desenho de um homem, a gritar com o braço levantado e uma pasta de couro baixo o braço

A Agulha Invisível

Apesar de dar aulas de jornalismo há quase vinte anos – comecei este fascinante caminho, de forma muito singela, com umas poucas horas, em 2006 e, desde então, nunca mais deixei de acreditar que é num bom sistema de educação e de formação que podemos, de facto, contribuir para mudar o mundo – nunca dei disciplinas de teorias da Comunicação. As teorias da Comunicação, no entanto, dão comigo, constantemente. Especialmente as que entraram no desuso do tempo – das que, justamente, melhores estudos e quem os pensou bem tornaram naturalmente obsoletas, às que foram precipitadamente declaradas inúteis pela máquina de …

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imagem de IA duma escola cheia de ecrãs e um robot

Inteligência Artificial e Escola: Entre o Medo e a Responsabilidade

A Inteligência Artificial entrou na escola sem pedir licença. Não passou pela porta principal, nem esperou por regulamentos ou consensos pedagógicos. Instalou-se nos telemóveis, nos computadores, nas mochilas invisíveis dos alunos. E, como sempre acontece quando a tecnologia avança mais depressa do que a reflexão, o primeiro sentimento foi o medo. Pais receiam que os filhos deixem de pensar. Professores interrogam-se sobre a autenticidade dos trabalhos. Escolas procuram regras para distinguir o esforço genuíno da facilidade artificial. A pergunta repete-se, com ansiedade legítima: como saber o que foi feito pelo aluno e o que foi feito pela máquina? Mas talvez …

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cravo vermelho segurado por um punho contra o céu. A preto e branco

Democracia: O Valor que Resiste Quando Tudo Vacila

A democracia nunca foi um dado adquirido. Foi sempre uma conquista frágil, imperfeita, em permanente construção. Nasceu do conflito, cresceu na dúvida e sobreviveu graças à coragem de quem acreditou que o poder devia servir — e não dominar. Hoje, num mundo atravessado por guerras, desinformação, autoritarismos renovados e medos antigos, a democracia volta a ser posta à prova. Vivemos um tempo em que a força reaparece como argumento, a mentira como estratégia e o medo como método. Há países onde votar deixou de ser escolha livre; outros onde a palavra perdeu valor; outros ainda onde a diferença se tornou …

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orador no speaker's corner em 1974 a Preto e Branco rodeado de pessoas a ouvir

Campanhas na Superfície, Democracias em Suspensão

As campanhas eleitorais tornaram-se o espelho inquietante do nosso tempo. Decorrem num espaço saturado de desinformação, alimentadas por redes sociais que privilegiam o choque à reflexão, a agressividade ao argumento, o instante ao futuro. Discute-se muito, grita-se mais ainda — mas fala-se pouco do essencial. Nunca houve tantos meios para comunicar e nunca foi tão difícil compreender. A política passou a disputar atenção num território dominado pela velocidade e pela emoção. As ideias longas perdem para as frases curtas; a complexidade cede lugar ao slogan; a verdade torna-se secundária face à eficácia narrativa. Navega-se na espuma dos dias, enquanto os …

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imagem de Oleiro a trabalhar- fotogaleria Alberte Paz

Mãos de estirpe

Mãos e alma que transformam a argila. Mãos ferramentas primordiais desgastadas pelo tempo e pelo trabalho. Mãos repletas da sabedoria de uma estirpe que transcende as palavras. Mãos que sentem a textura, controlam a força e modelam a forma. Mãos que aprimoram. Mãos-ponte entre o tosco e o belo. Mãos que transformam o barro telúrico que atravessa milénios. Cada dobra, cada sulco, cada mancha de barro nas mãos de um oleiro contam uma história de meditação e de conexão matéria-espírito. Lentes de fotógrafo que capturam a beleza e revelam a paixão que permeia cada etapa do processo. Lentes vítreas ao …

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mapa a PB da Baia de Guantanamo

Democratas e ditadores

Sabemos bem qual a diferença entre os democratas e os ditadores, e os média actuais, felizmente, são rápidos a recordar-nos essa diferença. Os democratas, mesmo que o seu país esteja sob ataque directo de uma potência estrangeira ou de uma organização terrorista, fazem questão de afirmar, e pôr em prática, os princípios da liberdade – de expressão, de movimentos e de organização. Foi, aliás, com base nestes princípios inabaláveis – que só uma democracia plena pode afirmar – que, por exemplo, após o 11 de Setembro de 2001, os Estados Unidos criaram o ‘resort’ de Guantánamo. Para que, no território …

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ressonância aquática

Anomia e ressonância

Num contexto como o atual, atravessado por conflitos armados e ameaças globais, pelo aumento da desigualdade sócio-económica e pela crise ecológica, ao qual se somam as disrupções tecnológicas e a ascensão da extrema-direita violenta e reacionária, cresce uma sensação difusa de anomia, de perda de referentes, de impotência e de cansaço vital. Também uma forma de alienação que se manifesta ao viver de modo automático, executando ações que ninguém nos obriga a realizar mas que tampouco desejamos, ou levando um estilo de vida no qual já não nos reconhecemos. Neste cenário, a pergunta pela “boa vida” — por uma vida …

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mapa a PB do Irão

O Irão faz fronteira com a Venezuela

… na verdade, faz fronteira com todos os países cujas economias têm vindo a ser fustigadas pelas sanções, unilateralmente impostas pelos Estados Unidos. Sanções que constituem, em si mesmas, uma violação da Carta das Nações Unidas. Nenhum país pode, unilateralmente, sancionar outro. Os Estados Unidos fazem-no porque ainda dispõem de um poder assimétrico: controlam, através do dólar, a economia mundial. E transformam, por isso, nestes casos, o dólar, e o sistema financeiro que lhe está associado, em armas para fazer guerra económica. Guerra de anos, décadas. Por muito silenciosa que ela pareça, não se pense que esta guerra não tem …

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Duas pessoas mascaradas de Felos a posar para a fotografia

Rir e comemorar o entroido em Maceda

Algumas notas sobre felos e felonia Tioira é numa imensa planura, de milho e vacas, com a serra de S. Mamede em fundo. É esta a terra dos felos, em Maceda, que chegam com as suas máscaras, o fato elegante e um ar de troça provocador. Acodem em grupo, vêm em família, porque as mulheres e as crianças já podem envergar o fato dourado e elegante. Sigo-os pelas ruas da aldeia, enquanto o dia vai desaparecendo e o frio aumenta. Param no «Lar dos Felos», comem empanada e filloas, bebem. Tiram então as máscaras, que deixam alinhadas com outras idênticas, …

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Rapaz jovem sentado na rua em protesto a olhar para um polícia que está a ralhar com ele

Resistir com esperança: a forma mais nobre de não desistir

Há quem confunda resiliência com resistência cega. Mas resistir, no sentido mais humano, não é endurecer — é permanecer fiel ao que acreditamos, mesmo quando tudo à volta convida à desistência. A verdadeira resiliência não nasce da negação da dor, mas da capacidade de atravessá-la sem perder o sentido. Vivemos tempos difíceis para a esperança. As crises acumulam-se, as certezas dissolvem-se, e o cansaço instala-se como um ruído de fundo. Tornou-se fácil descrer, afastar-se, proteger-se do mundo. Mas é precisamente nesse momento que a esperança deixa de ser uma emoção e passa a ser uma escolha consciente. Resiliente não é …

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homem a caminhar entre o nevoeiro numa estação de comboios

Manhã Submersa

“À nossa volta crescia a ameaça insidiosa de um Outono pálido, profundamente cansado, cheio do aroma de todas as coisas mortas. Os castanheiros esguios, errantes pela colina, vagos, desencorajados, desfaziam-se lentamente das folhas amarelas, como quem desiste de tudo. No céu húmido e densamente azul, um sol taciturno aguardava, sem interesse, o fim do dia, como um velho inválido numa cadeira de braços, que já não tem projectos para amanhã. E para o fundo do vale, como para uma sepultura, descia uma neblina espessa, irremediável, que amortalhava para sempre a memória de tudo.” Vergílio Ferreira in “Manhã Submersa” (1954) Não …

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criança a olhar para o céu com esperança

O Futuro através das novas gerações

Falar do futuro é, quase sempre, falar de incerteza. Mas olhar para as novas gerações é falar de possibilidade. Entre diagnósticos pessimistas e previsões apressadas, esquecemo-nos muitas vezes de algo essencial: cada geração carrega não apenas os erros herdados, mas também a capacidade inédita de os corrigir. Os jovens de hoje crescem num mundo mais complexo, mais exposto e mais exigente do que qualquer outro antes deles. Têm acesso a tudo, mas raramente a tempo; conhecem o mundo inteiro, mas procuram o seu lugar; vivem ligados, mas desejam sentido. Não são frágeis — são sensíveis a um tempo que mudou …

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livro aberto pelo fac-simil dum folheto contrário à guerra

Guerra À Guerra

Não fiz grandes festas na entrada do novo ano. Desejei saúde, desejei paz, e procurei olhar nos olhos quem comigo se cruzou. Terei dito umas larachas despreocupadas, ligeiras, procurei o aconchego da mãe e o aconchego que, em pequenas prestações, lhe vou procurando devolver, para que a dívida não fique a pesar demasiado. Procurei, também, a companhia dos bons amigos e a solidão do ocidente, que é onde estamos destinados a colocar o olhar sempre que o sol se põe, sempre que mais um ano se passou, sempre que um ciclo passado se fechou. Comecei o ano a ler. Há …

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mosaico grego de mulheres a praticar desportos

A tirania do pódio

O desporto mediatizado põe ênfase na alta competição, recordes, força física e espectacularização, gira em torno da monetização e do poder e tende a reduzir a pessoa ao corpo físico. O ‘mens sana in corpore sano’ e o ‘importante não é vencer, mas participar’, são hoje em dia slogans publicitários, apelos marginais e clichés que preenchem banalmente momentos mediáticos. A predominância televisiva desta visão do desporto é um dos sintomas da cultura materialista que prioriza o lucro e o espetáculo da força física, em detrimento do desenvolvimento integral e equilibrado e da valorização das individualidades. O desporto deixou de ser …

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Iconografia da Mão de Deus, dourada a sair dum círculo Branco rodeado de um círculo lilás e outro vermelho sobre fundo castanho

Não ser Deus

Um dos leitmotiv mais persistentes da tradição cultural ocidental sustenta que, se não há Deus, tudo é permitido. A fórmula — atribuída a Dostoiévski e repetida até à exaustão — condensa a convicção segundo a qual apenas a existência de uma instância suprema, de um fundamento último, poderia garantir a ordem da realidade, do conhecimento e da moral. Sem esse ponto de apoio absoluto, diz-se, a humanidade ficaria exposta ao caos, ao niilismo e ao relativismo ético e epistemológico. No entanto, a história oferece motivos mais do que suficientes para desconfiar dessa premissa. Pois sob a ideia de uma ordem …

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telhado da catedral de Compostela, com a cidade velha ao fundo

Turismo e discurso: aliança ou ameaça para as comunidades locais

Há bastante hábito de falsos debates, que —mais do que resolver um eventual problema— servem para luzir interesses ou galas das pessoas intervenientes. O assunto do turismo é um deles. Colocam-se as cousas em termos maximalistas: turismo, sumariamente sim, porque é riqueza e a gente tem que ter meios para viver; turismo não porque, definitivamente, é intrinsecamente tóxico e afeta sempre de modo negativo a gente nos seus modos de vida. Já definir ‘turismo’ e ‘gente’ não é tarefa fácil. Ao lado desse simplismo habita outro: nem tanto nem tão pouco, que é não dizer nada, ao menos a priori, e que beneficia da …

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crianças a brincar no recreio

Escola Pública: O Coração que Ainda Bate por Todos

A Escola Pública é o maior ato de coragem de uma sociedade. É a promessa silenciosa de que nenhum destino está fechado, de que a origem não determina o futuro, de que o saber não pertence a uma elite, mas ao povo inteiro. Num tempo em que tudo se privatiza — do pensamento à atenção — a Escola Pública continua a ser o último território verdadeiramente comum. É ali que se cruzam mundos que, de outro modo, nunca se encontrariam. Filhos de médicos e filhos de desempregados sentam-se lado a lado, partilham o mesmo recreio, aprendem as mesmas letras. E …

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mural de menina a perder um balão em forma de coração. Texto na parede ao lado em inglês "sempre haverá esperança"

Ganhar a esperança

Ganhar, que não ter. Ter constitui o desejo sem ação; ganhar demanda umha atitude, ativa. (atitude e ativa são palavras que se parecem mas procedem de étimos diferentes; como se confundem étimos, também há pessoas que confundem significados e estados; há quem pensa que com ter atitude basta para estar ativa; como há quem tem esperança mas nada faz, por vezes porque nem repara nisso, por ganhar a esperança). A esperança, para pessoas com fé, alberga também umha transcendência. Vivem com a esperança da ressurreição mas isso não exclui (ao contrário, seria umha premissa maior em algumhas crenças) que devam trabalhar por fazer realidade na …

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Natal: A Essência Perdida no Brilho das Vitrines

Chega todos os anos, sempre igual e sempre diferente. O Natal, que deveria ser o tempo da pausa e da gratidão, tornou-se um desfile de sacos, luzes e urgências compradas à pressa. As ruas enchem-se de músicas repetidas, os centros comerciais transformam-se em templos improvisados, e o mundo parece acreditar que a felicidade tem etiqueta de preço. O Natal consumista não começou agora. Mas nunca foi tão ruidoso, tão ansioso, tão distante da sua origem. A celebração que nasceu da ideia de renascimento — de um gesto humilde num lugar esquecido — tornou-se uma corrida para ver quem embrulha mais, …

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Representação da agricultura em papiro do antigo Egito

Entre o Black Friday e o Comércio Justo

Entre os apelos ao consumo que promete a abundância a preços baixos e à consciência que exige preços que reflitam a dignidade do trabalho e da sustentabilidade, ficamos encurralados no dilema ético do valor que atribuímos aos bens materiais, às pessoas e ao planeta. O Black Friday e o Comércio Justo simbolizam estes dois modelos sociais. A escolha reflete uma dialética central da nossa sociedade: lucro a qualquer custo versus prosperidade partilhada e sustentável. Nos comportamentos com inclinação ao materialismo e à impulsividade do Black Friday, o indivíduo é arrastado por um querer descontrolado em detrimento do pensar e do …

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