O cantor e músico Zeca Afonso, o arquiteto Álvaro Siza Vieira, e o escritor José Saramago, três das pessoas que melhor identificam Portugal e a sua cultura internacionalmente, conheceram Vite, um bairro não turístico de Santiago de Compostela, e são nele lembrados por produtos que maravilham. As suas singulares histórias abrem uma oportunidade a uma experiência diferente e a gozar de uma maneira ativa de um espaço muito atrativo e enriquecedor, que não costuma ser alvo das atenções das gentes que peregrinam ou visitam a cidade.
Estreia de Grândola Vila Morena
As vivendas de Vite começaram a ser habitadas em 1978. Uns anos antes, em maio de 1972, Zeca Afonso ofereceu um concerto no Burgo das Nações, um complexo de vivenda e serviços da Universidade de Santiago de Compostela (USC), que anos depois foi transformado, e integrado em Vite. Com José Afonso atuou aquele dia o cantor galego Benedicto, e hoje um mural lembra o acontecimento como “Vozes da liberdade”. Lá também se pode ler uma nota da Associação José Afonso Galiza, na qual se esclarece como naquele concerto “se produziu um episódio que havia passar à história polo percurso posterior do Zeca e do seu tema mais conhecido, o Grândola Vila Morena”. O que aconteceu foi que, naquele 10 de maio de 1972, José Afonso interpretou esse tema, que ele já tinha gravado, por primeira vez ao vivo.
Em maio de 2022, ao se completar 50 anos de aquele concerto, a Associação José Afonso Galiza organizou um ato para lembrar aquela estreia, e um numeroso grupo interpretou de novo o Grândola Vila Morena naquele espaço. Além disso, muito próximo, e ao pé do centro de ensino primário público de Vite, hoje há um parque municipal que leva o nome de José ‘Zeca’ Afonso, inaugurado em 10 de maio de 2009, que lembra e homenageia aquela sua presença e atuação.
Outro prémio para Siza Vieira
Em 1991, quando Vite era porventura o bairro mais novo da cidade, o reconhecido arquiteto português Álvaro Siza Vieira recebeu a encomenda da Universidade de Santiago de Compostela de elaborar o projeto da Faculdade de Ciências da Informação, para ser edificada em Vite. Foi inaugurada oficialmente o dia 29 de fevereiro de 2000, tratando-se de “uma obra feliz desenvolvida em tranquilidade e com apoio constante da Universidade”, segundo disse o próprio Álvaro Siza e salientou na altura a instituição académica.
Entre os depoimentos das autoridades presentes, o professor Dario Villanueva, que servia como reitor, referiu-se àquela nova Faculdade como “milagre” arquitetónico e salientou o “esforço coletivo” que tinha representado, além de que era “o primeiro edifício universitário do século XXI para uma Universidade fundada a finais do XV”. Dois anos mais tarde, o dia 9 de setembro do ano 2002, em Lisboa, Álvaro Siza recebeu o prémio Compostela-Xunta de Galicia, estando aquele projeto entre os méritos valorizados.
Hoje é denominada Faculdade de Ciências da Comunicação, e é uma visita recomendada mesmo em guias de turismo pelo seu valor arquitetónico e pela sua boa e bela integração no bairro de Vite. Não muito longe, mas noutra zona da cidade, pode-se visitar o Centro Galego de Arte Contemporânea, também desenhado por Siza Vieira e situado ao pé do Museu do Povo Galego, dois espaços bem recomendáveis. Faculdade de Ciências da Comunicação da USC e Centro Galego de Arte Contemporânea encontram-se nos catálogos de Álvaro Siza Vieira como duas das suas produções mais significativas e valiosas, dois contributos modelares para a arquitetura contemporânea.
Multiplicação de Saramago
A chegada de José Saramago a Vite foi ainda mais surpreendente e teve efeitos multiplicadores. Em 1998, e pouco antes do Nobel de Literatura, ele foi distinguido com o prémio São Clemente, que convoca o liceu de ensino secundário Rosalia de Castro de Santiago de Compostela. Este galardão é decidido por um júri conformado por alunado de secundária. A Saramago pareceu-lhe muito interessante mas, por causa das exigências posteriores do Nobel, ele teve de adiar o seu deslocamento para receber aquele prémio estudantil. Foi a Santiago para atender tal compromisso nos dias finais de janeiro do ano seguinte, em duas jornadas complicadas para ele, pois na programação que tinha prevista introduziu-se inesperadamente a morte de uma amizade, Gonzalo Torrente Ballester, o que provocou mudanças.
Segundo noticiou a comunicação social, após receber a honraria Saramago manifestou o desejo de que o dinheiro do prémio, 500.000 pesetas na altura, ficasse em Santiago e se destinasse para livros e para um bairro popular, operário. Assim emergiu a ideia de dar o seu nome a uma nova biblioteca municipal, que se ia pôr em andamento no bairro de Vite. A Saramago pareceu-lhe bem a ideia, e em 8 de abril de aquele 1999 regressou de novo a Compostela para visitar aquele espaço do Centro Sociocultural Municipal de Vite, que também passou a levar o seu nome. Mas ainda se multiplicaria mais, pois a Câmara Municipal de Santiago de Compostela decidiu depois ampliar o nome de Saramago a mais bibliotecas de centros socioculturais municipais, e assim também o levam hoje as dos bairros de Conjo, Fontinhas e Santa Marta.
Um passeio aliciante
De Vite pode-se dizer, com certeza, que faz justiça a Saramago e evoca um dos grandes títulos literários do autor português por se tratar de um bairro levantado do chão. Um bairro que estava prestes a finalizar nos finais do século XX, e após pouco mais de vinte anos da sua existência, uma excecional transformação, após combater os efeitos muito devastadores de situações da maior vulnerabilidade e marginalidade da sua povoação, com uma exemplar organização e implicação da sua vizinhança para construir um melhor futuro. É por isso que a sua história foi, e é, objeto de interesse internacional; exposta em foros especializados por especialistas em ciências como a Psicologia, a Medicina, o Trabalho Social, a Educação Social, a Enfermagem e outras disciplinas; e cuja trajetória resultou atrativa para projetos culturais de teatro, música, audiovisuais, ilustração, jornalismo, fotografia e outros nos últimos anos.
A sua ordenação urbanística e a recuperação dos seus espaços com zonas verdes e equipamentos culturais fazem de Vite um passeio muito aliciante. Adentrar-se na sua história é reconfortante. No Centro Sociocultural José Saramago funciona Vite Arquiva, um projeto que está promovido pelo Instituto de Ciências do Património (Incipit), entidade integrada no Consejo Superior de Investigaciones Científicas (CSIC, instituição pública que é o centro de pesquisa com mais meios do Estado Espanhol) com implicação da Coordenadora de Associações e do Plano Socio-Comunitário do bairro, e que evidencia, com materiais muito diversos, o decurso destas já quase cinco décadas desde os seus inícios.
Em Vite estão também sediadas a Escola Oficial de Idiomas de Santiago de Compostela, um centro de ensino de línguas público com um quadro docente de Português e uma direção que têm destacado por acertos como o prémio Aritmar, que distingue cada ano produtos de poesia e musicais da Galiza e Portugal, para além de iniciativas culturais de encontro entre o Norte e o Sul do Minho. Também estão a Faculdade de Filologia, cuja área de estudos portugueses (atingindo a CPLP) soubo consolidar-se como um referente de bom fazer docente e investigador, com projeção internacional; ou o Auditório da Galiza, onde a música de Portugal foi e é apreciada: mesmo neste maio de 2026 foi interpretado com sucesso O Melhor Primeiro Concerto para Bebés, promovido desde terras portuguesas.
Vite de Compostela supõe, portanto, uma opção a ter em conta, como um bairro aberto e contemporâneo, onde as culturas de Portugal dialogam com as da Galiza exemplarmente. Quem se achegue para comprová-lo porventura que agradecerá o tempo de convívio nas suas ruas e com as suas gentes. Uma visita e experiência enriquecedoras, em definitivo.





