prometeu pensativo com um dedo no lábio

Pós-humanismo

No âmbito do pensamento contemporâneo foi ganhando peso, ao longo das últimas décadas, uma crítica profunda à noção de “humano” construída pela tradição ocidental. Torna-se cada vez mais evidente que essa ideia, apresentada historicamente como universal e neutra, funcionou na realidade como um modelo restritivo que deixou de fora múltiplas formas de existência e experiência. A partir desta constatação emerge o que hoje conhecemos como pós-humanismo: uma corrente plural que, na falta de um termo mais preciso, recorre ao prefixo “pós” para indicar não tanto a superação do humano, mas a revisão crítica da sua definição. Entre as suas figuras …

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pintura oriental a mostrar uma cabana e uma árvore numa pequena ilha no meio dum lago de águas mansas

O Silêncio como Último Luxo

Vivemos rodeados de ruído. Não apenas o ruído das cidades, mas o ruído permanente das notificações, das opiniões instantâneas, das urgências artificiais. O mundo moderno não nos deixa em paz — e talvez seja esse o seu maior triunfo e o seu maior fracasso. Nunca estivemos tão ligados; nunca estivemos tão pouco presentes. Ler um livro tornou-se um desafio. Ouvir uma música até ao fim, um exercício de resistência. Apreciar uma obra, uma paisagem, uma ideia, exige hoje algo raro: silêncio interior. Não apenas a ausência de som, mas a calma necessária para estar verdadeiramente ali, sem pressa de chegar …

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jornais num balcão

Quando a Verdade Precisa de Redações Fortes

Nunca houve tanta informação disponível — e nunca foi tão difícil encontrar a verdade. Vivemos numa época em que as notícias circulam à velocidade de um clique, libertas de mediação, contexto ou responsabilidade. As redes sociais democratizaram a palavra, mas também banalizaram a mentira. Neste cenário turbulento, o papel dos media nunca foi tão essencial — nem tão exigente. Os jornais, as revistas e as grandes publicações mundiais deixaram de ser apenas veículos de notícias. Tornaram-se guardiões de um princípio ameaçado: a verificação dos factos. Num espaço público inundado por rumores, teorias conspirativas e manipulação emocional, o jornalismo sério representa …

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imagem da 1ª reuniao do Observatório da Lusofonia do governo galego

Que lusofonia para a Galiza?

No passado dia 9 de outubro de 2025 realizamos em Compostela a conferência «Sociedade Civil, Língua e Relações Internacionais» em colaboração com a Comissão Temática de Promoção e Difusão da Língua Portuguesa, dos Observadores Consultivos da CPLP (Comissão Temática). Um evento como este é um signo de esperança em que as ações vindas da base, mais cedo ou mais tarde, acabam dando o resultado esperado, multiplicando os efeitos positivos das atividades de grupos reduzidos de pessoas em benefício de toda a comunidade, e com um reconhecimento formal a nível galego e internacional. Esta série de conferências da Comissão Temática já …

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desenho de um homem, a gritar com o braço levantado e uma pasta de couro baixo o braço

A Agulha Invisível

Apesar de dar aulas de jornalismo há quase vinte anos – comecei este fascinante caminho, de forma muito singela, com umas poucas horas, em 2006 e, desde então, nunca mais deixei de acreditar que é num bom sistema de educação e de formação que podemos, de facto, contribuir para mudar o mundo – nunca dei disciplinas de teorias da Comunicação. As teorias da Comunicação, no entanto, dão comigo, constantemente. Especialmente as que entraram no desuso do tempo – das que, justamente, melhores estudos e quem os pensou bem tornaram naturalmente obsoletas, às que foram precipitadamente declaradas inúteis pela máquina de …

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imagem de IA duma escola cheia de ecrãs e um robot

Inteligência Artificial e Escola: Entre o Medo e a Responsabilidade

A Inteligência Artificial entrou na escola sem pedir licença. Não passou pela porta principal, nem esperou por regulamentos ou consensos pedagógicos. Instalou-se nos telemóveis, nos computadores, nas mochilas invisíveis dos alunos. E, como sempre acontece quando a tecnologia avança mais depressa do que a reflexão, o primeiro sentimento foi o medo. Pais receiam que os filhos deixem de pensar. Professores interrogam-se sobre a autenticidade dos trabalhos. Escolas procuram regras para distinguir o esforço genuíno da facilidade artificial. A pergunta repete-se, com ansiedade legítima: como saber o que foi feito pelo aluno e o que foi feito pela máquina? Mas talvez …

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cravo vermelho segurado por um punho contra o céu. A preto e branco

Democracia: O Valor que Resiste Quando Tudo Vacila

A democracia nunca foi um dado adquirido. Foi sempre uma conquista frágil, imperfeita, em permanente construção. Nasceu do conflito, cresceu na dúvida e sobreviveu graças à coragem de quem acreditou que o poder devia servir — e não dominar. Hoje, num mundo atravessado por guerras, desinformação, autoritarismos renovados e medos antigos, a democracia volta a ser posta à prova. Vivemos um tempo em que a força reaparece como argumento, a mentira como estratégia e o medo como método. Há países onde votar deixou de ser escolha livre; outros onde a palavra perdeu valor; outros ainda onde a diferença se tornou …

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orador no speaker's corner em 1974 a Preto e Branco rodeado de pessoas a ouvir

Campanhas na Superfície, Democracias em Suspensão

As campanhas eleitorais tornaram-se o espelho inquietante do nosso tempo. Decorrem num espaço saturado de desinformação, alimentadas por redes sociais que privilegiam o choque à reflexão, a agressividade ao argumento, o instante ao futuro. Discute-se muito, grita-se mais ainda — mas fala-se pouco do essencial. Nunca houve tantos meios para comunicar e nunca foi tão difícil compreender. A política passou a disputar atenção num território dominado pela velocidade e pela emoção. As ideias longas perdem para as frases curtas; a complexidade cede lugar ao slogan; a verdade torna-se secundária face à eficácia narrativa. Navega-se na espuma dos dias, enquanto os …

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imagem de Oleiro a trabalhar- fotogaleria Alberte Paz

Mãos de estirpe

Mãos e alma que transformam a argila. Mãos ferramentas primordiais desgastadas pelo tempo e pelo trabalho. Mãos repletas da sabedoria de uma estirpe que transcende as palavras. Mãos que sentem a textura, controlam a força e modelam a forma. Mãos que aprimoram. Mãos-ponte entre o tosco e o belo. Mãos que transformam o barro telúrico que atravessa milénios. Cada dobra, cada sulco, cada mancha de barro nas mãos de um oleiro contam uma história de meditação e de conexão matéria-espírito. Lentes de fotógrafo que capturam a beleza e revelam a paixão que permeia cada etapa do processo. Lentes vítreas ao …

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mapa a PB da Baia de Guantanamo

Democratas e ditadores

Sabemos bem qual a diferença entre os democratas e os ditadores, e os média actuais, felizmente, são rápidos a recordar-nos essa diferença. Os democratas, mesmo que o seu país esteja sob ataque directo de uma potência estrangeira ou de uma organização terrorista, fazem questão de afirmar, e pôr em prática, os princípios da liberdade – de expressão, de movimentos e de organização. Foi, aliás, com base nestes princípios inabaláveis – que só uma democracia plena pode afirmar – que, por exemplo, após o 11 de Setembro de 2001, os Estados Unidos criaram o ‘resort’ de Guantánamo. Para que, no território …

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ressonância aquática

Anomia e ressonância

Num contexto como o atual, atravessado por conflitos armados e ameaças globais, pelo aumento da desigualdade sócio-económica e pela crise ecológica, ao qual se somam as disrupções tecnológicas e a ascensão da extrema-direita violenta e reacionária, cresce uma sensação difusa de anomia, de perda de referentes, de impotência e de cansaço vital. Também uma forma de alienação que se manifesta ao viver de modo automático, executando ações que ninguém nos obriga a realizar mas que tampouco desejamos, ou levando um estilo de vida no qual já não nos reconhecemos. Neste cenário, a pergunta pela “boa vida” — por uma vida …

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mapa a PB do Irão

O Irão faz fronteira com a Venezuela

… na verdade, faz fronteira com todos os países cujas economias têm vindo a ser fustigadas pelas sanções, unilateralmente impostas pelos Estados Unidos. Sanções que constituem, em si mesmas, uma violação da Carta das Nações Unidas. Nenhum país pode, unilateralmente, sancionar outro. Os Estados Unidos fazem-no porque ainda dispõem de um poder assimétrico: controlam, através do dólar, a economia mundial. E transformam, por isso, nestes casos, o dólar, e o sistema financeiro que lhe está associado, em armas para fazer guerra económica. Guerra de anos, décadas. Por muito silenciosa que ela pareça, não se pense que esta guerra não tem …

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Duas pessoas mascaradas de Felos a posar para a fotografia

Rir e comemorar o entroido em Maceda

Algumas notas sobre felos e felonia Tioira é numa imensa planura, de milho e vacas, com a serra de S. Mamede em fundo. É esta a terra dos felos, em Maceda, que chegam com as suas máscaras, o fato elegante e um ar de troça provocador. Acodem em grupo, vêm em família, porque as mulheres e as crianças já podem envergar o fato dourado e elegante. Sigo-os pelas ruas da aldeia, enquanto o dia vai desaparecendo e o frio aumenta. Param no «Lar dos Felos», comem empanada e filloas, bebem. Tiram então as máscaras, que deixam alinhadas com outras idênticas, …

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Rapaz jovem sentado na rua em protesto a olhar para um polícia que está a ralhar com ele

Resistir com esperança: a forma mais nobre de não desistir

Há quem confunda resiliência com resistência cega. Mas resistir, no sentido mais humano, não é endurecer — é permanecer fiel ao que acreditamos, mesmo quando tudo à volta convida à desistência. A verdadeira resiliência não nasce da negação da dor, mas da capacidade de atravessá-la sem perder o sentido. Vivemos tempos difíceis para a esperança. As crises acumulam-se, as certezas dissolvem-se, e o cansaço instala-se como um ruído de fundo. Tornou-se fácil descrer, afastar-se, proteger-se do mundo. Mas é precisamente nesse momento que a esperança deixa de ser uma emoção e passa a ser uma escolha consciente. Resiliente não é …

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homem a caminhar entre o nevoeiro numa estação de comboios

Manhã Submersa

“À nossa volta crescia a ameaça insidiosa de um Outono pálido, profundamente cansado, cheio do aroma de todas as coisas mortas. Os castanheiros esguios, errantes pela colina, vagos, desencorajados, desfaziam-se lentamente das folhas amarelas, como quem desiste de tudo. No céu húmido e densamente azul, um sol taciturno aguardava, sem interesse, o fim do dia, como um velho inválido numa cadeira de braços, que já não tem projectos para amanhã. E para o fundo do vale, como para uma sepultura, descia uma neblina espessa, irremediável, que amortalhava para sempre a memória de tudo.” Vergílio Ferreira in “Manhã Submersa” (1954) Não …

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criança a olhar para o céu com esperança

O Futuro através das novas gerações

Falar do futuro é, quase sempre, falar de incerteza. Mas olhar para as novas gerações é falar de possibilidade. Entre diagnósticos pessimistas e previsões apressadas, esquecemo-nos muitas vezes de algo essencial: cada geração carrega não apenas os erros herdados, mas também a capacidade inédita de os corrigir. Os jovens de hoje crescem num mundo mais complexo, mais exposto e mais exigente do que qualquer outro antes deles. Têm acesso a tudo, mas raramente a tempo; conhecem o mundo inteiro, mas procuram o seu lugar; vivem ligados, mas desejam sentido. Não são frágeis — são sensíveis a um tempo que mudou …

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livro aberto pelo fac-simil dum folheto contrário à guerra

Guerra À Guerra

Não fiz grandes festas na entrada do novo ano. Desejei saúde, desejei paz, e procurei olhar nos olhos quem comigo se cruzou. Terei dito umas larachas despreocupadas, ligeiras, procurei o aconchego da mãe e o aconchego que, em pequenas prestações, lhe vou procurando devolver, para que a dívida não fique a pesar demasiado. Procurei, também, a companhia dos bons amigos e a solidão do ocidente, que é onde estamos destinados a colocar o olhar sempre que o sol se põe, sempre que mais um ano se passou, sempre que um ciclo passado se fechou. Comecei o ano a ler. Há …

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mosaico grego de mulheres a praticar desportos

A tirania do pódio

O desporto mediatizado põe ênfase na alta competição, recordes, força física e espectacularização, gira em torno da monetização e do poder e tende a reduzir a pessoa ao corpo físico. O ‘mens sana in corpore sano’ e o ‘importante não é vencer, mas participar’, são hoje em dia slogans publicitários, apelos marginais e clichés que preenchem banalmente momentos mediáticos. A predominância televisiva desta visão do desporto é um dos sintomas da cultura materialista que prioriza o lucro e o espetáculo da força física, em detrimento do desenvolvimento integral e equilibrado e da valorização das individualidades. O desporto deixou de ser …

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Iconografia da Mão de Deus, dourada a sair dum círculo Branco rodeado de um círculo lilás e outro vermelho sobre fundo castanho

Não ser Deus

Um dos leitmotiv mais persistentes da tradição cultural ocidental sustenta que, se não há Deus, tudo é permitido. A fórmula — atribuída a Dostoiévski e repetida até à exaustão — condensa a convicção segundo a qual apenas a existência de uma instância suprema, de um fundamento último, poderia garantir a ordem da realidade, do conhecimento e da moral. Sem esse ponto de apoio absoluto, diz-se, a humanidade ficaria exposta ao caos, ao niilismo e ao relativismo ético e epistemológico. No entanto, a história oferece motivos mais do que suficientes para desconfiar dessa premissa. Pois sob a ideia de uma ordem …

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telhado da catedral de Compostela, com a cidade velha ao fundo

Turismo e discurso: aliança ou ameaça para as comunidades locais

Há bastante hábito de falsos debates, que —mais do que resolver um eventual problema— servem para luzir interesses ou galas das pessoas intervenientes. O assunto do turismo é um deles. Colocam-se as cousas em termos maximalistas: turismo, sumariamente sim, porque é riqueza e a gente tem que ter meios para viver; turismo não porque, definitivamente, é intrinsecamente tóxico e afeta sempre de modo negativo a gente nos seus modos de vida. Já definir ‘turismo’ e ‘gente’ não é tarefa fácil. Ao lado desse simplismo habita outro: nem tanto nem tão pouco, que é não dizer nada, ao menos a priori, e que beneficia da …

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