famosa imagem de pessoa a caminhar com pressa

Como caí no Desassossego

Ao ser convidado a colaborar neste projeto empolgante que é De Norte a Sul, centrei a minha principal ressalva na dificuldade de escolher um tema sobre o qual escrever. Ainda permanecia com a mesma dúvida, no momento de encetar este texto, quando me lembrei do conselho de um antigo professor: “Se não sabes o que dizer, é melhor começares pelo princípio”. Vou falar, portanto, do ponto de partida que me levou a perceber que a minha língua se estende, de norte a sul, da Corunha até Faro, ao longo do meridiano 8 oeste. Pois, no fundo, sem esta convicção, penso …

Continue lendo
etnia de egipto em papiro do Império antigo

Racismo em 2026: A Sombra que a Consciência Ainda Não Dissolveu

É difícil aceitar que, em pleno ano de 2026, o racismo continue a existir. Difícil, não por falta de provas, mas pela consciência de que já tivemos tempo suficiente para aprender. Séculos de história, de sofrimento, de luta e de afirmação deveriam ter sido mais do que suficientes para dissolver uma das formas mais primitivas de negar a dignidade humana. E, no entanto, a sua sombra persiste. O racismo não nasce da razão — nasce do medo. Do desconhecimento. Da necessidade frágil de afirmar superioridade onde não existe mérito. É uma construção artificial, sem fundamento biológico, moral ou intelectual, mas …

Continue lendo
mãos em alto e céu por trás

Voluntariado: A Força Silenciosa que Sustenta o Mundo

Há gestos que não fazem manchetes, mas sustentam civilizações. O voluntariado é um deles. Num mundo frequentemente dominado pela lógica do interesse, da eficiência e da recompensa, há homens e mulheres que escolhem dedicar parte do seu tempo a ajudar outros sem esperar retorno. Não por obrigação, mas por consciência. Não por reconhecimento, mas por humanidade. Vivemos tempos exigentes. Famílias confrontam-se com dificuldades económicas, jovens enfrentam incerteza, idosos experimentam a solidão, comunidades inteiras sentem o peso de uma instabilidade que parece persistir. Perante esta realidade, o voluntariado não é um gesto acessório — é uma necessidade social. Torna-se o elo …

Continue lendo
jovem a segurar um cartaz "end the war before it ends you"

A Esquerda Que Chegou Tarde à Paz

Doze anos.Há uma esquerda europeia que demorou doze anos a chegar à paz. Façam-se as contas, recue-se no tempo, e pergunte-se onde esteve essa esquerda quando uma administração democrata norte-americana promoveu, às claras, com a CIA na sombra e o apoio no escuro a milícias nazis, o golpe de Estado que desestabilizou a Europa e, na verdade, o mundo – para trocar um presidente ucraniano, democraticamente eleito, que advogava a não adesão à NATO e o equilíbrio das relações da Ucrânia com a vizinha Rússia e com o ocidente, por um regime que assumiu daí em diante a confrontação com …

Continue lendo
quadro antigo em que um avô observa o seu neto no colo a brincar com a sua pipa de fumar

Família: O Primeiro Lugar Onde Aprendemos o Mundo

Antes de qualquer escola, de qualquer profissão, de qualquer ambição, há um lugar onde começamos a existir verdadeiramente: a família. Não como conceito abstrato ou ideal romântico, mas como espaço concreto de afetos, conflitos, aprendizagens e crescimento. É ali que a identidade se esboça, que os valores se insinuam, que a confiança ganha raízes. A família é o primeiro território emocional que habitamos. É nela que aprendemos a partilhar, a discordar, a cuidar, a pedir desculpa, a oferecer apoio sem cálculo. Mesmo imperfeita — e é sempre imperfeita — permanece o núcleo onde se forma a capacidade de relação com …

Continue lendo
prometeu pensativo com um dedo no lábio

Pós-humanismo

No âmbito do pensamento contemporâneo foi ganhando peso, ao longo das últimas décadas, uma crítica profunda à noção de “humano” construída pela tradição ocidental. Torna-se cada vez mais evidente que essa ideia, apresentada historicamente como universal e neutra, funcionou na realidade como um modelo restritivo que deixou de fora múltiplas formas de existência e experiência. A partir desta constatação emerge o que hoje conhecemos como pós-humanismo: uma corrente plural que, na falta de um termo mais preciso, recorre ao prefixo “pós” para indicar não tanto a superação do humano, mas a revisão crítica da sua definição. Entre as suas figuras …

Continue lendo
pintura oriental a mostrar uma cabana e uma árvore numa pequena ilha no meio dum lago de águas mansas

O Silêncio como Último Luxo

Vivemos rodeados de ruído. Não apenas o ruído das cidades, mas o ruído permanente das notificações, das opiniões instantâneas, das urgências artificiais. O mundo moderno não nos deixa em paz — e talvez seja esse o seu maior triunfo e o seu maior fracasso. Nunca estivemos tão ligados; nunca estivemos tão pouco presentes. Ler um livro tornou-se um desafio. Ouvir uma música até ao fim, um exercício de resistência. Apreciar uma obra, uma paisagem, uma ideia, exige hoje algo raro: silêncio interior. Não apenas a ausência de som, mas a calma necessária para estar verdadeiramente ali, sem pressa de chegar …

Continue lendo
jornais num balcão

Quando a Verdade Precisa de Redações Fortes

Nunca houve tanta informação disponível — e nunca foi tão difícil encontrar a verdade. Vivemos numa época em que as notícias circulam à velocidade de um clique, libertas de mediação, contexto ou responsabilidade. As redes sociais democratizaram a palavra, mas também banalizaram a mentira. Neste cenário turbulento, o papel dos media nunca foi tão essencial — nem tão exigente. Os jornais, as revistas e as grandes publicações mundiais deixaram de ser apenas veículos de notícias. Tornaram-se guardiões de um princípio ameaçado: a verificação dos factos. Num espaço público inundado por rumores, teorias conspirativas e manipulação emocional, o jornalismo sério representa …

Continue lendo
imagem da 1ª reuniao do Observatório da Lusofonia do governo galego

Que lusofonia para a Galiza?

No passado dia 9 de outubro de 2025 realizamos em Compostela a conferência «Sociedade Civil, Língua e Relações Internacionais» em colaboração com a Comissão Temática de Promoção e Difusão da Língua Portuguesa, dos Observadores Consultivos da CPLP (Comissão Temática). Um evento como este é um signo de esperança em que as ações vindas da base, mais cedo ou mais tarde, acabam dando o resultado esperado, multiplicando os efeitos positivos das atividades de grupos reduzidos de pessoas em benefício de toda a comunidade, e com um reconhecimento formal a nível galego e internacional. Esta série de conferências da Comissão Temática já …

Continue lendo
desenho de um homem, a gritar com o braço levantado e uma pasta de couro baixo o braço

A Agulha Invisível

Apesar de dar aulas de jornalismo há quase vinte anos – comecei este fascinante caminho, de forma muito singela, com umas poucas horas, em 2006 e, desde então, nunca mais deixei de acreditar que é num bom sistema de educação e de formação que podemos, de facto, contribuir para mudar o mundo – nunca dei disciplinas de teorias da Comunicação. As teorias da Comunicação, no entanto, dão comigo, constantemente. Especialmente as que entraram no desuso do tempo – das que, justamente, melhores estudos e quem os pensou bem tornaram naturalmente obsoletas, às que foram precipitadamente declaradas inúteis pela máquina de …

Continue lendo
imagem de IA duma escola cheia de ecrãs e um robot

Inteligência Artificial e Escola: Entre o Medo e a Responsabilidade

A Inteligência Artificial entrou na escola sem pedir licença. Não passou pela porta principal, nem esperou por regulamentos ou consensos pedagógicos. Instalou-se nos telemóveis, nos computadores, nas mochilas invisíveis dos alunos. E, como sempre acontece quando a tecnologia avança mais depressa do que a reflexão, o primeiro sentimento foi o medo. Pais receiam que os filhos deixem de pensar. Professores interrogam-se sobre a autenticidade dos trabalhos. Escolas procuram regras para distinguir o esforço genuíno da facilidade artificial. A pergunta repete-se, com ansiedade legítima: como saber o que foi feito pelo aluno e o que foi feito pela máquina? Mas talvez …

Continue lendo
cravo vermelho segurado por um punho contra o céu. A preto e branco

Democracia: O Valor que Resiste Quando Tudo Vacila

A democracia nunca foi um dado adquirido. Foi sempre uma conquista frágil, imperfeita, em permanente construção. Nasceu do conflito, cresceu na dúvida e sobreviveu graças à coragem de quem acreditou que o poder devia servir — e não dominar. Hoje, num mundo atravessado por guerras, desinformação, autoritarismos renovados e medos antigos, a democracia volta a ser posta à prova. Vivemos um tempo em que a força reaparece como argumento, a mentira como estratégia e o medo como método. Há países onde votar deixou de ser escolha livre; outros onde a palavra perdeu valor; outros ainda onde a diferença se tornou …

Continue lendo
orador no speaker's corner em 1974 a Preto e Branco rodeado de pessoas a ouvir

Campanhas na Superfície, Democracias em Suspensão

As campanhas eleitorais tornaram-se o espelho inquietante do nosso tempo. Decorrem num espaço saturado de desinformação, alimentadas por redes sociais que privilegiam o choque à reflexão, a agressividade ao argumento, o instante ao futuro. Discute-se muito, grita-se mais ainda — mas fala-se pouco do essencial. Nunca houve tantos meios para comunicar e nunca foi tão difícil compreender. A política passou a disputar atenção num território dominado pela velocidade e pela emoção. As ideias longas perdem para as frases curtas; a complexidade cede lugar ao slogan; a verdade torna-se secundária face à eficácia narrativa. Navega-se na espuma dos dias, enquanto os …

Continue lendo
imagem de Oleiro a trabalhar- fotogaleria Alberte Paz

Mãos de estirpe

Mãos e alma que transformam a argila. Mãos ferramentas primordiais desgastadas pelo tempo e pelo trabalho. Mãos repletas da sabedoria de uma estirpe que transcende as palavras. Mãos que sentem a textura, controlam a força e modelam a forma. Mãos que aprimoram. Mãos-ponte entre o tosco e o belo. Mãos que transformam o barro telúrico que atravessa milénios. Cada dobra, cada sulco, cada mancha de barro nas mãos de um oleiro contam uma história de meditação e de conexão matéria-espírito. Lentes de fotógrafo que capturam a beleza e revelam a paixão que permeia cada etapa do processo. Lentes vítreas ao …

Continue lendo
mapa a PB da Baia de Guantanamo

Democratas e ditadores

Sabemos bem qual a diferença entre os democratas e os ditadores, e os média actuais, felizmente, são rápidos a recordar-nos essa diferença. Os democratas, mesmo que o seu país esteja sob ataque directo de uma potência estrangeira ou de uma organização terrorista, fazem questão de afirmar, e pôr em prática, os princípios da liberdade – de expressão, de movimentos e de organização. Foi, aliás, com base nestes princípios inabaláveis – que só uma democracia plena pode afirmar – que, por exemplo, após o 11 de Setembro de 2001, os Estados Unidos criaram o ‘resort’ de Guantánamo. Para que, no território …

Continue lendo
ressonância aquática

Anomia e ressonância

Num contexto como o atual, atravessado por conflitos armados e ameaças globais, pelo aumento da desigualdade sócio-económica e pela crise ecológica, ao qual se somam as disrupções tecnológicas e a ascensão da extrema-direita violenta e reacionária, cresce uma sensação difusa de anomia, de perda de referentes, de impotência e de cansaço vital. Também uma forma de alienação que se manifesta ao viver de modo automático, executando ações que ninguém nos obriga a realizar mas que tampouco desejamos, ou levando um estilo de vida no qual já não nos reconhecemos. Neste cenário, a pergunta pela “boa vida” — por uma vida …

Continue lendo
mapa a PB do Irão

O Irão faz fronteira com a Venezuela

… na verdade, faz fronteira com todos os países cujas economias têm vindo a ser fustigadas pelas sanções, unilateralmente impostas pelos Estados Unidos. Sanções que constituem, em si mesmas, uma violação da Carta das Nações Unidas. Nenhum país pode, unilateralmente, sancionar outro. Os Estados Unidos fazem-no porque ainda dispõem de um poder assimétrico: controlam, através do dólar, a economia mundial. E transformam, por isso, nestes casos, o dólar, e o sistema financeiro que lhe está associado, em armas para fazer guerra económica. Guerra de anos, décadas. Por muito silenciosa que ela pareça, não se pense que esta guerra não tem …

Continue lendo
Duas pessoas mascaradas de Felos a posar para a fotografia

Rir e comemorar o entroido em Maceda

Algumas notas sobre felos e felonia Tioira é numa imensa planura, de milho e vacas, com a serra de S. Mamede em fundo. É esta a terra dos felos, em Maceda, que chegam com as suas máscaras, o fato elegante e um ar de troça provocador. Acodem em grupo, vêm em família, porque as mulheres e as crianças já podem envergar o fato dourado e elegante. Sigo-os pelas ruas da aldeia, enquanto o dia vai desaparecendo e o frio aumenta. Param no «Lar dos Felos», comem empanada e filloas, bebem. Tiram então as máscaras, que deixam alinhadas com outras idênticas, …

Continue lendo
Rapaz jovem sentado na rua em protesto a olhar para um polícia que está a ralhar com ele

Resistir com esperança: a forma mais nobre de não desistir

Há quem confunda resiliência com resistência cega. Mas resistir, no sentido mais humano, não é endurecer — é permanecer fiel ao que acreditamos, mesmo quando tudo à volta convida à desistência. A verdadeira resiliência não nasce da negação da dor, mas da capacidade de atravessá-la sem perder o sentido. Vivemos tempos difíceis para a esperança. As crises acumulam-se, as certezas dissolvem-se, e o cansaço instala-se como um ruído de fundo. Tornou-se fácil descrer, afastar-se, proteger-se do mundo. Mas é precisamente nesse momento que a esperança deixa de ser uma emoção e passa a ser uma escolha consciente. Resiliente não é …

Continue lendo
homem a caminhar entre o nevoeiro numa estação de comboios

Manhã Submersa

“À nossa volta crescia a ameaça insidiosa de um Outono pálido, profundamente cansado, cheio do aroma de todas as coisas mortas. Os castanheiros esguios, errantes pela colina, vagos, desencorajados, desfaziam-se lentamente das folhas amarelas, como quem desiste de tudo. No céu húmido e densamente azul, um sol taciturno aguardava, sem interesse, o fim do dia, como um velho inválido numa cadeira de braços, que já não tem projectos para amanhã. E para o fundo do vale, como para uma sepultura, descia uma neblina espessa, irremediável, que amortalhava para sempre a memória de tudo.” Vergílio Ferreira in “Manhã Submersa” (1954) Não …

Continue lendo