas. Quando um primeiro-ministro diz “ameaça à identidade nacional.” Quando um partido inteiro se constrói sobre o medo do outro. Quando dezassete mil pessoas assinam uma petição para legalizar a tortura de quem ama diferente. Quando dois deputados perguntam quanto custa ao Estado a saúde de uma minoria. Quando uma mãe diz ao filho que tem uma doença pior do que cancro. Não estamos na Alemanha de 1933. Mas estamos a usar a mesma gramática. E a gramática começa quando o sistema te convence de que o teu inimigo é quem está ao teu lado e não quem está em cima de ti.
No Game of Thrones, construíram uma muralha de gelo para manter os selvagens do lado de fora. Os selvagens chamavam-se Free Folk, Povo Livre. Do lado de dentro, os nobres matavam-se uns aos outros pelo trono. A muralha nunca protegeu ninguém. Só dividiu quem devia estar junto. Soa familiar?
E é exactamente aqui que entra a Espanha.
A Espanha, com todos os seus defeitos e todas as suas lutas por terminar, tem feito qualquer coisa que incomoda profundamente o sistema: resistir. Reconheceu a Palestina quando a maioria da Europa hesitava. Tem uma lei de memória histórica que incomoda quem quer esquecer o franquismo. Tem uma lei de identidade de género que protege enquanto Portugal revoga. E agora eliminou Portugal do Mundial, o que é poético mas não é o ponto. O ponto é que a Espanha faz uma coisa imperdoável: mostra que há alternativa. E os mesmos comentadores que dizem “o mercado é livre” dizem que a Espanha “vai longe demais.” Porque a alternativa, para quem lucra com o sistema, é mais perigosa do que qualquer bomba.
Mas antes de ser Espanha, antes de ser Portugal, antes de haver linha nenhuma no mapa, havia um espaço entre o Minho e o Douro e a Galiza que não precisava de nome. Falavam a mesma língua. Cantavam as mesmas cantigas. As cantigas de amigo, escritas em galaico-português, eram a voz de mulheres que esperavam. Escritas por homens, sim. Mas a voz era delas. A poesia existiu antes da fronteira. E a voz das mulheres existiu antes da poesia. E quando a fronteira chegou, a poesia não parou. Passou para o outro lado. Como a água. Como a música. Como tudo o que é vivo e se recusa a ser dividido por uma linha que alguém desenhou num mapa que ninguém lhe pediu.
Quando vou à Galiza, não preciso de tradução. Quando um galego vem ao Porto, não precisa de visto. Sabem porquê? Porque a fronteira mais antiga da Europa é também a mais absurda. Separou um povo que partilha a mesma raiz, a mesma saudade, a mesma chuva, o mesmo verde, e o mesmo hábito de resolver tudo com caldo verde e vinho tinto. Uma mulher nascida no Congo a defender a unidade galaico-portuguesa. Se isto não é prova de que as fronteiras são uma ficção, não sei o que é. O Tratado de Zamora, em 1143, criou Portugal. Mas não criou os portugueses. Os portugueses, e os galegos, já lá estavam. E continuam.
E é por isso que o ódio se torna política. Não por acidente. Por estratégia. Divide. Aponta. Desumaniza. Repete.
A ficção da fronteira é a ficção que mantém tudo no sítio. É a que te diz que o teu vizinho é o problema. Que o imigrante rouba o emprego. Que o estrangeiro destrói a cultura. Que o outro é uma ameaça. E enquanto olhas para o lado, enquanto fechas a porta, enquanto constróis o muro, quem está em cima de ti leva tudo. O lítio. O cobalto. A água. A terra. O futuro dos teus filhos. Leva tudo e deixa-te com uma bandeira e um sentimento de pertença que não paga renda.
Na próxima vez que olhares para alguém e vires um outro em vez de um igual, pára. Pára e pergunta-te: quem é que lucra com esta divisão? Quem é que precisa que eu tenha medo desta pessoa? E porque é que o meu medo é sempre apontado para baixo e nunca para cima?
A fronteira é a ficção mais cara do mundo. E quem a paga somos nós. Quem trabalha e quem cuida. Quem constrói e quem limpa. Quem ensina e quem aprende. Quem carrega no ventre e quem chega à luz. Quem fica e quem parte. Quem tem realmente medo da fronteira? Quem a cruza? Ou quem a desenhou? Porque quem a cruza já perdeu tudo. Não tem mais nada a perder. Quem tem medo é quem tem tudo a perder se a linha desaparecer. E a linha, quando desaparece, não leva os povos. Leva os donos.





