Zeca Afonso, Álvaro Siza e José Saramago maravilham em Vite de Compostela

O cantor e músico Zeca Afonso, o arquiteto Álvaro Siza Vieira, e o escritor José Saramago, três das pessoas que melhor identificam Portugal e a sua cultura internacionalmente, conheceram Vite, um bairro não turístico de Santiago de Compostela, e são nele lembrados por produtos que maravilham. As suas singulares histórias abrem uma oportunidade a uma experiência diferente e a gozar de uma maneira ativa de um espaço muito atrativo e enriquecedor, que não costuma ser alvo das atenções das gentes que peregrinam ou visitam a cidade. Estreia de Grândola Vila Morena As vivendas de Vite começaram a ser habitadas em …

Continue lendo

Mar

Mar.Vem comigo.Acalma-me o peito.Enquanto juntos agitamos o mundo. Mar.Do outro lado de ti.Há gente que embarcaGritam “Justiça!” noutros mundos. Mar.Essas são pessoas bravas!Trá-los de volta a casa. Mar.Que possas tu libertarQuem do outro lado do marAnseia por voltar. Mar.Ouve as suas preces.Ouve o que pedem.Uma terra para viver.Alguma coisa para comer. Mar.Ninguém deveria sonharCom um tecto onde viverQue não seja uma tenda encharcadaOnde já não sobra nada Mar.Não há como voltarDa humanidade que não temosDe cada vez que viramos a cara Mar.Que possamos nós também regressarÀ humanidade de outroraSem que seja só por moda Da fotografia © Maria Pedro Silva

Continue lendo

Da boa influência no mundo (ou a segunda carta)

Fala – dizia Eurípedes –, caso tenhas palavras mais fortes do que o silêncio… ou então, guarda o silêncio, mas é fácil, hoje, desobedecer-lhe e juntar as minhas palavras a tantas outras que, por esse mundo fora, falam e escrevem, festejando a mesma circunstância. Celebrámos, há poucos dias, o centésimo aniversário dessa maravilhosa pessoa que é Sir David Attenborough. O estar uma pessoa fisicamente presente nas festas do seu próprio centenário, é já um feito digno de nota mas, neste caso em particular, os cem anos que se celebram trazem tanto de riqueza, de sabedoria, de partilha, de maravilhamento, de …

Continue lendo

Adolescência, Gravidez e Pressões Sociais

As gravidezes na adolescência continuam a representar uma das maiores preocupações sociais em Moçambique. Em bairros urbanos e zonas periféricas, tornou-se cada vez mais comum encontrar meninas a partir dos 14 anos que interrompem os estudos para assumir responsabilidades de maternidade. O que mais preocupa não é apenas o aumento desses casos, mas a forma como a sociedade começa lentamente a encarar esta realidade como algo normal. Grande parte dessas adolescentes envolve-se com homens mais velhos, muitos deles casados, movidas pela necessidade de obter dinheiro, roupas, telemóveis, bebidas, cosméticos e outros bens materiais que representam status social entre os jovens. …

Continue lendo

Próxima paragem: Inferno?

Já são consideráveis as filas de pessoas que, civilizadamente, se organizam para esperar pelas várias linhas de autocarro que confluem e partem da estação da Casa da Música, no Porto, a uma segunda-feira, às 7 da manhã.Vão, umas quantas, atravessar a ponte da Arrábida, para sul, nota-se nas faces o despertar já cansado, e a semana está só no começo. São, na maior parte, homens. Jovens. Africanos subsaarianos, africanos magrebinos, brasileiros, alguns asiáticos. Calados, cabisbaixos, humildes, trabalhadores, um fala comigo a custo, quando lhe dou o lugar na fila, porque, digo-lhe, ele já ali estava, só que na fila errada. …

Continue lendo

Educação sexual

Constata-se que, enquanto a agressão machista – verbal, emocional, afetiva ou física – continua, e as dificuldades das mulheres em alcançar uma igualdade efetiva de direitos e reconhecimento no local de trabalho persistem, proliferam discursos que defendem que o feminismo foi longe demais. Abundam as referências ao «supremacismo feminista», denuncia-se a suposta discriminação positiva e difunde-se até a ideia de que as mulheres se aproveitam das regras através de falsas acusações ou exagerando comportamentos considerados «inocentes». Ao mesmo tempo, o binarismo de género e a defesa dos papéis tradicionais associados à masculinidade e feminilidade clássicas estão a registar um forte …

Continue lendo

Chuck Norris

Quando tentamos definir a saudade, a sua natureza inefável é a primeira a revelar-se. Assim, uma pessoa saudosa, confrontada com a questão, mal conseguirá explicar o que sente. No seu livro Filosofia da Saudade, Ramon Pinheiro refere-se a ela como um traço característico da personalidade de um povo ou, por assim dizer, de uma “comunidade espiritual” — o grande mistério galaico-português. Contudo, é mais habitual que sejam os forasteiros a atribuir uma alma comum aos naturais de outro país. Nesse sentido, a abundância de clichés sobre os galegos não deixa lugar a dúvidas quanto à sua singularidade. Um dos mais …

Continue lendo

Estatuto da Carreira Docente: o que está em causa?

Amanhã 16 de maio está convocada uma manifestação nacional de professores em Lisboa como ação de protesto contra o conteúdo e as formas do processo negocial do futuro Estatuto da Carreira Docente que se tem vindo a dar entre o Ministério de Educação, Ciência e Inovação – MECI e os sindicatos do setor. Será o ponto alto da crescente oposição e da progressiva tomada de consciência por parte da classe docente da gravidade dos planos que esta equipa ministerial tem para o futuro da profissão e da escola pública portuguesa como um todo, grande conquista da Revolução de Abril. É …

Continue lendo

A IA e o teste da Carmen

Muitas pessoas conhecem Alan Turing e, em particular, o seu famoso teste através das palestras de divulgação sobre a Inteligência Artificial. Esse teste, cujo nome original é “jogo da imitação“, é amplamente referido, mas poucos conhecem os seus detalhes concretos, mesmo entre os estudantes de Inteligência Artificial e áreas afins nas universidades. No artigo “Computing Machinery and Intelligence“, publicado em 1950, Alan Turing propôs um critério comportamental para avaliar se uma máquina consegue exibir inteligência semelhante à humana: num jogo de imitação, um interrogador humano comunica-se apenas por texto com dous interlocutores escondidos, um humano real e uma máquina, e, …

Continue lendo

17 M | Begonha Caamanho, uma das nossas

Begonha Caamanho passou polo mundo entre 1964 e 2014. Foram 50 anos em que se deixou fascinar polo calor dos afetos, polo prazer arredor do conhecimento e pola fúria revolucionária de mudar o mundo. Olhou com curiosidade e fascinação para um poema, para a flor das cebolas, para o Movimento de Libertação Nacional Palestino. Gozou do teatro, da literatura. Adorou a música. Vibrou em concertos, em foliadas. Em bares com música muito alta. Entendeu a cultura ao estilo da lavrança tradicional, como um ofício, um cultivo, como um jeito de estar no mundo. Era público frequente do Festival de Poesia …

Continue lendo
alminhas

As Alminhas: uma leitura etnológica

As alminhas constituem uma das expressões mais significativas da religiosidade popular no espaço cultural galego-português. Presentes sobretudo em zonas rurais do norte e centro de Portugal e em grande parte da Galiza,estas pequenas construções devocionais — nichos, capelinhas ou painéis — são dedicadas às almas do Purgatório e fazem parte da paisagem simbólica das comunidades desde, pelo menos, a Idade Moderna. A origem das alminhas está intimamente ligada à consolidação da doutrina do Purgatório, difundida pela Igreja Católica a partir da Baixa Idade Média e reforçada após o Concílio de Trento (século XVI). A ideia de um espaço intermédio de purificação …

Continue lendo

Internet é ainda democracia

“Lembro que eu tinha vinte anos e era feliz. Talvez fosse já um primeiro surto de masoquismo pequeno-burguês, quem sabe? Era feliz porque estava tudo claro. Sabia o porquê eu estava preso. Além disso, os maus estavam num lado, os bons no outro, como nos contos de fadas. E eu estava com os bons. O fascismo era o Mal e nós lutávamos contra ele. Tinha vinte anos e era feliz..“Federico Sánchez Lembro-me de 1996, quando escrevi um artigo intitulado “Internet e Democracia” para o fanzine anarquista O Sopapom, da Corunha. O texto tratava do impacto que a descoberta do primeiro …

Continue lendo

A única fronteira, a infinidade

A Raia galaico-portuguesa, durante 8 longos séculos (1143-1991), foi a cicatriz de uma tragédia esquecida no tempo. Pessoas de um lado e outro se entenderam, quer fosse cultural, linguística ou economicamente, formando um conjunto por todos sabido mas por poucos reconhecido. Nos longos anos das ditaduras ibéricas, foi mais do que uma linha traçada nos mapas: constituiu-se como um espaço de silêncio, vigilância e, paradoxalmente, de cumplicidade humana. Entre o Estado Novo português e o franquismo espanhol, a fronteira era simultaneamente barreira e refúgio, onde o controlo político coexistia com práticas quotidianas de solidariedade, contrabando e partilha cultural. Nesse território …

Continue lendo

Carta aberta à Voz

Esta é uma carta aberta à Voz. Precisa de ser ouvida; urge ser usada, escutada e utilizada, sem preconceitos, com todo o seu esplendor. Espera-se, na arte, que a voz seja perfeita; espera-se sempre o virtuosismo e a eloquência. Espera-se da voz o mesmo que se espera da mulher na sociedade: espera-se tudo dela, exige-se a perfeição. A possibilidade de fracasso e de erro é tão ténue: a sociedade, tal como o público, atenta ao ínfimo pormenor onde algo pode falhar; observa-se qualquer indício de fracasso, o exagero, a fraqueza. Apenas aceitam a perfeição e rejeitam a mulher como rejeitam …

Continue lendo

No Brasil, o 5 de maio segue sem relevância popular

Desde 2009, o dia 5 de maio foi instituído pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa como o Dia Mundial da Língua Portuguesa. De lá para cá, a data é lembrada, sobretudo, por instituições públicas e por profissionais que atuam diretamente com o tema. Mas e a população brasileira em geral? Há, de fato, interesse pelo significado da data ou pelos demais países que compartilham o mesmo idioma? Durante cinco anos estive à frente da única instituição voltada à juventude dos países lusófonos — três como coordenador e dois como presidente. Nesse período, sendo brasileiro, percebi no cotidiano uma evidente …

Continue lendo

Sete (ou oito) costelas galegas na Literatura Portuguesa

Luis de Camões (1531?-1580), Eça de Queirós (1845-1900), Fernando Pessoa (1888-1935), Alfredo Pedro Guisado (1891-1975), Augusto Abelaira (1926-2003), Fernando Assis Pacheco (1937-1995) e José Carlos González (1937-2000): estes sete nomes bem conhecidos da Literatura Portuguesa compartilham o terem antepassados nascidos na Galiza. E essas sete costelas provam o “Génio literário português com ascendência galega”, como sintetizou Carlos Quiroga, professor da Universidade de Santiago de Compostela e escritor, nas Jornadas de Língua e + realizadas o 21 de março no Museu da Límia, em Vilar de Santos (Ourense), sob organização da Academia Galega da Língua Portuguesa. E podem ser porventura oito, …

Continue lendo

A Rua das Pessoas Bonitas

Hoje vi pessoas bonitas, na rua.As pessoas bonitas sonham. Ainda sonham. Ainda há ruas cheias de pessoas bonitas porque ainda há quem resista, insista na ideia de uma cidade que possa dormir.Só a possibilidade do sono é condição do sonho. A cidade acordada, a cidade vigilante e receosa do outro, a cidade que desconfia, que odeia, que compete pelo prémio de desempenho, a cidade do medo do futuro, da insegurança no presente, a cidade onde todo o chão é precário, é uma cidade que está a sabotar-nos o sonho. É uma cidade que, se o deixarmos, nos torna feios, sós, …

Continue lendo

25 de Abril e África: uma revolução entrelaçada

O 25 de Abril de 1974 é frequentemente apresentado como um marco exclusivamente português, símbolo da transição democrática e do fim de um regime autoritário de longa duração. Contudo, uma análise mais ampla revela que esta revolução não pode ser compreendida de forma isolada. Ela está profundamente ligada às dinâmicas históricas, políticas e militares que se desenrolavam no continente africano, particularmente nos territórios sob domínio colonial português. As guerras de libertação em África, na Guiné-Bissau, em Angola e em Moçambique não foram apenas conflitos periféricos de um império em declínio. Foram processos estruturantes que expuseram os limites políticos, económicos e …

Continue lendo

Do começo das coisas (ou a primeira carta)

Fico sempre surpreendida com a simplicidade – é quase uma desfaçatez natural – com que as ‘coisas da vida’ se nos atravessam pela frente, em dias insuspeitos, sobretudo aquelas ‘coisas’ que a princípio parecem pequenos nadas para, logo a seguir, se revelarem de enormíssima importância. Volto uma e outra vez à sensação de que a existência respira uma espécie de subtileza bege, uma força mansinha que nos empurra no sentido certo, consciente do caminho, mesmo quando nós a seguimos inteiramente ignorantes, tanto do percurso como do destino da viagem. (Escrevo o primeiro parágrafo desta minha primeira carta. Pauso e leio …

Continue lendo

O 25 de Abril ainda importa para a juventude moçambicana?

Quando se fala da Revolução dos Cravos, a narrativa dominante é clara: foi o momento que abriu caminho para a independência de Moçambique. Mas, quase cinquenta anos depois, a pergunta que se impõe é outra: essa data ainda significa algo para a juventude moçambicana de hoje? Para muitos jovens, o 25 de Abril é apenas um conteúdo escolar, uma referência distante, associada a discursos políticos e cerimónias oficiais. Não é uma experiência vivida, nem uma memória herdada de forma concreta no cotidiano. Ao contrário das gerações que testemunharam a transição colonial, a juventude atual cresceu num contexto marcado por outros …

Continue lendo