homem a caminhar entre o nevoeiro numa estação de comboios

Manhã Submersa

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“À nossa volta crescia a ameaça insidiosa de um Outono pálido, profundamente cansado, cheio do aroma de todas as coisas mortas. Os castanheiros esguios, errantes pela colina, vagos, desencorajados, desfaziam-se lentamente das folhas amarelas, como quem desiste de tudo. No céu húmido e densamente azul, um sol taciturno aguardava, sem interesse, o fim do dia, como um velho inválido numa cadeira de braços, que já não tem projectos para amanhã. E para o fundo do vale, como para uma sepultura, descia uma neblina espessa, irremediável, que amortalhava para sempre a memória de tudo.”

Vergílio Ferreira in “Manhã Submersa” (1954)

Não consigo distinguir o país no nevoeiro gélido e húmido que sobre ele se abateu. Acho que a noite foi pior do que eu pensara. Por momentos, senti um alívio, logo a seguir, pena de o ter sentido.

Como acordar um país que está, de novo, raptado pelo sono?

Penso que nos estamos todos a enganar, levados no embalo do mal menor. Vejo gente cansada, a energia de outrora parece ter desabado sob o peso de um medo inaudito. É isto que me surpreende na manhã submersa. Para onde se drenou a força antiga? Que força era essa que se parece agora esvair ao mais leve sinal de imediação da derrota? Há uma reinvenção a pedir para acontecer, mas o que encontro, na deriva, são vultos e espectros de vidas passadas.

Onde está a terra dura? Onde está o olhar fixo na promessa?

Deixar que o país aconteça assim não é escolha nem caminho que se admita. Mas é preciso reconhecer, nem que doa muito, que, afinal, o medo venceu. Sobra-lhe o peso demasiado da inanição. Sobra-lhe o movimento finalmente estancado. Sobra-lhe a urgência de percebermos que a força não se perdeu, só o olhar vagueia à procura de uma linha de horizonte, tudo isto é energia potencial a acumular-se sem a vermos, até voltar a ser cinética.

Como acordar um país que está, de novo, raptado pelo sono?