Na Casa do Barrosão, a cozinha não é divisão da casa.
É território.
Os presuntos pendurados nas traves não são decoração rústica para fotografia bonita. São a prova material de uma vida inteira ligada à terra. Cada peça ali suspensa tem atrás madrugadas frias, erva carregada ao ombro, animais tratados todos os dias do ano, sem domingos nem feriados.
E depois há a fotografia na parede.
O trator cheio de fardos ocupa o lugar de honra porque, naquela casa, a fartura conquista-se. Não aparece. Não vem pronta. Faz-se.
Há um orgulho muito próprio no mundo rural: o de olhar para aquilo que se produziu e reconhecer nele o esforço da família inteira. O homem que lavrou. A mulher que tratou dos animais. Os filhos que cresceram entre o cheiro do feno e o peso do trabalho.
A riqueza significa ter presuntos a curar, lenha para o inverno, batatas na loja e comida suficiente para receber quem chegasse à mesa.
Talvez por isso aquela cozinha tenha tanta força.
Porque fala de um tempo em que a dignidade vinha directamente da capacidade de trabalhar e de sustentar os seus.
Dos textos e da fotografia © Maria José Afonso

