livro aberto pelo fac-simil dum folheto contrário à guerra

Guerra À Guerra

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Não fiz grandes festas na entrada do novo ano. Desejei saúde, desejei paz, e procurei olhar nos olhos quem comigo se cruzou. Terei dito umas larachas despreocupadas, ligeiras, procurei o aconchego da mãe e o aconchego que, em pequenas prestações, lhe vou procurando devolver, para que a dívida não fique a pesar demasiado. Procurei, também, a companhia dos bons amigos e a solidão do ocidente, que é onde estamos destinados a colocar o olhar sempre que o sol se põe, sempre que mais um ano se passou, sempre que um ciclo passado se fechou.

Comecei o ano a ler.

Há pouco mais de um século, entre 1914 e 1916, cidadãos portugueses, cidadãos de uma jovem e altamente instável República, procuraram, sem sucesso, convencer outros cidadãos portugueses e, acima de tudo, o poder, de que não fazia sentido que Portugal se deixasse arrastar para uma guerra entre impérios europeus. Na altura, foram chamados de “antiguerristas”, acabando alguns, como o líder sindicalista Perfeito de Carvalho, presos, acusados do “crime de alta traição”.

Uma consulta aos escritos de Perfeito de Carvalho tem tido, para mim, o efeito, que infelizmente já não acho inesperado, de estar a ler frases de extraordinária actualidade. É como se me bastasse substituir países, líderes e datas, para entrar directamente no tempo que temos vindo a viver, tempo que me faz olhar, hoje, solitário, para o ocidente onde o sol se põe.

Três exemplos:

“Não sabemos quantos bem intencionados conterá a falange dos que defendem e requerem a intervenção de Portugal na guerra. Alguns haverá por lá, todos fanatizados com aquela história da defesa da liberdade e civilização que, de resto, já deu o que tinha a dar.” (3/07/1915)

“Insistimos nisto: não foi um militarismo que fomentou a guerra, mas o militarismo em geral; as culpas não cabem ao militarismo alemão porque pertencem ao militarismo internacional. É este o inimigo a aniquilar.” (3/08/1915).

“Não há exército que, lançado na carnificina, se não tenha entregue à prática dos maiores crimes. Desiludamo-nos ainda neste ponto: não só as hostes kaiserianas praticam atrocidades, porque todas as outras procedem do mesmo modo. (…) A guerra é o crime legalizado.” (3/08/1915)

A 18 de Março de 1916, nove dias depois de o governo de Afonso Costa decidir a entrada de Portugal na Primeira Guerra Mundial, no último artigo que publicou no semanário madeirense Trabalho e União, que levaria à sua prisão e deportação para o continente, Perfeito de Carvalho escreve, por fim:

“O governo houve por bem calar-se, ocultando os factos importantes que o país tinha o direito de conhecer. Ainda mais: não só ocultou factos que devia tornar públicos, mas ainda nos andou ludibriando com mentirolas várias. (…)”

Portugal entrou na Grande Guerra. A inflacção tornou-se insustentável, os bens de primeira necessidade escassos, a Primeira República corroeu-se por dentro, primeiro veio Sidónio Pais, mais tarde a Ditadura Nacional e, com ela, o longo inverno fascista. Os “antiguerristas” tinham razão, claro, mas foram eles para a prisão. Quem destruiu o país com base na mentira e no militarismo desenfreado, em que alguma esquerda de então também se deixou enredar, seguiu o caminho que as elites sempre seguem: a safar-se entre os pingos… do chumbo.

É provável, e já está a acontecer na “impoluta” União Europeia, que o ano de 2026 faça o que 1916 fez aos “antiguerristas” portugueses. O ano que terminou há dois dias trouxe-nos a notícia de que há 59 cidadãos europeus aos quais a UE (que não é um tribunal, nem tem poderes legais para julgar, punir e policiar em causa própria) já decidiu impor sanções económicas e de impossibilidade de circulação no espaço europeu. A receita, que destrói todo o resquício de ‘democracia’ em que pudéssemos julgar viver, é a mesma de 1916: se és contra a guerra, és um traidor. Mereces ser tratado como tal.

O sol está a pôr-se a ocidente.
Que este ano não seja o primeiro de uma noite interminável.

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