A crise entre pensar e criar

Há dias em que tudo parece estar no lugar. O computador está ligado, o documento aberto, o cursor pisca à espera de uma frase. Sentamo-nos diante da tela convencidos de que vamos produzir alguma coisa. Talvez um artigo, um poema, uma história, uma ideia. Mas os minutos passam e nada acontece. Pensamos, apagamos, reescrevemos e voltamos a apagar. Existe algo dentro de nós que queremos dizer, mas não conseguimos encontrar as palavras para dizê-lo. É nesse espaço entre aquilo que pensamos e aquilo que conseguimos produzir que nasce uma das experiências mais frustrantes de quem escreve e cria: a crise …

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Passar à terceira pessoa

Decidi tratar-te por tu. Talvez só amigos e família estejam a ler isto, mas se não couberes nessas categorias, então desculpa a confiança. Gosto de ver na pessoa a que me dirijo exatamente a pessoa a que me dirijo. Não aquilo que me disseram dela, nem aquilo que eu tenha imaginado. Afinal, mesmo que não te conheça, serás um ser humano, em toda a sua completude. Eu quero imaginar-te como ser complexo, e só consigo fazê-lo se te imaginar mais perto. Gosto bastante de pensar na natureza da linguagem. Se estivesse a dizer isto de qualquer outra pessoa, poderia estar …

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Da esperança da poesia (ou a quinta carta)

Conheci o poeta Reginald Dwayne Betts aos poucos, como se houvesse ali um conceito demasiado revolucionário a precisar de ser recebido em doses devagarinhas. Certa vez criminoso, depois recluso, agora advogado de formação, mas também ativista e sobretudo poeta, constrói a sua poesia em torno da experiência da vida. A sua experiência, antes de qualquer outra, mas também a da condição humana no sentido mais amplo, abraçando o erro, a identidade, o questionamento, a memória, a sobrevivência, a redenção. Mas escrever poemas não é o único caminho por onde Dwayne Betts vive a poesia: ele também é bibliotecário. O meu …

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Adeus, caro Foz

Doeu ler na imprensa a morte do Foz. Avisada, pela saúde quebrada, há anos, mas súbita e no dia do seu 85 aniversário. Lembro o sorriso pícaro, o piscar dos seus olhos danados, os lentes tortos, a gargalhada pronta e recolhida, como também o pronto do génio – sempre a desculpar – que reagia ante o abuso e a injustiça, qualquer uma.Lembro a voz característica, a presença sólida, mas frágil, agachando a dor. A palavra repleta de erudição literária, os fundos da memória histórica do ativista. A França, a tradição republicana, os exílios, os velhos livros galegos que tanto amamos. …

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A máquina de costura

Quando a trouxeram para casa, vinha embrulhada num cobertor velho e acompanhada por um silêncio respeitoso, como se entrasse alguém importante. A Maria da Luz tinha vinte e poucos anos, dois filhos pequenos e um marido emigrado em França. A máquina Singer foi comprada em prestações, pagas devagar, com dinheiro contado e ovos vendidos às escondidas na feira de Montalegre. Na aldeia comentou-se. “Houve lá quem comprasse uma máquina de costura.” Naquele tempo, aquilo não era capricho. Era quase uma decisão estratégica de sobrevivência. A Singer ficou encostada à janela da cozinha. De dia apanhava a luz fria da montanha. …

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Nem a natureza os quer. Imagina nós.

A elite adora a natureza. Não para a proteger. Para se comparar a ela. É uma tradição antiga e muito conveniente: o forte devora o fraco, é a lei da selva, o capitalismo é apenas a versão civilizada do mesmo princípio eterno. Os grandes predadores no topo, os pequenos herbívoros em baixo, e assim foi, é, e sempre será. Amén. Há só um problema com esta narrativa: é mentira biológica. Não apenas política. Comecemos pelo mais famoso habitante desta fantasia: o leão. O suposto rei da selva, símbolo de poder, de domínio, de hierarquia natural. O animal que qualquer CEO …

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O mundo precisa de mais febras

A palavra comunidade vem de longe. Do latim communitas, derivado de communis: aquilo que é comum, aquilo que é partilhado. Na raiz anda também o munus. Uma palavra curiosa, porque pode significar dever, encargo, serviço, mas também dádiva. Aquilo que cada um oferece aos outros. Gosto desta ideia. Uma comunidade não é apenas um conjunto de pessoas que têm alguma coisa em comum. É um conjunto de pessoas que dão alguma coisa umas às outras. Talvez seja por isso que me tenho lembrado tanto desta palavra desde o Rock no Rio Febras. Sim, o Rock no Rio Febras. Um festival onde passaram este ano, segundo as …

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As Bandeiras de Cisternino

Não há vilarejo da Puglia que não tenha a memória da guerra gravada em pedra. Profundamente gravada em pedra. O sangue derramado nas grandes guerras do século XX incrustou-se para sempre, na Itália setentrional, em monumentos aos “caduti”, em praças maiores ou largos mais singelos, para que jamais se esqueçam as vidas perdidas, tantas vezes, a defender uma causa que, à excepção dos cerca de 50 mil guerrilheiros mortos a combater o fascismo de Mussolini, talvez nem fosse a causa de cada um dos mais de um milhão de jovens italianos caídos no campo de batalha entre 1914 e 1918, …

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Crónica de uma ovelha sem vaidade 

Chamam-me Minerva. Sou uma Churra do Minho. Vim à Semana do Barrosão para representar a minha raça. Achei que ia encontrar animais de trabalho. Encontrei candidatos a influenciadores rurais. O primeiro foi o porco. Anda tão cheio de si que suspeito que já não grunhe. Faz discursos. Tem um ar de quem acredita sinceramente que, se existisse um Ministério da Vaidade Animal, era nomeado sem concurso. Passa o dia a esticar o focinho para as fotografias. Olha para mim e diz: “Repara na minha constituição.” Eu reparo. Constituição tem. Modéstia é que nunca chegou à exploração. Depois apareceu o galo. …

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O voo e a vontade

Em latim, ego volo (de volere, eu quero) e ego volo (de volare, eu voo) eram curiosamente homónimos. Nada tinham a ver em significado e origem, mas acabaram por coincidir. Coisas da vida. Façamos, no entanto, como se tivessem algo a ver, um pouco por volere e um pouco por volare. O espanhol é uma língua que na Galiza conhecemos demasiado bem, e por isso os usos lusófonos nos podem chocar às vezes. Nessa língua, voluntad tem um significado quase idêntico à nossa vontade, mas usos que o fazem diferenciar-se bastante, mais ligados ao conceito de força de vontade. Não …

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A Conversão ao Zeitgeist: Agostinho de Hipona e a Geopolítica do Cristianismo Imperial

Em 313 d.C., os imperadores romanos do Ocidente, Constantino, e do Oriente, Licínio, promulgaram o Édito de Milão, que instituiu o fim da perseguição ao cristianismo e concedeu liberdade de culto e neutralidade religiosa ao Império. Anos mais tarde, em 380 d.C., o Imperador Teodósio I tornou o cristianismo — e, em particular, o credo cristão saído do Concílio de Niceia («Jesus Cristo é consubstancial ao Pai, Homoousios») — a religião exclusiva e oficial do Estado Romano, proibindo quaisquer outras práticas através do Édito de Tessalónica.Recorrendo ao conceito alemão de Zeitgeist — ou «espírito da época», na tradução possível —, …

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Entre o antigo Japão e os primatas

Muriel Barbery, por boca dessa agente encoberta da civilização que é a sua personagem Renné Michel, cita uma passagem dialogada dum filme de Yasujirō Ozu: (Pause) Dans l’ancien Japon, il y a de belles choses. (Pause) Sorvo no café. Que saudade. A beleza dos objetos de antes, feitos a mão, com cuidado, por bons artesãos. Os objetos, os textos, os desenhos, o trato, a alimentação, as interações e até as ideias, diria eu. A civilização enfim que estamos a perder, sugerida a exótico entre duas pausas (as pausas destas cenas são importantes como suspiros). Na trégua fresca das primeiras horas …

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O Fardo do Carrasco: A Liturgia da Culpa Ocidental

Um homem com a farda do exército dos Estados Unidos da América aproxima-se do balcão do restaurante de comida rápida numa vila americana qualquer, uma manhã qualquer, e faz o seu pedido. A funcionária aponta a encomenda, recebe o dinheiro e diz ao soldado: “Obrigado pelo seu serviço!” (Thank you for your service!). Esta cena não é apenas uma fórmula conversacional. É o mais parecido com o ritual eclesiástico da Eucaristia que poderemos encontrar na América Protestante — onde as missas são espectáculos mediáticos e catárquicos desprovidos dos Mistérios que ainda são o acto principal da missa católica, a que …

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A nobre linhagem de Leopoldino

Chamam-me Leopoldino. Sou descendente de uma família antiga. Gente de respeito. Dizem que um trisavô meu cantava em Tourém antes do sol aparecer por trás da serra. Outro fazia rondas em Pitões das Júnias. Um tio-avô viveu em Covelães. E ainda hoje há quem jure que um primo distante governou durante anos um quintal inteiro em Solveira apenas com um olhar atravessado. Nós, os galos, nunca precisámos de cargos. Bastava-nos uma capoeira. Quando soube que vinha para a Semana do Barrosão, endireitei logo a crista. Afinal, era regressar às origens. O sangue puxava-me para estas terras. Foi então que um …

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Vila Algarve: Museu ao ar livre ou uma casa abandonada?

Imagine passar todos os dias por um lugar onde pessoas foram interrogadas e torturadas durante a luta de libertação nacional e não saber absolutamente nada sobre isso. Imagine, ainda, que esse lugar continua de pé, no coração da cidade, mas que o tempo, o abandono e o silêncio parecem ter decidido contar outra história. É assim a Vila Algarve. Hoje, para muitos habitantes de Maputo, pode ser apenas mais uma construção portuguesa antiga, deteriorada pelo tempo. Uma casa abandonada. Um edifício que já ninguém parece querer. Mas aquelas paredes carregam uma história que não deveria ser esquecida. Durante as décadas …

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A Ficção Que Te Paga o Salário — Parte III

Oh que surpresa, uma trilogia. Arranjem-me um John Williams para banda sonora. Na Parte I desmontámos o dinheiro. Na Parte II desmontámos o campo de futebol. Hoje vamos desmontar o mapa. Olha para um mapa. Qualquer mapa. Aquelas linhas que separam um país do outro, uma cor da outra, um nome do outro. Agora pergunta-te: quem as desenhou? E para quem? As fronteiras não existem na natureza. Nenhum rio sabe que é a fronteira entre dois países. Nenhuma montanha sabe que de um lado se fala espanhol e do outro português. Nenhum pássaro apresenta passaporte. Aliás, se os pássaros precisassem …

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A campainha da História

Volto muitas vezes a um extraordinário livro do jornalista norte-americanos Otto Friedrich (1929-1995): Antes do Dilúvio (edição brasileira de 1997). Não é um livro sobre Hitler. Nem sequer é um livro sobre o nazismo. É um livro sobre tudo o que existia antes deles. Sobre uma Berlim vibrante, cosmopolita, irreverente, artisticamente deslumbrante, convencida de que vivia o auge da modernidade. Uma cidade onde conviviam Einstein, Brecht, Marlene Dietrich, Otto Dix, George Grosz e tantos outros. Uma cidade onde quase ninguém imaginava que o chão já estava a desaparecer debaixo dos pés. Talvez seja por isso que volto tantas vezes a esse …

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E aí, respeita as minas?

O futebol, depois da copa das bets, vem flertando com setores e empresas que acendem as polêmicas entre torcedores e até com o Ministério Público. É o que vem acontecendo com o recente contrato do Sport Club Corinthians Paulista, fundado em 1910, com a empresa Fatal Fans, uma plataforma brasileira de monetização de conteúdo adulto por assinatura, desenvolvida pela software house Atlas Technologies, e que pertence ao mesmo grupo empresarial que mantém o site de anúncios de acompanhantes, o Fatal Model. O contrato prevê investimento recorde de R$ 22 milhões (cerca de 3.770.000€) até dezembro de 2027 para estampar a …

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Timor em Asean

A Nova Fronteira Lusófona: O Impacto de TIMOR LESTE na ASEAN e na CPLP+ e o Despertar do Sudeste Asiático

O Mundo em Língua Portuguesa Opina, uma rúbrica mensal de Paulo Lamas O Elo Transoceânico da Lusofonia Para quem observa o mundo a partir de Lisboa, Brasília, Luanda ou Maputo, o Sudeste Asiático pode parecer uma realidade geográfica e politicamente distante. No entanto, é precisamente nessa região que se consolidou um dos blocos mais dinâmicos e influentes do planeta: a ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático). Durante décadas, este vasto mercado de mais de 680 milhões de pessoas operou longe dos holofotes do espaço lusófono. Mas o cenário mudou drasticamente. A recente e histórica integração de Timor-Leste como o …

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Discurso sobre o amor com soneto de fundo

Amor é fogo que arde sem se ver, mas logo se nota quando aquece a pele. As emoções vivem no corpo, e isso é uma parte essencial do seu próprio significado como conceito. Elas são o lugar em que o significado e o corpo coincidem, em que o somático é também semântico. Os opostos mais básicos estão entrelaçados, e a poesia, a arte, é a sua linguagem natural. O que se sente não cabe nas palavras. Será sentido, mas não tem sentido: simplesmente é. Pensamos as emoções como boas e más, próximas ou contrárias, e às vezes até criamos um …

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