Ao ser convidado a colaborar neste projeto empolgante que é De Norte a Sul, centrei a minha principal ressalva na dificuldade de escolher um tema sobre o qual escrever. Ainda permanecia com a mesma dúvida, no momento de encetar este texto, quando me lembrei do conselho de um antigo professor: “Se não sabes o que dizer, é melhor começares pelo princípio”.
Vou falar, portanto, do ponto de partida que me levou a perceber que a minha língua se estende, de norte a sul, da Corunha até Faro, ao longo do meridiano 8 oeste. Pois, no fundo, sem esta convicção, penso que não teria sentido expressar-me assim, como faço aqui.
Pertenço, talvez, à primeira geração de galegos que recebeu aulas de língua galega na escola (uma única disciplina) em toda a história do nosso país. Não posso negar que, já nesses primórdios do ensino, fomos instruídos sobre o facto incontornável da origem comum do galego e do português, e na semelhança de ambas as línguas. E refiro-me a duas línguas, porque a doutrina académica, a mormente transmitida (ainda que não a única, claro), ensinava que, apesar da sua proximidade, se tratava de dois idiomas distintos.
Naquela altura, não tinha motivo algum para discordar da versão oficial. Aliás, na minha aldeia havia alguns portugueses que vieram trabalhar no campo. Eu comunicava-me com eles sem grande dificuldade, mas é verdade que falavam com um sotaque peculiar (pareciam estar o tempo todo a fazer chiu com a boca) que identificava, certamente, como estrangeiro.
E, depois de ver pela primeira vez algo escrito em língua portuguesa — cês cedilhados, tildes de nasalidade e dígrafos “lh” e “nh” por toda a parte — aquela impressão ficou reforçada.
Mais tarde, na adolescência, descobri o que era o pensamento “reintegracionista” e cheguei mesmo a conhecer algumas pessoas que o apoiavam. Devo confessar que, à partida, a ideia de galego e português serem a mesma língua pareceu-me esquisita, quase uma bizarrice. Em todo o caso — pensava, parafraseando Bernard Shaw —, a Galiza e Portugal eram dois países separados por uma língua comum.
Na realidade, carecia de informação suficiente para ter uma opinião formada.
O desenlace deste relato — ou seja, a génese de tudo o que veio a seguir — ocorre no dia em que, já na universidade, entrei na livraria Torga, de Ourense, a perguntar por um título em concreto: O Livro do Desassossego. Tinha lido recentemente uma seleção de poemas e textos de Pessoa, traduzidos ao castelhano. Gostara tanto deles que vinha à procura de mais. O livreiro mostrou-me uma edição portuguesa e, ao manifestar eu o meu desconhecimento dessa língua e querer saber se havia alguma tradução para o espanhol, ele apenas disse:
— Leva-o em português, não vais ter qualquer problema para o entender.
Comprei o livro com certo ceticismo, que desapareceu no instante mesmo em que o comecei a ler. Como habitualmente se diz: o resto é história.
Muito tempo depois, a recordar este episódio, pensei na reação do livreiro, um rapaz jovem naquela época, mas já veterano ativista pela língua. Não houve na sua resposta nenhuma intenção doutrinadora, nem me fez sentir que estava a cometer um pecado imperdoável ao não pedir o livro em português. Acho que manteve a atitude de quem confia que, afinal, os factos falam por si. Da minha parte, continuo a pensar que, nas situações em que as próprias crenças são de algum modo desafiadas, essa deve ser a reação certa.
Finalmente, aproveitando este percurso pessoal que acabei de contar, queria falar em favor de uma postura perante a vida que não parece estar na moda hoje em dia: a de mantermos a mente aberta a ideias que nos são alheias, inclusive contrárias, sem por isso termos de renunciar necessariamente às nossas próprias. Em primeiro lugar, porque às vezes esquecemos que para chegarmos a conclusões que agora nos parecem justas e óbvias, antes tivemos de andar um longo caminho. Para além disso, já tenho idade suficiente para saber que as certezas de ontem podem tornar-se motivo de embaraço amanhã. Com isto não estou a defender o relativismo moral. Existem valores universais que devem ser colocados acima de tudo. E também temos de evitar cair na ingenuidade de ignorar que, por detrás de supostos argumentos objetivos, com frequência se ocultam interesses espúrios.
Simplesmente — em resumo — acho que deveríamos deixar de dar tanta importância a “ter razão” e de considerar como um bem supremo a prática de uma alegada coerência. Como explica o filósofo alemão Rüdiger Safranski, a verdade não nos faz livres; é a liberdade que nos faz verdadeiros.
De resto, como na hipnose, nunca vamos convencer quem não quer mudar de opinião. No outro dia, a este respeito, ouvi uma anedota de um comentarista de televisão:
Dois amigos discutiam acaloradamente num bar sobre se os leões rugiam para dentro ou para fora—quer dizer, puxando ou expulsando o ar. Como não se punham de acordo, decidiram apostar dinheiro e ir ao zoológico para resolver a disputa sem quaisquer dúvidas. Aproximaram-se da jaula do leão, aguilhoaram o animal e, quando este lançou um formidável protesto, o perdedor olhou para ele e berrou zangado:
— Não é assim que se ruge!

